Criaturas que o mundo esqueceu. Esqueceu?

Por Antonio Bivar, jornalista, dramaturgo e autor de, entre outros, “Verdes vales do fim do mundo” e “Chic-a-boom”

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No último domingo, dia 5 de julho, morreu o escritor e dramaturgo Antonio Bivar Battistetti Lima, mais uma vítima da covid-19. Irreverente e crítico, sempre com bom humor, Bivar soube como ninguém fazer circular a cultura pop (e a contracultura) dentro do universo teatral brasileiro. Peças como Cordélia Brasil e Abre a janela e deixa entrar o ar puro e o sol da manhã, desde que foram encenadas pela primeira vez, na década de 60, entraram para o rol daquilo que de melhor se produziu na dramaturgia nacional. O texto abaixo, inédito – e certamente das últimas coisas que escreveu –, é uma resenha para o livro de contos Criaturas que o mundo esqueceu, do jornalista e pesquisador carioca João Carlos Rodrigues (Editora Humana Letra), a ser publicada no próximo número da Revista USP

 

 

Antonio Bivar – Foto: Arquivo Humana Letra

 

Desde a última grande crise (c. 2013) as megalivrarias também não escaparam da turbulência. Ainda assim, enquanto umas fecharam as portas, outras (também) grandes, mesmo contidas, levantam as suas. Editoras se queixam de não receber delas os devidos acertos; por isso não pagam a seus autores as cotas trimestrais, explícitas nos contratos, pela vendagem de seus livros.

No entanto, nunca se publicou tanto. É dar uma passada pelas mesas e estantes dessas livrarias e se admirar: as edições nunca foram tão luxuosas. Autores mortos há 70 anos, ou muito mais, tornados domínio público, muitos deles têm seus mesmos títulos lançados ao mesmo tempo por diferentes editoras. Parece que as editoras estão concorrendo com capas as mais vistosas e os livros impressos com os melhores papéis.

Simultaneamente, pequenas livrarias e editoras independentes demonstram aprimorado gosto em primorosas edições de menor custo, mas nem por isso modestas. Em São Paulo, de onde escrevo, um sem-número de editoras alternativas costuma unir suas forças no gosto pela boa literatura em eventos que vão das feiras de livros, desde as da USP, a todo o saguão da Biblioteca Municipal Mário de Andrade.

Uma das organizações dessas editoras é a Coesão Independente. Seus eventos e feiras são um sucesso, como tantos outros atraentes à afluência de interessados e curiosos. Impressiona o gosto de cada editor. Preciosidades nunca antes traduzidas e publicadas aqui, como o Childe Harold, de Lorde Byron, aos montões de Lovecraft, Allan Poe, Melville e outros assim clássicos, do gótico ao anarquista, e nacionais, como João do Rio, Lima Barreto, Machado e até Olavo Bilac. E, tão importante quanto, dezenas de novos autores brasileiros se lançam em tiragens pequenas, mas não menos caprichadas. Tanto no romance, como em contos, ensaios e poesia. Alguns são indicados e premiados em reconhecimentos importantes, como o Prêmio Cidade de São Paulo e o Jabuti.

Dessas novas editoras, cito três, por ter sido por elas publicado. A editora Reformatório, as Edições Barbatana e a Humana Letra. Desta última, o livro Criaturas que o mundo esqueceu, de João Carlos Rodrigues, que logo mais comentarei. Antes, algumas linhas sobre o autor.

O carioca João Carlos Rodrigues é um dos mais respeitados pesquisadores de história e arte, e seu trabalho, firme e elegante, não tem preconceito com nenhuma extração humana e social. Seu gosto pela pesquisa começou na infância, ganhou experiência na adolescência e munição ao longo de sua jornada. Em tudo que João Carlos Rodrigues toca e mexe, o resultado não abre flanco para dúvida.

Bivar no lançamento do último volume de suas memórias, em 10 de setembro de 2019, com o editor José Carlos Honório – Foto: Arquivo Humana Letra

Jornalista, João Carlos tem muitos livros publicados, entre eles João do Rio: vida, paixão e obra (para o qual recebeu a Bolsa Vitae) – e isso quando João do Rio amargava esquecimento. João Carlos Rodrigues foi seu primeiro redescobridor. Johnny Alf: duas ou três coisas que você não sabe, publicado pela Imprensa Oficial, é outra pérola de seu teclado. E roteiros para cinema (Rio Babilônia, filme de Neville de Almeida), TV e vídeos. De modo que a grande novidade é sua estreia na ficção. Criaturas que o mundo esqueceu é sua primeira obra de ficção publicada em livro. Um livro merecedor da atenção não só do “leitor comum”, mas também de professores e estudantes de nossa literatura contemporânea.

São dez contos que não deixam de se interligarem, resultando em quase romance. São contos brilhantes. Chocantes, cruéis, malditos mesmo. Mas também muito divertidos, no estilo camp, bem defendido por Susan Sontag. São contos brutalistas, mas realistas o bastante para dar asas à imaginação do leitor. Aqui também o autor revoluciona. O humor nunca é doce veneno para diabéticos; é humor salgado, picante.

Para quem, de algum modo, conhece o Rio de Janeiro dos dez contos de João Carlos, Criaturas que o mundo esqueceu é um verdadeiro roman à clef. Vai-se pescando aqui, fisgando ali, muitos personagens seus conhecidos. Nos contos não faltam, e nem podiam faltar, o nobre francês, a condessa descalça, a rica italiana, a ferina cronista mundana, ricaços paulistas e a abundância de pintosos veados, travecas, mariconas, sapatonas, michês, malandros, assassinos, mortos ressuscitados, boa noite Cinderela, numa promiscuidade de festas chiques, lupanares da Lapa, bordéis de homens, a perda do juízo de alguns e a subserviência ao ativo bem-dotado, numa fusão homoerótica de deixar de pé um papa.

O leitor, guiado pelo autor, é levado aos cardeais e colaterais da cidade, no que a cidade se gaba de seu decantado maravilhoso, sórdido e tinhoso. Menos Proust no gongórico, mais Mário de Andrade no conciso. Ainda assim, das coberturas de Copacabana, Ipanema e Leblon, às quimbandas de Cascadura e Brás-de-Pina, passando pelos trapiches da Gamboa, mas nunca estacionando na Barra da Tijuca. É a devassidão de um paraíso perdido além da imaginação de Milton. Tudo o que acontece nos contos poderia estar a acontecer agora, mas o autor preferiu ambientá-los em algumas décadas atrás, quando o Rio já dava pinta de pra lá de decadente.

O estilo da narrativa nunca se rende à piedade e à compaixão. É o Rio que João Carlos conhece bem mais que o turismo gay habitué não só do point na praia da Vieira Souto com a Farme de Amoedo. Será que lhes falta a coragem do autor para se atrever às picadas das colmeias sociais? Se for o caso, com este livro o leitor não precisa ir lá, pois lá se sentirá, lendo o livro.

O humor do autor é um lenitivo à parte. Se, em sua amoralidade crítica, o livro agita a adrenalina, também é verdade não se tratar de mera leitura descartável, que se lê numa só assentada. O bom gourmet sabe a hora de fechar o pote de caviar para, de colher, retomá-lo depois. O que o difere de outros cronistas cariocas, de antes e de agora, é que, enquanto a maioria via, e vê, a coisa do lado de fora, como quem aprecia uma vitrine, João Carlos Rodrigues traz para fora e joga na cara o de dentro dessa vitrine. É um mergulho fundo no útero do aberrado, e do mergulho arrasar, ao ressurgir, resplandecente, na tona.

Para mim, Criaturas que o mundo esqueceu é leitura obrigatória, mas penso que também seja obrigatória para o professor e estudante de literatura, assim como para o “leitor comum”, como se considerava Virginia Woolf.

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