Brasil 75/25: Dois pupilos do porco Napoleão

Por Luiz Jurandir Simões de Araujo, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP

 Publicado: 13/01/2022
Luiz Jurandir Simões de Araujo – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

 

 

Sonhei que nasci num clube chamado Arabutã, onde meus pais eram funcionários. Num pequeno chalé cresci e fiz minha vida. Inercialmente, acabei funcionário do clube morando em outro chalé. Clube maravilhoso. Lindos jardins. Praia de filme. Muito sol. Terra fértil. Passa rios cheios de peixes plenos de vida. Árvores e flores de todas as cores. É! Nenhum paraíso pode ser tão paraíso. Os sócios não conseguem se entender, ser racionais e eleger uma diretoria digna, responsável, qualificada e experiente.

Sempre elegem diretorias corrosivas, acanalhadas, toscas, primitivas. Diretorias que fazem discursos confortáveis na eleição e gestão contaminadas por interesses das suas patotas ou por concepções arcaicas, sectárias, manipuladoras.

Nas assembleias para decidir os caminhos do clube muita discussão, muita briga e pouco resultado. Funcionários e sócios sempre votam no passado. Vivem a maldição do dia da marmota do filme Feitiço do Tempo. Toda eleição ou vence Basto ou Marde.

Basto é autoritário, primitivo, incapaz, defende ética exógena (outros devem ser éticos, mas a família dele não precisa). Enquanto isso, o Marde é articulado, fala bonito, é amigo de intelectuais e celebridades que lhe conferem um disfarce para encobrir sua canalhice. É um cínico que quer poder a todo custo, agrada os sócios ricos do clube para ter vantagens para seus companheiros e para si. Ele trata bem os funcionários simula empatia e dá umas gorjetas. É tão verdadeiro quanto nota de 3. Incompetente para gerar melhores condições de vida e melhorar o clube. Basto, por outro lado, trata-nos mal, quer nos impor sua visão de mundo: pequena, fechada, medieval. No lugar de intelectuais e celebridades tem lacaios violentos ameaçadores para nos pressionar.

Novamente o maravilhoso clube Arabutã está noutro momento crítico: qual passado escolher?

Por sorte, os funcionários e a maioria dos sócios se viram por conta própria. Construimos, consertamos, limpamos, fazemos os dias. Toda hora somos atropelados pelo Basto ou pelo Marde. No dia seguinte acordamos e mantemos o clube vivo.

O que nos levou à essa maldição? Toda vez que surge um candidato a diretor com ideias coerentes e um bom plano de ação, não acreditamos nele. Sempre achamos que será um Marde ou outro Basto. Eles são uma, então todos serão.

Basto e Marde criaram uma tatuagem cognitiva nas nossas mentes: “todo candidato vai, então vamos votar na que conhecemos”.

Esse eterno retorno ao passado tem um custo amargo para as crianças, para os funcionários e para a maioria dos sócios.

Ontem, andando pelo clube, num canto escondido pude ouvir os lacaios do Basto e do Marde conversando. Os dois grupos combinaram manipular as regras e jogar um pingue-pongue de falas que deixe os eleitores hipnotizados até que a bola caia num dos lados.

Os funcionários e a maioria dos sócios acreditarão em um ou no outro. E o futuro sempre será deles e nós teremos o passado.

Os filhos e lacaios do Basto e do Marde terão mansões, terão privilégios, terão tudo. E nós, trabalharemos, acordaremos cedo, limparemos o chão que eles pisam.

Basto e Marde, assimilaram muito bem os ensinamentos do porco Napoleão (do livro A Revolução dos Bichos). Cada um a seu modo, manipula, mente, contorce verdades, corrompe, tem grupos fiéis para tocar tambores massacrando nossos ouvidos. Tentam nos convencer que são dignos e éticos.

Vocês esqueceram que agora temos a internet, podemos, silenciosamente, unir-nos, procurarmos novos caminhos, semearmos novas ideias. Nós é que fazemos o clube funcionar, nós é pagamos as mensalidades para custear seus privilégios.

Ainda citando a obra de George Orwell, não somos o fiel cavalo Sansão, que trabalha de sol a sol para manter-lhes no poder. Não somos as passivas ovelhas. Não somos animais.

No dia da eleição, silenciosamente, mudaremos o destino do clube.

Pupilos do porco Napoleão, Basto e Marde, adeus.

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