Coronavírus: o egoísmo e a promoção da morte

Por Clotilde Perez, professora titular de Semiótica e Publicidade da ECA/USP

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Clotilde Peres – Foto: Arquivo pessoal

 

Nossas piores previsões sobre 2020 estavam ligadas, em nível global, ao terrorismo, guerras persistentes, expansão da China, questões climáticas e a centralidade da inteligência artificial e dos algoritmos na vida cotidiana direcionando nossas escolhas. No Brasil, as queimadas, o retrocesso no âmbito social e comportamental, a degradação das relações sociais pelas polarizações e individualismos exacerbados, os desastres ambientais provocados pela exploração irresponsável da natureza com centenas de mortes, a economia que não melhorava, indisfarçável pelo desemprego de mais de 13 milhões de brasileiros.

Já estávamos em sofrimento havia algum tempo. Um passado que não explica, um futuro que não vislumbramos, presentificamos nossa vida em uma espécie de carpe diem eufórico que parecia permanente, até que o presente se tornou insuportável. As “saídas” já estavam dadas ao melhor sabor pós-moderno: maratonas de filmes e séries, aumento no consumo de antidepressivos, substâncias alucinógenas (muitos cogumelos se espalharam pelas vitrinas, revistas, filmes, estampas etc. – símbolo estético da fuga da realidade), rir de tudo, todas soluções imediatas, escapismos primeiros e primários, paliativos. Mas veio do universo invisível nossa maior ameaça: um vírus.

Em estilo medieval, o inimigo desconhecido coloca em quarentena – “coincidentemente” na quaresma – boa parte de nós, humanos habitantes deste planeta, sem distinção de etnia, classe ou gênero. Situação inaugural, nunca antes vivida, colocando em xeque nossa capacidade de nos relacionarmos com aquele próximo, bem próximo, que talvez estivesse bem apartado, quer pelas condições de vida fragmentada e agitada, impostas principalmente nos grandes centros, quer pelas distâncias afetivas imperceptíveis.

Nossas crenças falharam, no livre mercado, no capitalismo improdutivo dos bancos, na redução de direitos, na crença em corporações com suas causas e propósitos, no entendimento de que o dinheiro compra tudo, que cada um no seu quadrado é melhor que o coletivo, na mais pura e vil camarotização da vida. De onde vem a possibilidade de acolhimento, cuidado e eficiência? É do Estado. Do SUS e dos melhores hospitais, das universidades públicas e dos cientistas brasileiros. É da ciência e do Estado, que apesar dos ataques, na saúde, ainda se preserva, para ódio dos deslumbrados com a autoimagem nas redes sociais, que por acaso também governam este país.

Aliás, o governante máximo, eleito por um misto de egoísmo e irresponsabilidade e por uma turba de semelhantes que promulgam o retrocesso e celebram a ignorância, segue sendo o que sempre foi: um promotor da morte. Com a gestualidade das armas, passando pelas agressões às mulheres, aos índios, aos pobres etc., até o absurdo de afrontar todas as recomendações médicas e sanitárias, participando de movimentações ideológicas por ele convocadas, cumprimentando as pessoas com apertos de mãos, abraços e tirando selfies, afirmando que vai fazer festinhas, mesmo estando em observação, dado que vários dos políticos de sua recente comitiva aos EUA estavam contaminados pela covid-19. O que há em comum em tudo isso: o apagamento da humanidade, pela agressão física, moral ou biológica!

Mas temos uma oportunidade. Talvez precisássemos de uma condição limite para que fosse possível se sensibilizar, refletir e mudar. Queremos continuar assim irresponsáveis? Queremos continuar vivendo em uma sociedade onde poucos têm tudo (inclusive coronavírus) e muitos têm tão pouco (mas, também coronavírus)? Será que o elemento aglutinador que nos faltava para a mudança veio justamente da invisibilidade e da insignificante, mas potente, vida microscópica? Para mim, sim. A pandemia vai passar, vamos ter de lidar com as perdas, principalmente humanas, mas teremos a oportunidade única de responder à questão fundamental: o que queremos para a nossa vida?

Como em A peste de Albert Camus, ou mesmo em Decameron de Giovanni Boccaccio, o flagelo pode fazer surgir a reflexão sobre a natureza do destino, a fragilidade da condição humana e, quiçá, a solidariedade irrestrita. E, se assim for, todo esse turbilhão avassalador e destrutivo terá feito algum sentido.

 

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