C.A. XI de Agosto perde parte de sua história

Por Floriano de Azevedo Marques Neto, diretor da FD-USP (*), ex-presidentes do C.A. XI de Agosto, alunos e professores da Faculdade de Direito da USP

 08/04/2021 - Publicado há 8 meses
Floriano de Azevedo Marques Neto, diretor da FD-USP – Foto: Leonor Calasans/IEA-USP

 

(*) Presidentes do C.A. XI de Agosto: Eugênio Bucci (1984), Fernando Haddad (1985), Renato Stetner (1991), Andrea Mustafa (primeira mulher presidente, em 1998), Paulo Henrique Rodrigues Pereira (2008), Talita Nascimento (2009) e Letícia Chagas (atual presidente).
Professores: Maria Paula Dallari Bucci, Pierpaolo Cruz Bottini, Paula Forgioni, Otávio Pinto e Silva e Fernando Dias Menezes.

As vidas ceifadas pela covid-19 têm ultrapassado os limites da razão. Já são mais de 330 mil histórias interrompidas somente no Brasil. Doença que a própria ciência busca explicações e corre para tentar frear. Uma catástrofe mundial, por hora indissolúvel, e que ultrapassa o impensado número de 132 milhões de casos; colocando o Brasil – impulsionado pelo descaso do governo – como o segundo maior celeiro de infecção (com mais de 13 milhões).

Não são poucos os casos que se aproximam cada vez daqueles que conhecemos ou que estão a nosso lado. E, assim, a covid-19 vai fazendo suas vítimas.

Desta vez, na Faculdade de Direito da USP, levou junto parte da história do Centro Acadêmico XI de Agosto, quando, no domingo de Páscoa, tirou a vida de Antônio Ângelo Medeiros, o Toninho. Sim, o Toninho. Funcionário que por mais de 40 anos comandou com presteza o XI de Agosto. Local onde fez amigos e ajudou a desenhar o caminho de alunos que por ali passaram. Que, por vezes, sentavam-se a seu lado, apenas e tão somente para ouvir um conselho, novos que eram na caminhada que viria pela frente.

Com a notícia, o Porão do C.A. – espaço de embates de pensamentos e formação de ideias – amanheceu triste. Pois ali eram inflamadas as discussões políticas da velha e sempre nova Academia de Direito do Largo de São Francisco.

E, para além do mundo externo, cabia a ele acompanhar os sorrisos daqueles que venciam o pleito para a diretoria da agremiação, pois era fiador do processo eleitoral. Dessa forma, carregava a enorme responsabilidade de arcar com a felicidade dos eleitos e aplacar a decepção dos que perdiam.

Assim era, todo mês de outubro.

Conforme apontado pela diretoria da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, Toninho é um pouco da memória da FD que se vai, nestes quase duzentos anos, que foi construída também pelos seus funcionários. O XI é parte das Arcadas. Toninho, assim como Chico Elefante, seu Rui, Souza e outros tantos são parte dessa história.

Deixa, ele, o sentimento, sentido por todos que desceram ao Porão nas quatro décadas em que Toninho lá esteve. Discreto, sério, compenetrado, atento. Um grande amigo dos estudantes de Direito. São muitos os depoimentos de quem o conheceu e registram, é claro, que este funcionário era testemunha e ator de muitos fatos importantes na história do XI, bem como da faculdade e mesmo do País.

Como esteio, sabia, guardava à memória junto à papelada da entidade. Esta, repleta de meandros e de complexidades administrativas. Era ainda preocupado com questões de todos os tempos, dentre as quais, a importância da diversidade.

E, como registrado por seus eternos amigos, um anjo da guarda, a ajudar os alunos que, ano a ano, ingressavam na Academia de Direito.

Um anjo, que se junta à memória de milhares de vidas tiradas precocemente, e que muito ainda teriam para contar.

Toninho é um brasileiro. Uma pessoa que deixa aceso o sentimento da saudade. Que representa a marca que ficará para todos.

 

Antônio Ângelo Medeiros, XI de Agosto – Foto: Divulgação

 

 

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