CPI das universidades: perguntas certas geram respostas úteis

Por Hernan Chaimovich, Professor Emérito do Instituto de Química da USP e ex-presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)

Editorias: Artigos - URL Curta: jornal.usp.br/?p=274233
Hernan Chaimovich – Foto: Francisco Emolo / USP Imagens
Claude Lévi-Strauss, professor visitante na Universidade de São Paulo entre 1935 e 1939, disse com muita propriedade que “o cientista não é uma pessoa que dá as respostas certas, é aquele que faz as perguntas certas”. É justamente por isso que somente fazendo perguntas certas se possibilitam respostas úteis.

O jovem deputado estadual do PSL Douglas Garcia Bispo dos Santos, imbuído de sua prerrogativa de fiscalização do emprego de recursos públicos, requer do magnífico reitor da USP informações sobre “eventos de diversas vertentes ideológicas, políticas e filosóficas”. O reitor terá alguma dificuldade em identificar com precisão o significado do requerimento, pois vertentes ideológicas, políticas ou filosóficas podem ser definidas ou analisadas ou descobertas ou inventadas de um sem-número de formas e a própria definição do sentido da solicitação pode constituir um denso problema de pesquisa científica. Como dificilmente era essa a intenção do senhor Garcia, seria de bom alvitre que ele definisse com precisão os termos de seu pedido.

Já o requerimento da experiente deputada Carla Morando, líder do PSDB na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) e vice-presidente da CPI das Universidades, solicita que sejam discriminados detalhes de cada pesquisa feita nas universidades estaduais paulistas nos últimos oito anos, informando, também, custo e benefício gerado para a sociedade de cada trabalho. Nenhum termo desse requerimento precisa de esclarecimento e os oito anos descrevem, com precisão, um espaço de tempo definido.

Uma busca rápida no Web of Science nos informa que, dentre todos os documentos científicos indexados por esse sistema, a USP publicou, entre 2011 e 2019, 103.377 trabalhos. Já o Scimago, um sistema estatístico aberto, coloca essa quantidade perto de 130 mil. Uma média razoável da relação entre trabalhos publicados e o número de comunicações preliminares, que contribuem para cada uma dessas publicações, é da ordem de um para cinco. Assim, não é muito arriscado presumir que os 103.377 trabalhos publicados foram precedidos por mais ou menos 500 mil comunicações. Essa solicitação de informações da deputada Morando também deve ajudar a descobrir quantos livros cada docente da USP publicou no período.

O peso médio de um trabalho impresso de oito páginas (frente e verso) é de 22 gramas. Assim, o peso total estimado dos trabalhos publicados nesse período seria de, aproximadamente, 2,3 toneladas. As comunicações, se forem de somente uma página, adicionariam 750 kg. Um VUC (veículo urbano de carga) seria suficiente para transportar essa produção de pesquisa para permitir que o conteúdo fosse analisado manualmente pela Assembleia Legislativa. Claro que se não fosse desejável analisar tal conteúdo em papel, a digitalização poderia ser oferecida, em um total aproximado de 600 GB de informação.

A estimativa de peso/volume da pesquisa da USP tem de incluir o resultado dos TCCs (trabalhos de conclusão de curso) dos aproximadamente 60 mil profissionais que a USP formou nos últimos oito anos. Nesse caso, porém, a variabilidade da extensão desses trabalhos não permite uma estimativa do peso.

Já as teses e dissertações dos 50 mil pós-graduandos que receberam seus títulos nesse período claramente excedem, em muito, os pesos ou volumes ou gigabytes descritos. Sem considerar o peso das capas, cada tese pode chegar a ter 400 páginas e, assim, pode-se imaginar que um VUC, com capacidade de carga de até três toneladas, não seria suficiente para transportar todo esse conhecimento.

Naturalmente, o impacto de um único trabalho científico não pode ser estimado por seu peso em gramas ou em bytes de informação. Porém, impactos intelectuais, sociais e econômicos decorrentes da pesquisa em universidades como as estaduais paulistas, são sempre passíveis de mensuração. Para estimar o impacto, dever-se-ia, ao menos, mensurar o número de vezes em que esse trabalho foi citado por outros autores, ou quantas vezes esse trabalho foi citado em patentes, ou quantas patentes esse trabalho gerou, ou como esse trabalho foi usado para definir políticas públicas.

Para não me estender no tema creio de bom alvitre pedir que os solicitantes desses requerimentos cogitem precisar as perguntas para tentar obter respostas úteis para os contribuintes paulistas. O jovem deputado poderia, talvez, usar um glossário que especifique os termos da solicitação. A experiente deputada poderia, por exemplo, propor um fundo que repasse às universidades recursos que permitam fornecer informações que mostrem, por exemplo, por que as pesquisas das universidades estaduais paulistas teimam em ocupar as primeiras posições dos rankings de universidades na América Latina, ou como as pesquisas dessas instituições condicionaram a estrutura cultural, econômica e social deste estado.

 

(Texto publicado originalmente no Nexo, disponível em: https://www.nexojornal.com.br/ensaio/2019/CPI-das-universidades-perguntas-certas-geram-respostas-%C3%BAteis)

 

 

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