Clima coloca dificuldades à quebra de todos os recordes

Por Marcos Fava Neves, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP) da USP, Vinícius Cambaúva e Vitor Nardini Marques, mestrandos na FEA-RP

 22/02/2022 - Publicado há 4 meses
Marcos Fava Neves – Foto: Arquivo pessoal
Vinícius Cambaúva – Foto: Arquivo pessoal
Vitor Nardini Marques – Foto: Arquivo pessoal

 

Vamos às reflexões dos fatos e números do agro em fevereiro e o que acompanhar em março. Na economia mundial e brasileira, o Boletim Focus (Bacen) de 4 de fevereiro, do Banco Central, trouxe as expectativas econômicas para este ano e o próximo, sendo: para o Produto Interno Bruto (PIB), espera-se um crescimento de 0,3% em 2022 e de 1,53% em 2023; já para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a estimativa é de 5,44% este ano e em 3,50% no próximo ano; o câmbio deve ficar em R$ 5,60 no final de 2022 e em R$ 5,50 no final de 2023; e a taxa Selic deve fechar o ano em 11,75% e em 8,0% em 2023.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) reviu suas estimativas para o crescimento econômico mundial. Segundo a organização, o desempenho do PIB global em 2021 foi de 5,9%, e espera-se uma alta de 4,9% em 2022.

Já o preço do petróleo segue firme devido à demanda forte, problemas logísticos e tensões geopolíticas. Goldman Sachs prevê alta até 2023, chegando a US$ 100 neste terceiro trimestre.

De volta ao Brasil, estima-se que pouco mais de 50% dos R$ 300 bilhões distribuídos no programa de Auxílio Emergencial foram gastos em alimentos. O Auxílio Brasil em 2022 deve ter efeito semelhante, beneficiando o consumo no mercado interno.

No agro mundial e brasileiro, o índice de preços de alimentos da Agência das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) voltou a crescer no primeiro mês de 2022 em 1,1%, atingindo 135,7 pontos, valor recorde para o indicador. O índice está 22 pontos acima do que foi constatado em janeiro de 2021. Óleos vegetais e laticínios puxaram a alta do mês, com respectivos aumentos de 4,2% e 3,2%. Seguimos com o fantasma da inflação nos alimentos nos assombrando.

Nas atualizações de fevereiro da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra brasileira de grãos 2021/22 foi revista de 284,4 (janeiro) para 268,2 milhões de toneladas; redução de 5,7% em um mês, mas ainda 5,0% maior que a produção total no ciclo passado. A redução é resultado das fortes secas que afetaram importantes regiões produtoras, especialmente no sul do Brasil, além do excesso de chuvas em estados do Centro-Oeste. A principal alteração se deu para a cultura da soja, que caiu de 140,5 para 125,5 milhões de toneladas, baixa de 10,7%. Com isso, a produção da oleaginosa deve ser 9,2% menor neste ciclo em comparação ao passado. Já o milho não sofreu variações significativas na nova estimativa, permanecendo com a produção total estimada em torno de 112,3 milhões de toneladas, alta de 29,0% na comparação com 2020/21. Deste total, 23,4 milhões de toneladas serão produzidos em primeira safra e o restante – 87,9 milhões de toneladas, em segunda ou terceira safras. A área de milho segunda safra também foi levemente reajustada para baixo este mês, em 0,2%, agora estimada em 20,89 milhões de hectares (+4,8%). Por fim, o algodão deve entregar 2,71 milhões de toneladas de pluma (+15,0%) em uma área de 1,53 milhão de hectares (+12,1%).

Cenário de queda na produção da oleaginosa é bastante crítico no Paraná, onde o Departamento de Economia Rural (Deral) já estima uma colheita de 12,83 milhões de toneladas, uma queda de 35% frente à safra passada (19,8 milhões toneladas) e de 38,9% em comparação à previsão do início da temporada (21 milhões de toneladas). A estiagem castigou as lavouras do Estado, sendo que apenas 36% delas estão em condições boas. Vamos torcer para uma reversão desse cenário.

Em relação ao progresso das operações da safra atual, a Conab estima que até o dia 5 de fevereiro, 16,8% das áreas de soja já haviam sido colhidas no Brasil, contra 3,6% na mesma data do ciclo passado. Já a colheita do milho verão (1ª safra) está em 14,6%; era de 12,0% há um ano.

Do lado do plantio, a semeadura da safrinha (2ª safra) do cereal registrou progresso de 22,4% até o momento, valor bem superior aos 4,1% no mesmo período de 2021. Vale lembrar que estamos dentro da janela ideal de plantio, a qual se estende entre janeiro e fevereiro, mas que a cada dia que se passa, o potencial produtivo pode ser reduzido em uma saca por hectare, segundo pesquisadores da Embrapa. Por sua vez o plantio realizado fora do período ideal pode gerar riscos de perdas de até 100%. Mesmo assim, estamos confiantes de que, se o clima ajudar, teremos bons resultados com o milho este ano.

Por fim, no algodão, o plantio alcançou 79,6% da área total no País, contra 66,6% em 4 de fevereiro de 2021. Ritmo acelerado nas principais cadeias do agro brasileiro; no campo, os produtores estão dando um show, como sempre!

As contrações de crédito rural durante os sete primeiros meses do ciclo 2021/22 alcançaram o volume financeiro de R$ 174 bilhões, o que equivale a um crescimento de 31% frente ao mesmo período da safra passada, segundo dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Dentre as modalidades, o crédito de comercialização é aquele com maior crescimento (+69%), atingindo quase R$ 19,5 bilhões; custeio chegou a R$ 94,7 bilhões (+31%); investimentos a R$ 50,3 bilhões (+21%); e industrialização a R$ 9,5 bilhões (+25%).

O segundo levantamento do Mapa para o Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBP) de 2022 traz uma estimativa de faturamento da atividade agropecuária de R$ 1,204 trilhão, valor 4,3% superior àquele obtido em 2021 (R$ 1,154 trilhão). As lavouras devem ser responsáveis pela geração de R$ 867,8 bilhões (+10,3%) em renda para o campo, enquanto a pecuária deve totalizar R$ 336,4 bilhões (-8,6%).

Com relação às exportações, começamos acelerando forte na largada do ano. O agronegócio brasileiro exportou cifra recorde de US$ 8,82 bilhões para o mês de janeiro, crescimento de 57,5% em comparação ao mesmo mês de 2021, segundo dados do Mapa. Esse resultado é sustentado tanto pelo aumento de preços (+19,0%) como pelo incremento do volume comercializado (+32,3%). A liderança na pauta exportadora segue sendo do complexo soja, com embarques de US$ 2,12 bilhões (+338,3%), ou seja, de cada US$ 4,00 exportados, US$ 1,00 é proveniente dos produtos da oleaginosa. Apenas a soja em grãos foi responsável por 58,5% desse resultado. Com um plantio mais antecipado neste ciclo, conseguimos tirar o atraso na colheita e começar a escoar antes em comparação a 2021.

As vendas externas de carnes foram recordes para o mês, alcançando US$ 1,61 bilhão (+39,8%), sendo US$ 801,06 milhões provenientes da carne bovina (+46,2%), US$ 604,89 milhões de frango (+42,8%) e US$ 159,29 milhões da carne suína (+9,7%). Os produtos florestais aparecem na terceira posição, vendendo US$ 1,26 bilhão (+52,7%). Na sequência, cereais, farinhas e preparações foram responsáveis pela exportação de US$ 931,07 milhões (+62,1%), sendo impulsionado pelos embarques de milho que cresceram 62,1%, alcançando US$ 931,07 milhões, e de trigo, que evoluíram 121%, chegando a US$ 190,93 milhões. Para fechar a lista, o café registrou embarques de US$ 719,21 milhões (+41,1%), com aumento atribuído a um crescimento de preços, uma vez que o volume caiu (-18,5%).

No outro lado da balança comercial, as importações do setor somaram US$ 1,12 bilhão, evidenciando queda de 14,3%. Com isso, o agronegócio entregou um superávit ainda maior de US$ 7,71 bilhões, 79,3% superior àquele no mesmo mês de 2021.

Já em âmbito global, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) divulgou novo relatório onde estima a safra global de milho em 1.205,3 milhões de toneladas, cerca de 0,1% menor que a estimativa do mês anterior, mas ainda 7,3% maior que a oferta de 2020/21. Nos principais países produtores, segue o cenário: a produção foi mantida nos EUA em 383,9 milhões de toneladas; também a mesma do relatório anterior para a China, de 272,5 milhões de toneladas; no Brasil, a oferta foi levemente revisada para baixo, de 118 para 115 milhões de toneladas; e na Argentina, também foi mantida em 54 milhões de toneladas. Na nova previsão, os estoques globais de milho foram indicados em 302,2 milhões de toneladas, 0,3% menor que a estimativa de janeiro, mas ainda 2,8% maior que na safra 2020/21 (292,0 milhões de toneladas).

Para a cultura da soja, o USDA indica uma oferta também inferior no relatório deste mês, mas de certo modo conservadora na comparação com outros órgãos. A produção global da oleaginosa está indicada agora em 363,9 milhões de toneladas, contra 372,5 milhões de toneladas na estimativa de janeiro, e 366,2 produzidos em 2020/21. A baixa se deu especialmente pela redução da produção no Brasil, que agora deve entregar 134,0 milhões de toneladas, contra 139,0 na estimativa de janeiro e 138,0 no ciclo passado. Estados Unidos, Argentina e China tiveram suas produções estimadas em 120,7, 45,0 e 16,4 milhões de toneladas, respectivamente – praticamente os mesmos valores do último mês. Com isso, os estoques globais de soja foram também reajustados para baixo: devem ficar em 92,8 milhões de toneladas, volume 7,6% menor que a safra passada ou 7,6 milhões de toneladas a menos. Os mercados devem seguir agitados nos próximos dias!

Como consequência dos novos números, o preço da saca da soja tem alcançado níveis históricos nos últimos dias. No Brasil, o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) reportou cotações em R$ 197,86/saca (Indicador Esalq/B&MF Bovespa – Paranaguá), no último dia 7 de fevereiro. Estamos nos aproximando dos R$ 200/saca, podendo ainda subir mais caso as produtividades nas colheitas surpreendam negativamente.

Em relação à questão dos fertilizantes, que é algo que tem preocupado bastante os produtores, as estimativas dizem que cerca de 20% das necessidades de 22/23 já estão compradas. Mas, segundo o Itau BBA, as relações de troca se deterioram bastante. Soja em setembro: 31 sacas para compra de uma tonelada de fosfato monoamômico (MAP) no ciclo 22/23, ante 29 sacas na temporada 21/22. No milho, a relação de troca entre o grão e o cloreto de potássio (KCl) deve passar de 40 sacas por toneladas de MAP em 21/22 para mais de 62 sacas por toneladas em 22/23. No algodão, a relação de troca deve subir de cerca de 24 arrobas por toneladas de MAP para 26 arrobas e de 16 arrobas por toneladas de KCl para mais de 27 arrobas por toneladas de KCl. Vale lembrar que cerca de dois terços do adubo é usado no segundo semestre. Compras devem se concentrar no final do primeiro semestre e no segundo pode haver stress logístico.

Neste cenário, o Rabobank prevê entregas de 44 milhões de toneladas de adubos no nosso país até o fim de 2022, ante 43 milhões de toneladas projetadas para 2021. Já as estimativas da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda) e StoneX apontam que 2021 deve fechar com aumento de 8% chegando a 43,8/44 milhões de toneladas. Em 2020 foi de 40,56 milhões de toneladas. É importante continuarmos de olho nessa conjuntura, afinal há algum risco de desabastecimento: com as restrições na Rússia e China e problemas políticos em Belarus, principalmente no potássio que vem de Belarus; e existem problemas com os embargos.

Embora muitas culturas tenham entregado boa margem aos produtores, os preços reais dos produtos do agro no Brasil vêm caindo ao redor de 1,8% ao ano nesta década. Ainda dentro da temática dos insumos agrícolas, entidades como a Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho) e a Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil) já manifestaram suas preocupações referentes ao desabastecimento de determinados produtos fitossanitários. A bola da vez é falta de herbicidas à base de atrazina, uma das principais moléculas utilizadas no manejo de daninhas folhas largas e controle de soja RR voluntária. Anteriormente, as entidades já haviam se pronunciado em relação à falta do herbicida Diquat, utilizado para a dessecação na soja. Cenário de oferta/demanda precisa ser reequilibrado ou há necessidade de busca de alternativas de manejo.

Mais um projeto na linha da economia circular vai acontecer. A UISA e a Geo Biogás anunciaram investimento de R$ 220 milhões para a construção de uma unidade em Nova Olímpia, ao lado da UISA, visando a produzir 60 milhões de metros cúbicos equivalentes de biogás a partir da torta de filtro e palha, para uso em energia elétrica, produção de biometano visando a substituir o diesel e biofertilizantes para a cana.

Falando em biogás, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) estima, no documento PDE 2031, que podem ser produzidos 7,1 bilhões de m³ de biogás advindos do setor sucroenergético, produzidos a partir da vinhaça e torta de filtro; e outros 5,7 bilhões de m³ vindos das palhas e pontas da planta de cana-de-açúcar.

A Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores) informou que vendas de máquinas agrícolas, entre tratores e colheitadeiras, tiveram crescimento de 26% em 2021. Foram 58,4 mil unidades comercializadas no último ano.

Do lado comercial, o embaixador Orlando Ribeiro Neto afirmou que vê grandes oportunidades para se aumentar as vendas do agro à Índia. Destaca entre os produtos os pulses, os lácteos e o etanol.

Para concluir a nossa análise geral do agro, os preços dos principais produtos no fechamento desta coluna eram: a soja para entrega em cooperativa de São Paulo estava em R$ 190/saca e R$ 196/saca para junho e R$ 181 para fevereiro de 2023, um sensível aumento. No milho, a cotação atual está em R$ 97,00/saca e a entrega em agosto de 2022 fechou em R$ 74/saca. O algodão fechou em R$ 233/arroba e o boi gordo em R$ 330/arroba, estável neste mês. Mas China segue puxando firme!

Os cinco fatos do agro para acompanhar em março são:

• Rendimentos na colheita da soja e milho, principalmente, e suas influências nas estimativas da safra;
• Velocidade do plantio da segunda safra e características do clima sobre esta produção;
• A evolução da crise energética, preços do petróleo, tensões geopolíticas e preços e disponibilidades de defensivos e fertilizantes;
• A evolução do quadro político e econômico no Brasil e as consequências no câmbio, que sofreu sensível valorização neste mês;
• O andamento das exportações (China começa o ano comprando bastante do Brasil) e da economia e o consumo no mercado interno, impactado pelo Auxílio Brasil.


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