Carta póstuma a José Marques de Melo

Cremilda Medina é pesquisadora e professora sênior da Universidade de São Paulo

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Cremilda Medina – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

Junho de 2018,

Imagino que você me ouviria na próxima homenagem a Luiz Beltrão (1918-1986), seu mestre de teoria e prática em Jornalismo, como o fez no ano passado na Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, a Intercom que, entre tantas de suas iniciativas, foi uma instituição por você criada e dirigida. Assim como em 2017, no próximo encontro, se para ele fosse convidada, antes de me deter na importância do estudioso nordestino, seu conterrâneo, faria a referência histórica a você e sua decisiva semeadura na pesquisa duma área que, até o fim dos anos 1960, contava com testemunhos profissionais de jornalistas, análises jurídicas sobre a livre expressão ou alguma bibliografia estrangeira.

Hoje, me valho desta epístola póstuma, originária de memórias mais afetivas do que acadêmicas para sublinhar a perene cumplicidade que sua morte, no dia 20 de junho de 2018, não apagará, enquanto palavras me restarem. Como não lembrar o começo dessa sua escuta tão atenta no primeiro diálogo em que firmamos o pacto de inquietos pesquisadores?

Junho de 1970: venho a São Paulo para visitar a Primeira Bienal do Livro que atribuiu um prêmio literário a Jorge Luis Borges (1899-1986). Queria encontrar o escritor argentino na capital paulista, pois havia conseguido a cessão dos direitos de tradução de sua obra no Brasil – trabalhava então na velha Editora Globo de Porto Alegre como secretária editorial. Mas havia outro motivo para me deslocar do Ibirapuera e da feira de livros para a Cidade Universitária. Como jovem assistente de catedrático, havia sido convidada para a atividade docente em 1967 na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde me formara em Jornalismo e Letras, em 1964, e mantinha correspondência com a jovem Escola de Comunicações e Artes.

Por que ir à USP nesse verão de 1970? Primeiro, porque já conhecia você como referência de Estudos Comparados de Jornalismo; segundo, porque você era um dos professores participantes na fundação da ECA (1966); terceiro, porque soubera, lá nos pagos do Rio Grande, que você estava envolvido com a implantação do primeiro pós-graduação da América Latina na área de comunicação social.

Então, encontro você, chefe do Departamento de Jornalismo, num à vontade alegre e dinâmico, deslizando em sandálias (nordestinas?) nos corredores da ECA. Conversamos na familiaridade que manteríamos até poucos dias atrás. Nos 48 anos que separam o primeiro encontro e nossa despedida, esta semana no Cemitério do Morumby, nunca houve outro comportamento que não da escuta mútua. Você se interessou de imediato pelo que relatei – a atividade profissional como jornalista, editora e, principalmente, profissional interessada pela pesquisa que os estudos de pós-graduação proporcionariam. (Havia nisso um pacto implícito: você já um convicto pesquisador e eu, formada também em Letras, com ênfase nas disciplinas de didática, aprendera no início dos anos 1960 que um professor universitário, sem pesquisa, não tem condição de liderar o ensino inovador.)

Sua atitude não foi exclusiva à minha presença nessa visita remota. Logo viria a perceber que você, mal captava qualquer potencialidade dos que tivessem o privilégio do seu convívio, e imediatamente abria as portas e desencadeava ações agregadoras. Uma liderança ímpar pela empatia, nunca pela imposição do poder. O fato, no que me tange, é que, em dezembro de 1970, seu convite para trabalhar no Departamento de Jornalismo me convenceu a mudar para São Paulo. (De passagem e não menos importante, convém lembrar que a família constituída em Porto Alegre por Sinval Medina, o companheiro, e os pequenos Ana Flávia e Daniel, contariam com Sílvia e você, os primeiros amigos que nos deram solidária acolhida na grande cidade.) Enfim, janeiro de 1971, você, Zé Marques, me inicia numa universidade, cuja origem, em 1934, está marcada pela cultura da pesquisa. O pós-graduação só seria implantado em 1972 – a USP custou um pouco a acreditar naquilo que você apregoava: o Jornalismo é uma área de conhecimento e os estudos rigorosos, éticos e estéticos sobre a responsabilidade social da profissão exigem pesquisa permanente para além de técnicas gramaticalizadas.

As ligeiras sandálias do pescador de almas afins se movimentaram pelo mundo. Você foi articulador das relações latino-americanas, a partir de sua ida ao Equador, no início do programa Centro Internacional de Estudos de Periodismo da América Latina (CIESPAL) , encaminhou jornalistas brasileiros para o aperfeiçoamento a que o projeto se propunha (eu, inclusive, no início dos 1970); você liderou as primeiras investigações sobre a imprensa da América Latina; criou organizações de pesquisa, estreitando laços dos estudiosos do continente. Não foi por acaso que a América Latina vocalizou internacionalmente as demandas do início dos anos 1970, consagradas como o Direito à Informação. Enquanto os conflitos Leste-Oeste mobilizavam as atenções, o Sul Latino-Americano, sufocado pelo Norte Ocidental, reivindicava seu lugar perante vários monopólios, entre eles, o da informação jornalística. Você, unido a outras vozes da região, conquistam definitivamente espaço nos cenários de poder e criam uma inovadora interpretação dos direitos sociais na comunicação. Observe-se que a fundamentação desse embate estava já registrada na pesquisa desenvolvida na USP, mesmo em meio aos cerceamentos da ditadura militar de 1964.

Quem diria, em momentos políticos posteriores, veria você e suas sandálias redentoras, articulando em Barcelona (1988) e no Lago de Bled (Iugoslávia, um ano antes da guerra civil, 1990) a descentralização das conferências da associação internacional de estudos e pesquisa para o Brasil. E o Norte das ciências da comunicação cedeu o lugar consagrado dos encontros para a América Latina, graças à presença de líderes de pesquisa como você. As circunstâncias políticas da repressão tentaram impedir, ainda nos anos 1970 a sua assinatura na oratura em auditórios ou na escritura de livros e artigos. E o afastaram da universidade em 1974. Mas você voltou em 1979 quando se reabilitaram, pelas anistias, professores cassados – uma triste história contada no volume 8 do Relatório da Comissão da Verdade da USP (2018, págs.103 a 114)).

A interrupção deslizou no tempo como as sandálias no espaço. E a sua presença no cenário internacional, que presenciei na década de 1980, outra vez me mobilizou. Também eu estivera 10 anos fora da USP, pois saíra com a cassação de Sinval Medina em 1975 e só voltei em 1986. Outra vez, o Zé Marques na proa do barco da pesquisa, me mobiliza para as viagens de sintonia com pesquisadores latino-americanos ou de outras latitudes; você me estimulou, ainda que sem financiamento público, a me sintonizar com as tendências científicas. Havia contrapontos entre nós que você aceitava, me escutava: o mundo às voltas com as novas tecnologias e eu, com estudos culturais. Acima de tudo me convocava para os contatos externos. Lá vou eu visitar institutos de pesquisa em Buenos Aires, Santiago do Chile, Paris, Londres, Barcelona (nos dez anos anteriores em que trabalhei no jornal Estado de S. Paulo, ampliara horizontes nos Estados Unidos, Escandinávia, África, antiga União Soviética, México, Costa Rica, Colômbia e Peru).

No Lago de Bled, porém, reencontrei o nexo original de pesquisa, graças à sua insistência para escrever uma comunicação. E você editou em 1991, pela ECA/USP, o documento Communication and Democracy, Brazilian Perspectives. Aí você incluiu meu trabalho que registra a proposta de volta à USP nos anos 1980: The journalist as a cultural reader (pág. 195). Em meio à euforia tecnológica do mundo rico, desconfio que você prestou uma atenção especial à comunicação um tanto deslocada que defendi. Isto porque você acompanhou com interlocução constante (até receber em mãos meu mais recente livro, em abril de 2018) o percurso a que você abriu alas em São Paulo, em 1970. Pois o primeiro livro que Paulo Roberto Leandro e eu publicamos na ECA em 1973, certamente nasceu do seu comando gentil e persistente. Você me pediu para introduzir no currículo de Jornalismo da USP, a disciplina “Jornalismo Interpretativo”. Como? A tarefa era complexa: como diferenciar a produção de significados informativos, opinativos e interpretativos? Você não aceitava recusas, me fez ir à luta. Dos estudos em teoria da interpretação, nasceu, junto com os alunos dos anos 1970, A arte de tecer o presente. Quando seu mestre e amigo Luiz Beltrão publicou o livro com o título Jornalismo Interpretativo, fez uma referência ao precedente da USP.

Os primeiros anos dos difíceis tempos de 1970 produziram, em um departamento da Universidade de São Paulo, uma safra bibliográfica que você assina, você e seus alunos, seus parceiros brasileiros e latino-americanos. Basta percorrer as listas de publicações ainda agora lembradas logo depois de sua inesperada despedida. Lembro com saudade professores que você agregou: entre outros, Freitas Nobre (1921-1990), Thomaz Farkas (Budapeste,1924-São Paulo, 2011), Paulo Roberto Leandro (1948-2015), Walter Sampaio (1931-2002), Jair Borin (1942-2003). Gaudêncio Torquato, presente em seu velório, verbalizou o tributo em que todos nós nos sentimos representados. Quando você me convidou para compor o grupo, mirava minha experiência na Editora Globo de Porto Alegre. Você queria criar outro projeto pioneiro – o curso de editoração. Mas devido à minha preferência pelo Jornalismo, você chamou o jornalista e escritor Sinval Medina, que também trabalhava na editora gaúcha, para essa tarefa. Não importava se do Sul ou do Nordeste, de São Paulo ou de outra cidade, você motivava com consistência os jovens pesquisadores que iriam constituir o núcleo de produção teórica e formar professores ou jornalistas qualificados comparáveis ao desempenho e repertório de conhecimentos especializados da massa crítica internacional que surgia na comunicação social.

E deu resultados visíveis na bibliografia local e na assinatura de tantos mediadores sociais autores. Nas universidades nacionais e nas mídias, até há poucos dias você acompanhava seus alunos primevos da USP e os que formou em outras instituições, como na Universidade Metodista de São Paulo. Ainda que tenham interrompido a carreira de ensino e pesquisa em 1974 e grande parte do núcleo que você montou tenha se dispersado, o vigor dessa geração outra vez se uniu ao líder, após a volta dos cassados à USP, nos anos 1980. E a universidade contaria com você e sua dinâmica gestão, ao dirigir a Escola de Comunicações e Artes de 1989 a 1993. Aquela liderança inaugural, que descobri em 1970, amadurecera sobremaneira e vivemos momentos ímpares na ECA.

Tantos mares, tantas tormentas e o terreno sólido que você palmilhou manterá, na memória afetiva e científica, as marcas de seus passos inconfundíveis.

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