Corpo e território: perspectivas de quilombo a partir da “cracolândia”

Por Amanda Gabriela Amparo, mestranda na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP

Editorias: Artigos - URL Curta: jornal.usp.br/?p=370610
Amanda Gabriela Amparo – Foto: Arquivo pessoal
Partindo da noção de territorialização do corpo e corpo território, analisamos a dimensão de quilombo pensado a partir da “cracolândia” (1). Traçando os marcadores dos corpos que habitam este espaço, poderíamos chamá-los de corpo/cidade e talvez expandir tal noção, possibilitando explorar outros modos de pensar este espaço “cracolândia”. Compreendendo que, acima de tudo, há um trânsito de corporeidade, de movimento, que se intersecciona ao movimento da cidade. Observa-se que oito em cada dez usuários regulares de crack nestas cenas são negras e negros. Com isso podemos apreender a possibilidade de pensar a “cracolândia” como um espaço de refúgio de pretas e pretos, já marcados na cidade pela ausência de possibilidades de estar em outros cantos. Podendo entender que a “cracolândia”, nesta dimensão, exerce o papel de um quilombo urbano.

A experiência de pensar a “cracolândia” vai muito além de uma questão meramente espacial, mas sem dúvida é uma questão de pensar pessoas e seus universos. São tantas as questões que se intercruzam na análise deste fluxo (2), que talvez seja muito difícil não considerar o grau de dificuldade de olhar para todas estas relações, e compreender que acima de tudo há um trânsito de corporeidade, de movimento, que se intersecciona ao movimento da cidade. No entanto, notar estas corporeidades é, antes de mais nada, entender sua estrutura no todo da cidade, para, partindo daí, compreendê-las dentro de um grupo como o da “cracolândia”. Traçar os marcadores destes corpos, o que poderíamos chamar de corpo/cidade, e talvez expandir tal noção, nos possibilitando explorar outros modos de pensar este espaço, “cracolândia”, é o que pretendemos.

Os corpos aqui se configuram enquanto quem quer existir, existir na cidade, para cidade e da cidade. No entrelace da relação destes corpos com a cidade é possível entendê-los também como um corpo que resiste à cidade, e esta resistência se configura como existência na “cracolândia”. Então os marcadores destes corpos/cidade que habitam a “cracolândia” são em sua maioria produzidos pela própria cidade na mesma dimensão em que são produtores. Observar os dados sobre os corpos que transitam em tal espaço é uma forma de entender as complexidades do território. Oito em cada dez usuários regulares de crack são negros. Oito em cada dez não chegaram ao ensino médio, 40% deles estão em situação de rua, 49% já tiveram passagem pelo sistema prisional (Garcia, 2016). A vulnerabilidade na qual é possível perceber tais corpos, não é dentro da dimensão “cracolândia”, mas na dimensão cidade, é nela que estes marcadores funcionam enquanto um seletor de experiências, positivas ou negativas, que inclui ou exclui. Entendê-los nas dimensões em que a cidade os compreende, é também entender qual o papel que espaços como o da “cracolândia” pode estar exercendo na vida das pessoas que o habitam.

Então aqui podíamos pensar na “cracolândia” como um espaço de refúgio de pretos e pretas, já marcados na cidade, marcados pela ausência de possibilidade de estar em outros cantos da cidade, e assim não seria demais compreender que a “cracolândia” nesta dimensão exerce o papel de um quilombo urbano. A proposta desta conceituação não seria romantizar ou mesmo superqualificar tal espaço, mas trazer à tona a premissa de território, que se formula enquanto tal, acima de tudo, pelo conjunto de relações que ali se forma, que ali transita. É dar significado ao contexto comum dos seus habitantes, onde mais importante do que a localização geográfica (até porque a “cracolândia” não se localiza apenas em um ponto específico, se trata de um território em movimento) é o seu fluxo de relações, que perpassa a condição relativamente comum de pretas e pretos na cidade. A vulnerabilidade na qual se encontra a categoria preta/preto dentro da cidade é nesta, e por esta condição é possível pensar que a “cracolândia” passa a ser o único lugar de possiblidade de existência para alguns.

A perspectiva de existência é intrínseca, porém a existência traz em si a concepção fundamental de resistência. Resistir ao racismo, à exclusão, ao medo, à solidão, à fome, ao frio, à morte. Com isso é possível pensar neste território como uma comunidade que, em alguma medida, se estabelece enquanto lócus de alteridade em relação à cidade. A noção aqui de aquilombamento se dá, portanto, como uma ação contínua de existência autônoma frente aos antagonismos que se evidenciam na cidade. Beatriz Nascimento nos chama a atenção para a ideia de a instituição quilombo não estar apenas direcionada ao território, mas ao indivíduo em si, cada pessoa pode ser um quilombo (Nascimento, 1994; apud RATTS, 2006). Tendo como eixo tal perspectiva, é possível pensar nestes corpos/quilombos que, no encontro com o coletivo possível de sua existência na “cracolândia”, se configuram como um território itinerante que resiste às práticas da cidade, mas que também é produzido por ela.

Notas:
(1) O termo “cracolândia” está sendo usado entre aspas por se tratar de um termo pejorativo, que identifica determinadas aglomerações de pessoas em espaços do centro de São Paulo, mais especificamente no bairro da Luz. Em uma entrevista, Carl Hart nos chama a atenção para o poder estigmatizante do termo, uma vez que são muitas as relações e interações neste espaço, e que o uso da substância crack não poderia ser a definidora de tais interações.

(2) Fluxo é o nome dado às ruas onde está concentrado o maior número de pessoas da área conhecida como “cracolândia”, mas que isso tem aqui também uma dimensão de trânsito de relações e objetos. A exemplo a autora Taniele Rui (2014) utiliza-se da categoria nativa “fluxo” para dar conta da circulação de pessoas, objetos e relações nesse território, reforçando a ideia de uma dinâmica.

Referências bibliográficas

GARCIA, L. D. S. L. “Apresentação Senad/MJ”. In: SOUZA, Jesse (Org). Crack e Exclusão. Ministério da justiça e cidadania/ Secretaria Nacional de Políticas de Drogas, 2016.

RATTS, Alex. Eu sou atlântica: sobre a trajetória de vida de Beatriz Nascimento. São Paulo: Instituto Kuanza, 2006.

.

.


Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.