Chegando a extremos… é hora de “virar a chave”

Por Antonio Carlos Quinto, jornalista e subeditor de Ciências do Jornal da USP

 23/11/2020 - Publicado há 1 ano
Antonio Carlos Quinto – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
A situação está “insustentável”! Não dá mais para esconder ou camuflar essa ferida que está cada vez mais exposta e extremamente dolorida, vertendo pruridos e sangue, misturados. Assim está a questão racial neste nosso Brasil. Pois bem… A que ponto chegamos!

Chegamos aos extremos, infelizmente. Pois por aqui nada, ou muito pouco, foi feito para reparar a escravidão e suas sequelas. São muitas, infelizmente, as notícias de agressões racistas. E no último dia 19 de novembro, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, a morte do homem negro João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, em decorrência de agressões feitas por seguranças de um supermercado da rede Carrefour pareceu ser a sequencia do horrível episódio ocorrido em Minneapolis, nos EUA, que terminou com a morte do homem negro George Floyd asfixiado por um policial.

Ainda por aqui, na semana passada, a primeira vereadora negra eleita em Joinville, Santa Catarina, Ana Lucia Martins (PT), sofreu ameaças e ofensas nas redes sociais. As mensagens foram publicadas por um perfil falso de pessoas que se dizem membros da denominada “juventude hitlerista”. Há mais de um mês, no dia 4 de outubro, o publicitário Robson Vieira, de 33 anos, foi agredido com socos e chutes por três homens enquanto passeava com o seu cachorro na Rua Martins Fontes, na Consolação, na região central de São Paulo. A que ponto chegamos!

Mas a questão que fica é “aonde chegaremos?”. Se a hipocrisia e a dissimulação em relação ao racismo ainda predominarem em boa parte dos setores de nossa sociedade, infelizmente, teremos por aqui novas sequências da tragédia George Floyd. Há que se frear os ímpetos dos entusiastas dos pensamentos racistas para que, amanhã ou depois, as ameaças à vereadora não se concretizem e que novas mortes não venham a ocorrer. E, para isso, a Lei!

É importantíssimo, também, que o racismo e suas sequelas sejam discutidos abertamente, em todos os setores de nossa sociedade. Há que se escancarar de vez essa ferida para secar os pruridos e eliminar de vez essa dor. De outro lado, nós negros devemos nos manter na luta firmes, persistentes, obstinados e unidos. Ocupar e reocupar nossos espaços – que são todos os lugares – de forma democrática e gradativa.

“E saiba, João Alberto, que vamos virar esta chave!” Por aqui, na USP, presencio a ocupação persistente e democrática dos espaços que também são nossos. Diante de alguns olhares ainda incrédulos, a juventude negra vem aumentando sua presença nos bancos da maior universidade do Brasil. É uma satisfação acompanhar esta revolução vitoriosa. Já temos aqui grupos de estudantes negros que se organizam para se tornarem mais fortes nessa luta. Afinal, em 2020, “a Universidade registrou o índice de 47,8% de alunos matriculados vindos de escolas públicas em seus cursos de graduação. Entre eles, 44,1% autodeclarados pretos, pardos ou indígenas. A principal preocupação dos coletivos é acolher quem está chegando e quem já estuda na USP. Mas não sem esquecer o combate ao racismo e à fraude na política de cotas”, é o que traz a reportagem “Coletivos ajudam estudantes negros na busca de representatividade e acolhimento na USP“, publicada no Jornal da USP em 20 de novembro, Dia da Consciência Negra.

“João Alberto, estamos virando a chave.” Mesmo diante de olhares incrédulos que, por incrível que pareça, ainda são contrários a esse movimento. E, para virarmos a chave em definitivo, é preciso olhar profunda e francamente nos olhos dos tais incrédulos e avisá-los que estamos aí! Que todos os espaços são destinados a todos, democraticamente.

Nossa luta continuará, João Alberto! A “chave” está em nossas mãos…


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