As representações da justiça no esporte

Katia Rubio é psicóloga, professora da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE-USP) e membro da Academia Olímpica Brasileira

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Katia Rubio – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

O equilíbrio da vida em sociedade depende diretamente da crença na justiça. Seu imaginário está relacionado ao equilíbrio, à imparcialidade, muito embora seja um conceito abstrato. Ainda assim, a aplicação da justiça depende da interpretação de quem julga, e diante da subjetividade implicada nesse processo têm-se as controvérsias atinentes a um julgamento.

No campo do imaginário a justiça apresenta imagens distintas. Na mitologia grega, Diké, uma das Horas, filhas de Zeus e Têmis, é representada descalça e com os olhos bem abertos (metaforizando a sua busca pela verdade). Como deusa da justiça vigiava os atos dos homens e queixava-se a Zeus, quando um juiz violava esse direito. Mãe de Hesíquia, a tranquilidade da consciência, procurava punir a injustiça e também recompensar a virtude. Com a mão direita, levava uma espada (a força da imposição de quem decide, diante do descontentamento de quem perde) e, na mão esquerda, segurava uma balança de pratos (o equilíbrio na hora de pesar os argumentos que envolvem as partes envolvidas), com o fiel desequilibrado. Isso porque o fiel somente se apresenta perfeitamente equilibrado após a realização da justiça ou da isonomia (o que cabe por partição).

Enquanto Diké é representada descalça e com os olhos abertos (metaforizando a busca pela verdade), a Iustitia romana era representada de olhos vendados, simbolizando a imparcialidade.

Assim como em outras esferas da sociedade, a questão da justiça determina resultados de competição e a vida de atletas. Da beira das quadras e piscinas às cortes superiores de recurso, o esporte espelha condutas humanas.

Atletas de diferentes gerações apresentam em suas narrativas como diferentes interesses influenciaram resultados que determinaram o rumo de suas vidas. Essa discussão começa com os critérios para a escolha de um árbitro. Fosse apenas uma escolha de ordem técnica e essa discussão não teria sentido, porém muitos dos envolvidos na avaliação da performance de outros guardam interesses de ordem moral ou material, o que os faz ter o fiel de suas balanças já determinado, estando eles vendados ou não. A força da espada de quem decide, temporariamente, determina o resultado.

Há narrativas de atletas olímpicos brasileiros que ilustram, com cores vivas, a parcialidade de uma justiça, que não sobreviveu à força da História.

Conta Aída dos Santos, única mulher atleta da delegação brasileira nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 1964, que mesmo tendo cumprido todas as seletivas e se classificado conforme os índices determinados, casuísmos eram criados para que ela tivesse que passar por nova classificação. Determinado previamente que ela não passaria, Aída desafiou a todos e perseguiu seu índice por cinco vezes até que sua convocação se tornou inevitável. Tanto assim que não havia para ela uniforme de desfile, nem de competição. Foi a Tóquio sem apoio, nem técnico. Só na pista, contou com a solidariedade do médico cubano, que lhe ofereceu suporte diante de uma lesão, e da colega cubana Miguelina Copian. Foi a primeira atleta brasileira a chegar a uma final olímpica e terminou a competição de salto em altura em quarto lugar. Uma consagração para o atletismo brasileiro, cuja marca foi a injustiça.

O caso de Aída não é o único a indicar a parcialidade de juízes.

Rogério Sampaio é outro exemplo de atleta cujas vida e carreira são marcadas pelo imponderável. Diferentemente da maioria dos atletas que valorizam a competição como o momento supremo do prazer atlético, Rogério sentia uma grande satisfação pelos períodos de treinamento, situação em que se libertava da ansiedade da competição, do medo e da impotência imposta pela derrota. Quando se dedicou à carreira competitiva, percebeu que habilidade técnica e potência física não determinavam resultados. Havia outras forças em jogo que determinavam o curso de sua carreira. Conta ele: “Ia ter uma seletiva para o Campeonato Pan-Americano Juvenil e meu adversário era dois anos mais velho que eu… e o pai dele era presidente de uma Federação. Então eu lembro que durante toda a seletiva era uma pressão muito grande para esse menino ganhar… E eis que chegamos eu e ele à final. Naquela época não existia placar, ficavam umas pessoas anotando os pontos e era uma coisa muito armada. Quando eu entrei para fazer a final pensei comigo: ‘Para eu conseguir ir pra esse campeonato eu vou ter que jogar esse cara umas três vezes de ippon e mesmo assim rezar muito’… Entrei e consegui. Joguei duas vezes de ippon, fora outros pontos menores, e ficou bem nítida a minha vitória. Mas, independentemente disso, eu tinha medo de não ir. Mas, depois a Federação que eu representava tinha força política e eu acabei indo, com méritos, e acabei sendo campeão”.

O esporte é um fenômeno social pautado no mérito. A vitória é a representação maior da excelência, caso a justiça prevaleça. Na atualidade, recursos tecnológicos estão sendo usados para que erros de arbitragem não determinem o placar, ainda que isso implique uma descaracterização da competição.

Entretanto, há modalidades nas quais esses recursos não são utilizados e as decisões são contestadas, tanto pelo derrotado quanto pelo público presente. Os meios de comunicação permitem a revisão da cena à exaustão, caracterizando o erro ou a má intenção. O fato é que poucos são os resultados passíveis de revisão depois de homologados.

Se a arte imita a vida ou se a vida imita o esporte, o que se observa é que as mazelas narradas acima não acontecem apenas no âmbito esportivo. Alguns atletas sucumbem diante do erro ou do resultado premeditado. Outros perseguem seus ideais, independentemente da injustiça, em busca de Diké, de heroínas como Antígona ou de heróis como Ulisses e Édipo. Os resultados de eventualidades não determinam os rumos de toda uma existência. Crentes em virtudes como respeito, amizade, excelência, determinação, inspiração, igualdade e coragem entendem por que esses adjetivos são identificados como valores olímpicos.

Ainda assim, restam aos injustiçados a memória do feito no público e a expectativa do momento do reconhecimento pelo julgamento injusto.

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