Autoritarismos, autoridades e formas de estar no mundo: uma visão ecossistêmica

Por André Francisco Pilon, professor associado da Faculdade de Saúde Pública da USP

 27/08/2021 - Publicado há 3 meses
André Francisco Pilon – Foto: ResearchGate GmbH

 

 

As pessoas podem ser divididas entre aquelas que querem mudar sistemas políticos e econômicos perversos e aquelas que cuidam em manipulá-lo a seu favor se forem suficientemente espertas para permanecerem incólumes. Os resultados dependerão da quantidade e do poder de cada grupo para manter ou alterar a situação.

O aspecto majoritário não é o único fator, o poder não é apenas uma questão de números ou maiorias, mas de possibilidades efetivas de intervenção; os oligarcas internacionais, as elites privilegiadas dificilmente renunciarão aos estatutos que lhes permitem editar as leis que legitimam seus interesses e ações, capturando as agências que os reforçam.

Parte da literatura destaca o “autoritarismo” como uma ameaça crescente aos regimes democráticos em todo o mundo. A questão é que, afinal, os interesses investidos, os grupos dominantes certamente lutarão ferozmente para manter seus privilégios políticos e econômicos, qualquer que seja o regime dominante.

A democracia, no papel, é diferente na prática e pode até ser o oposto. Nas sociedades “democráticas”, o autoritarismo pode ser disfarçado de várias maneiras, através do mercado, das instituições, da propaganda, dos conceitos de desenvolvimento, crescimento, riqueza, trabalho, educação, conhecimento e liberdade.

O autoritarismo transparece nas políticas das corporações de negócios que buscam o controle da legislação na arena pública (lobby, suborno) e ditam estilos de vida através das mensagens orquestradas pelos media de massa, eventos, entretenimento, conteúdos de currículos escolares, produtores, celebridades, influenciadores.

A livre escolha é restrita pela oferta de produtos e estilos de vida apresentados como a única alternativa para uma vida boa, apesar das crescentes disparidades culturais, educacionais, sociais e econômicas, que teriam de ser enfrentadas, mas não uniformizadas, adequando-se às peculiaridades e necessidades das pessoas envolvidas.

Enquanto uma parcela da população usa o planeta para aumentar seu poder político e econômico, a maioria não tem condições essenciais para prosperar como seres humanos: carecem de apoio judicial, saúde pública, saneamento, educação, segurança, espaços de convivência, áreas verdes, alimentação adequada.

Laços, valores e necessidades são manipulados em benefício dos arautos da globalização; estilos de vida tradicionais enraizados em nichos específicos, como os povos indígenas, enfrentam o poder do sistema econômico, político e tecnológico, que impõe seu “paradigma de produtividade”, em prejuízo do equilíbrio natural.

As políticas públicas ignoram as prioridades de transformações, as conjunturas críticas que levam a diferentes resultados, os embates entre instituições formais e informais e agências de elite que privilegiam seus interesses, inclusive através de soluções tecnológicas, como ferramentas certas para a solução de problemas derivados do próprio sistema.

O autoritarismo é conhecido por assombrar países onde as pessoas estão insatisfeitas com a má qualidade de vida, a criminalidade, a insegurança, a corrupção política generalizada, a alta dos preços, os baixos salários, a inflação, o desemprego, os meios de subsistência, a paz social, a carência de instituições eficazes para proteger seus direitos.

A história mostra que essa foi a situação pré-golpe de Estado em muitos países do mundo, desencadeando sangrentas revoluções na França monarquista, na Rússia czarista e a ascensão de ditaduras em diferentes países da Europa no século passado. Líderes autoritários aproveitaram o momento para galvanizar em direção a ideologias redentoras.

Filosofias políticas, regimes de governança são objeto de discussão desde a Grécia antiga: a democracia ateniense permitia decisões plebiscitárias, quando a cidadania estava confinada a um pequeno número de pessoas. Atualmente, a tomada de decisões é intermediada, nos parlamentos atuais, por grupos econômicos e políticos, distantes da sociedade.

O “localismo”, a democracia deliberativa, envolvendo as pessoas em decisões que as afetam em nível local, abrangendo produção e consumo, governança, tradições, valores, cultura e identidades, reinstaura os conceitos anarquistas sobre a regulação da vida pública pela construção consensual das regras coletivas, decididas coletivamente.

É necessário distinguir autoridade de autoritarismo. A autoridade não é absoluta, é sempre cautelosa, garantindo que outras considerações, interesses instituídos ou costumeiros, não interfiram na investigação dos fatos, ou seja, zela para que a ciência, a razão, a ética prevaleçam em justa medida, e não de forma dogmática.

Uma civilização ecológica forma seres humanos, não consumidores para o mercado; políticas de “sustentabilidade” não podem ignorar aspectos fundamentais de Bildung, como a preservação do patrimônio cultural e outros componentes essenciais da qualidade de vida, aspectos físicos, sociais e culturais para prosperar como seres humanos.

Promover ações holísticas e transformadoras do ecossistema (critérios de transparência, resultados e impacto) demanda valores e visões compartilhados, novas alianças e lideranças, o desenvolvimento de comunidades resilientes, a construção de novos nichos socioculturais, tendo em vista novas formas de estar no mundo.

A recuperação da Terra e a recuperação da humanidade são faces da mesma moeda, elas estão entrelaçadas, são complementares e devem ser tratadas simultaneamente no espaço e no tempo, de forma ecossistêmica, para seu apoio mútuo. O foco deve estar no fenômeno geral, no caldo efervescente, não nas bolhas de superfície.


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