Cotas no Instituto de Relações Internacionais da USP: permanência e a excelência da graduação

Por Felipe Loureiro, professor e presidente da Comissão de Graduação do Instituto de Relações Internacionais da USP

 03/12/2021 - Publicado há 2 meses
Felipe Pereira Loureiro – Foto: Editora Unesp

 

 

O Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP iniciou a implementação de cotas em sua graduação em Relações Internacionais para alunos Pretos, Pardos e Indígenas (PPI) e para alunos de Escola Pública (EP) em 2016, em consonância com o movimento da Universidade de reserva de vagas para grupos historicamente marginalizados e sujeitos a diversas formas de preconceito em nossa sociedade.

Em 2021, também acompanhando o movimento geral da USP, metade das vagas no bacharelado em Relações Internacionais do IRI destinou-se a alunos cotistas, sendo 30% para alunos EP e 20% para alunos PPI.

O ingresso de alunos cotistas foi objeto de muitos debates na comunidade uspiana. No IRI não foi diferente. Quando a Congregação do instituto aprovou cotas para a graduação em 2015, uma das preocupações foi a de garantir que alunos cotistas não só permanecessem, mas sobretudo concluíssem o curso com a mesma qualidade que os demais discentes.

Foi nesse sentido que a coordenação de graduação, com apoio da Pró-Reitoria de Graduação da USP, iniciou em 2019 um mapeamento do desempenho dos alunos cotistas do bacharelado em Relações Internacionais do IRI. Durante três anos, compilamos dados de desempenho individual das disciplinas obrigatórias dos dois primeiros anos do bacharelado em Relações Internacionais de todos os discentes ingressantes no curso desde 2016, quando a primeira turma com alunos cotistas entrou em nossa graduação.

O contato diário com discentes no âmbito da Comissão de Graduação do IRI já nos indicava que os resultados seriam positivos. Era evidente, por exemplo, que os cotistas estavam se formando e ingressando com sucesso no mercado de trabalho. Mesmo assim, não tínhamos a visão geral do processo.

Com a finalização desse trabalho de mapeamento, o que ocorreu em setembro deste ano, quando da apresentação do relatório final à Comissão de Graduação do IRI, isso mudou. Agora tínhamos os dados em mãos. E os resultados se mostraram verdadeiramente impressionantes.

A primeira coisa que saltou aos olhos foi a taxa de evasão. Tal como imaginávamos, em sua amplíssima maioria nossos cotistas estavam concluindo a graduação a contento. Do total de discentes que evadiram o bacharelado em Relações Internacionais entre 2016 e 2021 – descontando-se casos de ingresso em outros cursos via vestibular ou transferência interna -, quase 80% referiram-se a alunos não cotistas.

Comparando-se a evasão dentro das mesmas categorias de ingresso (Ampla Concorrência, EP e PPI), vimos que a taxa de Ampla Concorrência foi levemente superior à de PPI (7,8% contra 7,0%), e muito superior àquela dos cotistas de Escola Pública (1,4%).

Em outras palavras, nossos cotistas estavam e estão se formando em proporção até maior do que os alunos que ingressaram no bacharelado em Relações Internacionais via Ampla Concorrência. Mas as notícias boas não pararam por aí. Quando avaliamos os rendimentos dos cotistas em termos de notas, os resultados foram ainda mais notáveis.

Independentemente da forma como se analisam os dados – seja a partir da agregação das médias de todos os alunos do período 2016-2021, seja discriminando notas por ano de ingresso, por semestre de matrícula, ou por áreas do bacharelado (Ciência Política, Direito, Economia, História e Sociologia) -, as conclusões são essencialmente as mesmas: o desempenho dos alunos cotistas (EP e PPI) mostrou-se praticamente idêntico ao dos discentes não cotistas.

Alguns exemplos para ilustrar essa conclusão: a média de notas das disciplinas obrigatórias dos dois primeiros anos da graduação em Relações Internacionais do IRI dos alunos AC foi de 8,13 pontos. No caso dos discentes cotistas EP e PPI, essa média ficou em 8,06 e 7,85 pontos, respectivamente; ou seja, uma diferença de apenas 0,8% para alunos EP e de 3,5% para alunos PPI.

O mesmo padrão repetiu-se para todas as formas possíveis de análise dos dados. Os maiores contrastes entre médias verificaram-se quando recortamos os desempenhos dos alunos a partir das áreas básicas de conhecimento do bacharelado em RI.

As disciplinas das áreas de Economia e de Sociologia do 2º ano da graduação foram as que apresentaram as maiores diferenças entre as médias dos discentes AC e PPI. Mesmo assim, em termos absolutos, essas diferenças foram mínimas – 0,4 e 0,6 ponto, respectivamente -, reforçando o que apontamos antes: disparidades de rendimento, quando existiram, foram muito pequenas, quase insignificantes.

As conclusões do trabalho de mapeamento de desempenho dos alunos de graduação em Relações Internacionais da USP demonstram que o IRI não só se tornou muito mais parecido com a sociedade paulista e brasileira nesses últimos seis anos, abrindo-se para um maior número de discentes pobres, pretos e pardos, mas também conseguiu garantir que esses alunos permanecessem no curso e, mais importante, que não apresentassem diferenças significativas de desempenho em comparação a alunos não cotistas.

É evidente que o fato de sermos uma das menores unidades da USP e de a nossa graduação ser numericamente pequena – o IRI conta com apenas 293 alunos de graduação ativos, 0,49% dos mais de 59 mil alunos de graduação da USP – permitiu que nós realizássemos um trabalho muito mais próximo junto a discentes vulneráveis, buscando evitar ao máximo sua evasão e garantindo que o desempenho desses alunos fosse o melhor possível frente às suas adversidades.

Da mesma forma, os resultados do mapeamento que fizemos não significam que dificuldades não existam e que a integração de alunos cotistas em nosso bacharelado não tenha que se manter como uma contínua preocupação da comunidade do IRI, especialmente da Comissão e da coordenação de Graduação da unidade.

Mesmo assim, em que pesem todas essas considerações, é seguro dizer que o IRI conseguiu garantir de forma muito bem-sucedida, em termos gerais, aquilo que é o mais importante quando se fala sobre cotas de ingresso estudantil: não apenas colocar alunos em condições socioeconomicamente desfavoráveis e/ou que sofrem preconceito racial em nossa sociedade para dentro da Universidade, mas garantir que eles e elas se mantenham no curso e o realizem com a mesma qualidade que os demais estudantes.


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