Bamako, caleidoscópio de culturas e estação dos paradoxos

Denise Dias Barros é professora Interunidade de Estética e História da Arte da Universidade de São Paulo

Por - Editorias: Artigos - URL Curta: jornal.usp.br/?p=197444
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Foto: Arquivo Pessoal

Bamako, a capital do Mali no oeste africano, é um desses lugares que descobrimos aos poucos: camadas e camadas de experiências humanas que nos intrigam e emocionam. Minha primeira viagem foi em 1993, já faz mesmo muito tempo. Naquele ano havia ido para um Encontro Nacional de Terapeutas Tradicionais, especialistas de medicinas das diversas sociedades que compõem o país, cujos saberes nunca conheceram uma perseguição, como na história brasileira. Bem longe disso, os saberes locais foram parte de políticas que buscavam construir a ideia da nação malinesa.

Bamako foi classificada entre as seis cidades que mais cresceriam no mundo no período de 2006 e 2020 segundo a City Mayors Foundation, fato que intensificou seu desafio de criar entrelaçamentos efetivos e viabilidades para concretizar laços entre as instituições nacionais e culturas existentes. Com suas ruas vibrantes, coloridas, movimentadas, temos, às vezes, a sensação de estar em um imenso espaço expositivo em que a ocupação popular cria uma ambiência urbana onírica.

A aceitação da sua pluralidade, contudo, não conseguiu se compor de modo inteiramente inclusivo. Entretanto, mesmo com muitos dilemas, o Mali permanece um estado plurinacional onde é preciso conjugar a nação jurídica, o Estado e as nações sociológicas[1].

Sua capital tornou-se um viveiro de experiências culturais, com migração de diversas regiões, seja pela concentração de investimentos e aumento de períodos de seca, seja devido às rebeliões que opuseram as aspirações do governo e as de sociedades saarianas do norte do país com conflitos persistentes (1963, 1990, 2006, 2008), como os Kel Tamacheque e dos chamados Mouros e Árabes. A essa situação já dramática, adicionou-se a guerra (iniciada em 2012), forma de luta por independência ou autonomia e eclosão da ação de grupos ligados ao crime organizado. Assim, houve grande número de deslocamentos internos, além da formação de campos de refugiados nos países vizinhos que acolheram, sobretudo, as populações do norte do país.

Nesse movimento intenso de pessoas, artistas de diversas formas expressivas vieram mudar o colorido das paisagens da capital malinesa. Nas artes visuais, Bamako inscreve sua marca com eventos nacionais e internacionais, como o incontornável Encontros da Fotografia Africana, iniciado em 1994 e já com onze edições, o Festival das Realidades (teatro) desde 1996, além de um número significativo de manifestações que se multiplicaram desde a independência, em 1960. Nelas o cenário de performances artísticas tem dado primazia a municípios e regiões. Inicialmente havia a Semana da Juventude (1962 a 1968), depois recebeu o nome de Bienal Artística, Cultural e Esportiva (1970 a 1988) que foi interrompida para ser retomada em uma única edição em 2001, com o nome de Seminário Nacional das Artes e da Cultura. Nos anos de 2003 e 2005, voltou a ser Bienal Artística e Cultural, e tornou-se móvel, deslocando-se para outras cidades do país até ser interrompida em 2010. Recentemente, no final de 2017, foi reativada como parte da política cultural voltada para o fortalecimento dos acordos de paz.
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Com suas ruas vibrantes, coloridas, movimentadas, temos, às vezes, a sensação de estar em um imenso espaço expositivo em que a ocupação popular cria uma ambiência urbana onírica.

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Hoje, ateliês e galerias de artes disputam o público e agregam-se ao dinâmico ambiente cultural formado pelo Museu Nacional e o Instituto Nacional das Artes, a galeria San Toro, Bamako Art Gallery, Tête de l’arts, Galeria Médina, Lac de Lassa, Galeria Awn Ko Art, Centro Soleil d’Afrique, Galeria do Centro Cultural Francês, Galeria Tatou, Atelier Badialan, entre muitos outros espaços. Na cidade há, também, grande número de bares com música ao vivo, espaços culturais e discotecas. Alguns deles de proprietários prestigiosos do mundo da cultura, como o Hotel Wassulu de Oumou Sangare ou Mofu de Salif Keita.

Foi nesse universo vibrante que cheguei em dezembro de 2016, após quase cinco anos de ausência já que desde o início da guerra havia vivido uma espécie de exílio, pois tinha hábito de ir ao Mali pelo menos a cada 18 meses com diferentes objetivos: pesquisa, participação em seminário ou mesmo para férias. Intrigaram-me o crescimento e a riqueza da cidade e suas avenidas monumentais. A cidade havia também sido modificada por não contar mais com os turistas de antes e, em seu lugar, observarmos militares e agentes internacionais ocupando seus hotéis.

A presença perceptível de pessoas do norte com seu modo de vestir nas ruas, sobretudo de Kel Tamacheque, estimulava minha vontade de melhor conhecer seus espaços na cidade. Em que circuitos culturais se moviam? Quais eram seus espaços? Como se dava a interação com habitantes do sul em ambiente público?

Desde muitos anos, músicos como os do Tinariwen, os roqueiros de turbante que hipnotizaram o mundo na abertura da Copa na África do Sul, pediam atenção e cuidado para o abandono das populações no norte do país sem acesso à água, escolas e sem programas econômicos que lhes permitissem construir outros horizontes. Se escutassem nossas canções, disse o baixista Iyadou Ag Lech[2]:

Nós soamos o alarme por um longo tempo. O mundo se esqueceu de nós por cinquenta anos, e minha mensagem para a comunidade internacional é que se olhe de modo compreensivo para nosso povo. Um olhar de humano para humano. Às vezes, há pessoas que querem que usemos roupas que não queremos usar. Mas nós queremos continuar a ser nós mesmos. Há gente que usa as fragilidades ou os momentos em que as pessoas estão mal, para tentar fazê-las dizer o que não dizem, ou tentar fazê-las serem malvistas pelos outros, porque não querem entrar em seus esquemas.

Lembro que um controvertido acordo de paz foi assinado na capital da Argélia em 2015 entre a República do Mali e a Coordenação dos Movimentos da Azawad. Uma unanimidade: todos estavam descontentes com o tal acordo. Para uns, o governo havia cedido mais uma vez aos rebeldes; para outros, não respondia aos anseios de autonomia para o desenvolvimento de Azawad. Esse é o nome atribuído ao território que chegou a ter a independência unilateralmente proclamada pelo Movimento Nacional de Liberação de Azawad (MNLA), após vencer militarmente as forças nacionais em 6 de abril de 2012.

Em 2018, depois de anos de conflitos e dramas humanos diversos, o problema de fundo permanece e espalha-se pelo centro do país. No norte há soldados dos movimentos político-militares locais (independentistas e integracionistas), Forças Armadas Malinesas, militares da Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização do Mali – MINUSMA e da operação francesa Barkhane, membros da AQMI e de outros grupos criminosos, voláteis e ágeis, disputando centímetro a centímetro uma possibilidade de estabelecer seus projetos, incompatíveis entre si – a população entregue a si mesma, sem escolas ou instituições. Mas Bamako segue alheia, indiferente. Cada vez mais vibrante.
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A presença perceptível de pessoas do norte com seu modo de vestir nas ruas, sobretudo de Kel Tamacheque, estimulava minha vontade de melhor conhecer seus espaços na cidade.

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Tinariwen, que rodou o mundo em turnês, frequentemente com suas guitarras adornadas com as cores da Azawad, apresentou-se poucas vezes na capital do Mali. Porém, sinalizando seu apoio ao processo de paz, esteve em Bamako em 2017 e foi recebido pelo presidente da República do Mali, Ibrahim Boubacar Kéïta (recentemente reeleito). Aplausos e críticas. Não existem certezas. Mas a paisagem sonora tamacheque, que canta e dança Azawad, encontra-se hoje nas artérias da capital. A independência não veio, mas o nome ressoa em seus circuitos aberta ou veladamente. Em um dos muitos concertos em Bamako, quando soam os primeiros acordes de Azawad de Kader Tahanin[3] no Centro Cultural Tumast: Matrarham? (o que querem vocês?) É Azawad Anarha (Azawad é o que queremos), a pista de dança fica repleta e a emoção é grande com as vozes cantando Azawad, Azawad.

Arjun Appadurai[4] afirma que “grupos migram, se reúnem em novos lugares, reconstroem sua história e reconstroem seu projeto étnico”. Assim são construídas novas “paisagens de identidades e grupos”. A construção do Mali, ou sua reconstrução no processo de paz em curso, terá que integrar os sonhos de autonomia e de aceitar que Sudiata Keïta não é o único e nem o herói cultural de todos os malineses e que o país é um caleidoscópio complexo a ser compreendido. Bamako, cidade musical, parece viver entre camadas de mundos paralelos, por vezes tecendo passagens.

A cidade como espelho do país trava uma guerra contra a guerra de identidades, a militarização, o crime internacional, o extremismo e o obscurantismo. Como em outros lugares defronta-se com o desafio da coexistência da diferença. E a música em Bamako como em Timbuctu, Kidal ou Gao, é a arma maior contra a guerra do ódio, a política da inimizade e contra a banalização do mal. Ou como declarou Ag Lech na Suécia, em 2012[5]: “A música é uma guerra contra a guerra. Ela pode ser uma solução contra a guerra ou, também, pode ser instrumento de revoltar para se obter reivindicações (…) as armas da música são mais fortes que as da guerra, porque tocam a alma da pessoa”.

 

Notas

[1] TSHIYEMBE, Mwayila. Ambitions rivales dans les Grands Lacs. Manière de voir, vol. 51, p. 22-23, 2000.

[2] Ver: Arnaud Contreras. Tinariwen: “Il y a un peuple oublié qui est en train de mourir au Mali”, https://www.lemonde.fr/afrique/article/2012/03/12/tinariwen-il-y-a-un-peuple-oublie-qui-est-en-train-de-mourir-au-mali_1656268_3212.html

[3] Azawad de Kader Tahanin https://www.youtube.com/watch?v=o7qxhezojfo. Há também as versões de

Azawad de Tinariwen https://www.youtube.com/watch?v=lV-nMTC0NQs

[4] APPADURAI, Arjun. Après le colonialisme: les conséquences culturelles de la globalisation. Payot, 2005, p. 91.

[5] Ver https://www.youtube.com/watch?v=aA2-vJS6tvc

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