O governador da palavra poética

Por Cremilda Medina, professora titular sênior da Escola de Comunicações e Artes da USP

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Cremilda Medina – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens
Na frondosa árvore da palavra poética, Sinval Medina acresce, em 2020, um novo livro, O Governador do fim do mundo (São Paulo, Portal Edições). Meio século de escrita ficcional, uma novela inédita e quarenta anos do primeiro romance publicado, Liberdade condicional (1980), o autor lança mais uma de suas já consagradas tramas fundacionais. Assim prefere nomear o que vulgarmente chamam de romance histórico. Ao longo da oficina estética, a par de conteúdos inovadores que refletem suas incursões em vários séculos da brasilidade, a cada livro o ficcionista experimenta sua assinatura numa linguagem autoral. É recorrente o empenho do romancista na criação da escritura: já nos anos 1960, em Porto Alegre, a terra natal, contos que guardou na gaveta e uma novela premiada, Ninguém – texto inédito –, revelam as raízes dessa opção poética que iria frutificar nas décadas posteriores. Seja na fluência da frase coloquial, seja na ampla pesquisa das semânticas culturais, seja na orquestração de múltiplos narradores ou na complexa armação da estrutura romanesca, o leitor desliza com prazer e encantamento nas surpresas e armadilhas de sua ficção.

Ao aportar na desafiadora cidade de São Paulo, em 1971, o escritor gaúcho amadurecerá na literatura em meio aos desafios brasileiros do tempo de ditadura (de que foi vítima ao ser cassado na Universidade de São Paulo, em 1975). Dessas circunstâncias nasceu a catarse literária do romance Liberdade condicional (Rio, Codecri, 1980). Mas mesmo nesse título e no posterior, Cara, coroa, coragem (Rio, Nova Fronteira, 1982), o tema de forte acento político não se sobrepôs à experimentação da narrativa. E, logo a seguir, a opção pela arte de contar histórias vai desaguar com vigor no parágrafo único de 300 páginas do terceiro romance, Memorial de Santa Cruz (Porto Alegre, Mercado Aberto, 1983). Ficam explícitos, a partir daí, os alicerces do que o autor viria a denominar de ficções fundacionais. Tratado da altura das estrelas, a saga brasileira do século XVI, lhe dará, em 1999, o primeiro prêmio das Jornadas Literárias de Passo Fundo. O reconhecimento vem não só da pesquisa que remonta a 500 anos de Brasil, como pela invenção de uma linguagem para narrar a aventura humana na América tropical.

A cada novo romance desde então, outros tons vocalizam personagens e narradores. Parece ser essa a raiz-mãe de sua linguagem romanesca. E que dá a nítida impressão do gosto, do prazer e do humor com que Sinval Medina irriga a palavra reveladora de sua obra, fugindo sempre das fórmulas burocráticas nos diálogos ou nas descrições. Chegamos então aos 40 anos de livros publicados com o lançamento de O Governador do fim do mundo, um mergulho no século XVIII em que o leitor poderá se divertir, entre outros jogos lúdicos, com falas de personagens recheadas de ditados populares que permanecem ainda hoje no acervo da oratura da língua portuguesa. Diga-se, de passagem, que tanto o escritor parece se divertir ao recorrer aos ditos jocosos quanto o leitor se divertirá ao lê-los na boca de personagens:

E arrematava com uma frase que resumia a história da paixão que os avassalara. O futuro a Deus pertence. O passado, nem o Todo Poderoso pode mudar.

Mas não só a voz do povo reina na narrativa; também a retórica de personagens que se queiram eruditos ou pretendam exibir uma hierarquia de poder não escapa à mão firme do maestro que rege suas falas – sempre o toque irreverente de um autor que não pretende a sisudez da argumentação. Uma autoridade investida de poder político ou um Zé Ninguém da rua trazem à cena as metáforas do cotidiano:

Não me interessa a cor do pelo do gato se ele caça os ratos.

O jorro libertário da oratura transgride os cânones da língua oficial e desliza no próprio universo sintático:

Pese terem-se conhecido na véspera, nas arriscosas circunstâncias aqui mencionadas, comportam-se já como amigos de tu.

No pacto que o escritor desenvolve com o leitor, não há mais fronteiras entre as pessoas que vivem na história, nem quem conta, nem quem lê. Entrelaçados na ação presentificada, todos fazem parte do mesmo universo ficcional e ninguém se perde, porque estão dentro e não fora do acontecer, do sentir ou do avaliar. A dialogia e a fusão não pedem licença na cena narrada:

Passa sem dizer que o prestimoso soldado que o acudiu naquela ocasião é o autor deste relato: eu mesmo.

Não apenas a trama das vozes cria uma outra ambiência literária, como a arte de contar histórias tanto pode vir de um narrador, como se desencadeia de uma personagem. Uma delas, muito importante no romance, Dona Leonor de Menezes ou Dona Fidalga,

(…) dizendo-se entristecida por revolver fatos que preferia deixar em olvido, contou a seguinte história.

Que ao chegarem ao porto da sesmaria de Santana, foram os sessenta Casais d’El Rei acolhidos com simpatia por Jerônimo de Ornelas.

E por aí vai a entrega da narrativa, sem tradicionais recursos, à personagem narradora.

Há muito abandonou em seus textos literários aspas e travessões. Nem precisa desses distanciamentos de autor, porque ele se mete nos narradores e nos personagens, o parágrafo a eles pertence e só o ponto marca, na pontuação literária (não gramatical) a inflexão e mudança de vozes. Estilística que se observa até mesmo na primeira ficção, a novela Ninguém, inédita, dos anos 1960.

Apesar da força estilística dos diálogos, Sinval Medina não abdica de descrições, ainda que não seja ele o vocalizador e sim um narrador por ele criado, esteja ele oculto nas brumas do tempo ou atualizado na história que está sendo contada. A própria Dona Fidalga, personagem de substância e fibra no romance, é apresentada, por meio da citação de O Governador do fim do mundo:

Dona Fidalga não lhe sai do pensamento.

Lembra-se dela a argumentar de igual para igual com os homens de prol da freguesia: refinada sem ser frívola, superior sem ser arrogante, sedutora sem bater pestanas ou fazer biquinho, impõe-se no meio masculino não com ardilosos trejeitos de Vênus, mas com a superior sabedoria de Minerva.

Não vale a pena adiantar outros trechos em que o virtuosismo de descrições é tão surpreendente quanto a frase da oralidade de personagens e narradores. No embalo da aventura, o leitor se encontra, ao mesmo tempo, com o ambiente externo e o intimismo dos personagens; o contexto histórico do século XVIII no Brasil, na Europa, e os sarcásticos juízos de valor sobre a aventura da colonização. A pesquisa do autor está subjacente e também denota um acervo caudaloso de referências. Há tantas dessas remissões ao momento histórico e a momentos anteriores, sobretudo na ascendência europeia do Governador do fim do mundo, que seria mote de outros apontamentos culturais. Seleciono apenas um que aparece num cruzamento oportuno com os sentimentos de um português apaixonado. Ao escrever à amada em 1765, recorre às palavras de William Shakespeare. O poema vem transcrito em inglês, ao que o escriba acrescenta uma tradução

Ao pé das palavras do bardo atrevi-me a escrever:

Como comparar-te a um dia de verão, se te vejo mais bela do que luz do sol?

(E lá vai a tradução do Governador, quer dizer, do autor, do poema clássico.)

São ramos sem fim que saem desse tronco enraizado na linguagem dos romances de Sinval Medina. Um deles é o quebra-cabeça que propõe aos leitores ao amarrar as partes que se desdobram na fabulação. Quando se pressente que algum personagem ou alguma circunstância ficariam à deriva, o contador de mil e uma histórias recupera o fio e tece o que seria uma ponta solta na urdidura da ação de várias frentes. Essa, uma habilidade de alguns romancistas que, no caso do romance latino-americano, está presente, por exemplo, na obra de Mário Vargas Llosa. Na estrutura de O Governador do fim do mundo, espaços e tempos se descolam uns dos outros, mas vão se cruzar na memória dos personagens, nos ciclos circunstâncias em que atuam ou nos deslocamentos de suas viagens. Aparentemente andantes e andanças se perdem de vista, mas mais adiante voltam a se entrelaçar. Territórios surpreendentes da Europa, em particular de Portugal, e territórios das descobertas na América, em particular do Sul do Brasil, entram nessa dança fundacional do autor. Se as pistas são históricas, documentais, a navegação é regida pelo escritor no íntimo de personagens e de narradores pela força imprevisível do inconsciente (coletivo?). Nos confins do Vice-Reino do Brasil travam-se as lutas pelo apoderamento da terra; à beira-mar, no Algarve português, explode um amor de perdição. Da épica à lírica, vive-se, ao longo de 438 páginas, as contradições humanas, os conflitos entre povo povoador e poderosos exploradores, identidades locais e imposições globais, cotidianos de diversos matizes, contrastes de produtos da terra e modos de ser. Nessa antologia de culturas, não poderiam faltar as do paladar:

(…) Já em Viamão percebera a preferência dos locais por carnes exóticas, numa terra em que matilhas de cães sem dono alimentam-se de fressuras e tassalhos de vaca abandonados como restos no campo. Constatara incrédulo que naquelas terras valia menos um quarto de boi do que uma capivara, que é como um rato gigante, desprovido de cauda; e uma paleta de borrego era trocada sem regateio por uma queixada, um porco do mato magro e anão. Já presas mais raras como um hórrido lagarto ou um fétido gambá atingiam o preço de um bezerro de soberano. Mas cada roca com seu fuso, cada terra com seu uso. Em Roma como os romanos, diz a sabedoria popular. E não se fala mais nisso.

Enquanto o Governador estranha os hábitos alimentares no fim do mundo do Brasil, um de seus auxiliares vai a Portugal e registraria nos cadernos de um brasileiro outros estranhamentos perante os costumes de Lisboa. Também os cenários urbanos – a implantação de Porto Alegre, que se torna capital do Rio Grande pelas mãos do Governador do fim do mundo, e a Lisboa pós-terremoto de 1755 aos olhos do tenente brasileiro que a visita – surgem, na literatura de Sinval Medina, como encantadora arte pictórica para o viajante de hoje no Brasil ou em Portugal.

Personagens esféricos (para lembrar Marguerite Yourcenar no posfácio que escreve no seu romance Memórias de Adriano, de 1951), o Governador e seus parceiros – históricos ou ficcionais – crescem em múltiplos ângulos. Essa esfericidade afasta qualquer platitude de personalidades unívocas; uns diante dos outros também não encenam a dicotomia de bons e maus. O escritor, maduro nessa construção romanesca, sempre nos oferece seres complexos e nós, leitores, ora nos seduzimos por suas sutilezas humanas, ora entramos em confronto com as fraquezas de caráter. E é nessas contradições que eles, os personagens, nos amarram, nos arrastam na saga aventurosa ou nos afundam nos precipícios de sua alma, em malvadezas indesejáveis.

Ao término de mais esta caminhada, confessa o narrador oculto perante o desejo do leitor de continuar:

Como vê o atento e fiel leitor, muito teríamos a acrescentar sobre as vidas e os feitos do nosso ilustre personagem.

Esta porém já seria outra história.

Serviço
Livro: O Governador do fim do mundo (disponível aqui)
Autor: Sinval Medina
Número de páginas: 440
Idioma: Português
Ano da edição: 2020

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