Clóvis Rossi: precisamos de muitos como ele

Luiz Roberto Serrano é jornalista e superintendente de Comunicação Social da USP

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Luiz Roberto Serrano – Foto: jornal.usp.br

Un grand journaliste ne doit pas chercher la popularité, mais la considération.

A frase é a epígrafe de um dos capítulos de um dos inúmeros livros já publicados sobre o lendário jornal francês Le Monde.

Clóvis Rossi, o repórter que nos deixou na quinta-feira passada, 13 de junho, aos 76 anos, provavelmente nem conhecia essa frase, mas ela ajustava-se perfeitamente a ele, à pessoa e ao profissional.

Quem o lia como colunista nos últimos tempos deve estranhar que eu o chame de repórter. Não, não é uma diminuição de sua dimensão profissional, pelo contrário. O repórter é o profissional mais importante de uma publicação, é o que traz a informação.

Sem ele nenhuma publicação séria se sustenta. Com o tempo e a experiência, o repórter soma a análise à informação e até mesmo a opinião, quando a vivência e o veículo lhe permitem isso e os leitores não só aceitam, mas anseiam por ela, como por uma luz na penumbra.

Rossi sempre quis ser e foi repórter e tornou-se um ícone na profissão pois exerceu com maestria o relato, dentro das circunstâncias de cada fato, a análise e a opinião.

Crítica, sempre.

Quando, nos anos 70, sua competência o levou, circunstancialmente, a ser editor chefe de O Estado de S. Paulo, fez uma viagem à Cuba e publicou uma matéria de duas páginas no jornal, à qual anexou um quadro em que alertava que o conteúdo refletia a sua visão do país de Fidel Castro, não necessariamente a do jornal. Fato raro na história da mídia.

Fomos colegas na IstoÉ. Quando o presidente Carter veio ao Brasil, em 1978, e se encontrou com D. Paulo Evaristo Arns e mais cinco personalidades, no Rio de Janeiro, para conversarem sobre direitos humanos no País, fez o melhor relato sobre o encontro. Lembro-me que Mino Carta o recebeu de pé, aplaudindo, depois da publicação da matéria.

São duas das incontáveis histórias que vivenciou, lembradas por seus colegas nas páginas dos jornais depois de sua inesperada partida.

Clóvis Rossi, um dos jornalistas mais respeitados do Brasil – Foto: Reprodução / Jornal Nacional via Youtube

Rossi foi um daqueles repórteres e correspondentes internacionais que, antigamente, rodavam o mundo cobrindo eleições e crises, profissional que, com raras exceções, não existe mais nas grandes organizações jornalísticas brasileiras.

Durante mais de trinta anos marcou ponto nas reuniões de Davos e desenvolveu uma proximidade natural com todas aquelas estrelas da política e da economia globais. Mas também conviveu com muitas bombas de gás lacrimogêneo nas ruas de São Bernardo quando cobria as greves do ABC, pela IstoÉ, junto comigo, Ricardo Kotscho e o também saudoso José Meirelles Passos.

Exerceu seu talento em O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil, IstoÉ e Jornal da República, estava na Folha de S. Paulo desde 1980, na qual também foi membro do Conselho Editorial.

Graças a essa experiência acumulada, sua coluna na Folha de S. Paulo era um oráculo sobre os caminhos do Brasil e do mundo.

À admiração dos leitores que acumulou ao longo de sua vida profissional, somou-se a de todos os colegas que com ele trabalharam ou acompanharam sua carreira de longe. Foi um ícone na profissão, pela competência, pelo coleguismo e pela humildade, surpreendente para quem tinha uma história como a sua.

No seu labor diário, boa parte exercida nos tempos da ditadura, sempre esteve sintonizado com as causas justas e democráticas. Eram o seu norte.

O jornalismo, atualmente, é visto com muita desconfiança pelo leitorado, hoje chamado de audiência, em função da dominação digital. Procura-se, sempre, a intenção oculta por trás de determinada reportagem, desconfia-se dos propósitos dos jornalistas e dos veículos. Enxergam-se conspirações em todos os cantos.

É o reflexo da divisão e da polarização, nunca antes vivenciadas, na sociedade.

Quem perde é a democracia, para a qual o jornalismo é peça essencial, inamovível – e é levado de roldão pelas paixões dominantes.

O antídoto a esse desmanche poderia ser a multiplicação de Clóvis Rossis pelas redações do Brasil, grandes, pequenas, as que ainda resistem impressas, rádios, TVs e, mais do que nunca, digitais.

Sei que essa possibilidade está mais para wishfull thinking do que realidade.

Seria um caminho para a imprensa recuperar a considération hoje tão questionada.

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