Ciência pública com competência e coragem

Por Clotilde Perez, professora titular de Semiótica e Publicidade da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP

Clotilde Perez – Foto: Arquivo pessoal

 

O governador de São Paulo João Dória foi rápido, inteligente e eficiente nas estratégias comunicacionais de divulgação do início da vacinação contra a COVID-19, minutos após a aprovação cinematográfica da Anvisa. Certamente haverá a turba que rotulará a atitude como marketeira ou política, mas afinal João Doria é o que se não político? Lembrando que sua formação básica foi em Publicidade, mostra que aprendeu direito, ainda que não estejamos aqui para discutir suas intenções, digamos, segundas. Estamos imersos em um contexto de medo, desesperança e morte, além dos efeitos cotidianos do desgoverno federal, com políticos, gestores públicos, ministros e o pior, um presidente negacionista, e por isso precisamos sim reconhecer o mérito do governador de São Paulo, João Doria.

O planejamento de divulgação da Coronavac, na imediaticidade da aprovação da Anvisa, teve estratégias claras, o que demonstra planejamento e conhecimento e execução impecável. Analisemos algumas manifestações mais evidentes. Inicialmente destaca-se a escolha da primeira pessoa a ser vacinada, mulher, enfermeira, negra, moradora da zona leste da capital, intensivista do Hospital Emílio Ribas, portanto linha de frente nesta pandemia, ganhadora do prêmio “notáveis” pelo trabalho realizado no cuidado aos pacientes com Covid concedido há pouco tempo por um veículo de mídia, voluntária para os testes da Coronavac conduzidos pelo Butantan. Monica Calazans, a primeira vacinada, reunia todas as características que a colocavam no grupo prioritário para vacinação, mas também carregava potência midiática singular. O planejamento incluía seu discurso ao lado do governador, acompanhado pela imprensa em coletiva, midiatizado e “memetizado” exponencialmente. Na sequência outros profissionais da saúde foram imunizados, incluindo uma enfermeira indígena, que compareceu ao Hospital das Clínicas da USP, local mais do que apropriado para o início da vacinação, com seus trajes típicos, prontamente reconhecíveis, também pertencente ao grupo indicado à primeira fase da imunização, reunindo as duas condições, profissional da saúde e indígena.

Importante analisar a potência da identidade visual da campanha da Coronavac, toda na cor verde, emblemática na medicina, na saúde e no Instituto Butantan, criado em 1901, com o médico Vital Brazil (18665-1950) sendo seu primeiro diretor clínico e responsável por muitos projetos que tornaram o instituto a referência em pesquisa biológica e imunização, orgulho para São Paulo e para o país. A cor verde, além de ser a cor nacional mais significativa, portanto com referências cívicas imediatas, carrega os sentidos da natureza e da ecologia, do frescor dos inícios e, principalmente, da vida. Hoje, para os brasileiros, a Coronavac é signo de vida na cena da morte. Também foi criado um Vacinômetro hiperbólico para registrar o número de vacinados, com logotipia calibre na cor verde, que foi rapidamente captado pelas câmeras-olhos ansiosos e esperançosos pela contagem crescente. Foram produzidas pulseiras de borracha com a informação “vacinado” e bóton autocolante verde para ser carregado orgulhosamente no peito com a mesma informação, tudo na cor verde.

O slogan “Vacina do Butantan, Vacina do Brasil”, que revela o duplo vínculo científico e topológico nacionalista, contou com apoio de campanha publicitária, divulgada em horário nobre neste domingo em TV aberta e redes sociais, reforçando a qualidade da vacina e a seriedade do Instituto, que é de São Paulo, que é do Brasil.

O anúncio da doação de 50 mil doses da Coronavac aos profissionais da saúde do Amazonas, estado que se encontra devastado pela falência do sistema de saúde, enfrentando mortes diárias que poderiam ser evitadas, mortes por falta de oxigênio, foi um ato humanitário. Político, mas humanitário ao mesmo tempo. Mais ainda quando se sabe que as tais 50 mil doses não estavam incluídas nos lotes para o Ministério da Saúde, tampouco foram retiradas da cota de vacinas do Estado de São Paulo, mas sim da reserva do Butantan para as suas pesquisas. Importante lembrar que o Amazonas foi o estado brasileiro que recebeu a segunda menor verba do governo federal para investir na saúde e combate ao coronavírus em 2020; desprezo pela vida.

Discurso científico preciso, contundente e a favor da vida foi a marca de todos os gestores públicos, cientistas e políticos, que participaram da coletiva ao lado do governador, revelando afinidade e coesão ao posicionamento assumido, guardando boa capacidade de gerar os efeitos de sentido de competência e coragem.

Além da campanha publicitária do Instituto Butantan, de caráter social, com vistas ao bem de todos, com explicações sobre a importância da vacina e a necessidade da imunização, contribuindo para uma nesga de esperança quanto a um caminho de solução, uma vez que não há tratamento para a doença, foi criado o site “vacinaja.sp.gov.br” para divulgação do PEI – Plano Estadual de Imunização e registro antecipado dos grupos prioritários, com o objetivo de agilizar a implementação da campanha de vacinação no Estado.

Pesquisa séria, feita por instituição pública de qualidade, dirigida por cientista competente, reconhecido e também professor em universidade pública, merecia uma campanha comunicacional igualmente excelente, porque essa é a melhor resposta ao negacionismo promotor da morte: ciência pública, comunicação e coragem!


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