Articulação de saberes no universo quilombola

Por Valéria de Marcos, professora do Departamento de Geografia da FFLCH/USP

Valéria de Marcos – Foto: IEA/USP

 

 

Saberes em Diálogo: comunidade, escola e universidade na construção da educação quilombola no município de Barra do Turvo-SP é um projeto inter e transdisciplinar que articula os saberes praticados pelas comunidades quilombolas, o conhecimento dos professores da Educação Infantil e Ensino Fundamental I e os saberes universitários nas áreas de Geografia, História, Letras, Matemática e Ciências (Física, Química e Biologia). Coordenado por mim, o projeto congrega uma equipe de 22 pesquisadores entre professores e estudantes de graduação, abrangendo 56 professores da rede municipal de Barra do Turvo, cinco comunidades quilombolas (285 famílias) e cerca de 500 estudantes da Educação Infantil e Ensino Médio.

Minha aproximação das comunidades  se deu em 2012, quando realizei o primeiro trabalho de campo da disciplina Geografia Agrária II (optativa) e na ocasião me coloquei à disposição para auxiliar no que fosse possível, compromisso que voltou a ser firmado e registrado em ata do Conselho Gestor da RDS Quilombos de Barra do Turvo-SP, quando fui apresentar a proposta de pesquisa de Laura de Biase para realização de seu doutorado. Desde a minha primeira visita à área orientei várias pesquisas realizadas entre IC, TGI, mestrado e doutorado. Em 2015, houve no Vale do Ribeira uma série de audiências públicas sobre a educação escolar quilombola, uma delas em Barra do Turvo. No trabalho de campo realizado em 2014 a liderança que nos acolheu tocou na temática da escola quilombola e me disponibilizei a apoiar. Inicialmente pensamos na elaboração de material didático. Coloquei uma equipe de estudantes para pesquisar o tema e identificamos que no município havia total desconhecimento e distanciamento entre os professores e as comunidades. Ficou evidente que antes de pensar em material didático era preciso aproximar a escola das comunidades.

Assim, formulei em 2017 o projeto Mostra Quilombola: modo de vida e cultura quilombola – percursos pedagógicos com estudantes da Geografia e pesquisadores das comunidades, realizei reunião com representantes de todas as comunidades, discutimos a temática e identificamos os eixos norteadores do projeto e, em 2018, iniciamos uma série de visitas às comunidades para realização de entrevistas e seleção de material. A ideia era criar um percurso de visitação entre as comunidades e articular essas visitas com os professores. À medida que as reuniões e entrevistas avançavam foram ficando cada vez mais claras a riqueza de saberes ali contidos e a importância de envolver outras áreas no projeto, até então sem financiamento (havia sido aprovada no Santander 2017 mas por problemas de saúde não foi possível executar no tempo previsto, o que me fez devolver todo o recurso e dar continuidade ao projeto com recursos próprios). Quando a PRG lançou o Edital 01/2018 Aprender na Comunidade, pensei que pudesse ser o momento de ampliar o alcance do projeto e contatei professores conhecidos das áreas de História, Letras e Matemática. A equipe cresceu, o projeto foi aprovado e demos início às atividades em 2019.

Nesse ano, nos dedicamos à realização de uma visita de aproximação dos professores junto às comunidades (cinco comunidades envolvidas e 60 professores participantes), 21 oficinas temáticas (culinária, agricultura, infância, artesanato, devoção) envolvendo cerca de 600 estudantes, 30 professores, 60 auxiliares de ensino da rede municipal e cerca de 100 integrantes das comunidades; site do projeto; apresentação do trabalho em eventos científicos pelos estudantes de graduação integrantes da equipe (XXIV Encontro Nacional de Estudantes de Geografia, Belém, 2019, e IX Simpósio Internacional de Geografia, X Simpósio Nacional de Geografia, Recife, 2019); seminário Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira: olhares da USP em diálogo. Era prevista a formação dos professores em 2019, mas a avaliação da visita de reconhecimento com os professores da rede municipal deixou claro que era preciso ampliar a sensibilização. Assim, optamos por realizar as oficinas e ver o que os professores fariam com aquilo, sem direcionar as ações. A avaliação feita ao final do ano revelou que poucos professores haviam aproveitado as visitas, mas que os estudantes haviam se sensibilizado e faziam as relações em sala de aula. Uma professora relatou inclusive um episódio de combate ao racismo feito pelos próprios estudantes após a visita aos quilombos. Alguns alegaram que nós não havíamos “dito o que era para fazer”. Explicamos novamente a ideia do projeto e combinamos para 2020 a formação e novo ciclo de oficinas.

A atuação nas comunidades revelou inúmeras possibilidades de articulação de saberes. A abertura da atual gestão municipal para a implantação da EQ no município e o Edital 01/2018 possibilitaram uma articulação com outras áreas do conhecimento, visando à construção de uma EQ inter e transdisciplinar e territorialmente referenciada. A aprovação do projeto possibilitou o início da construção conjunta e com os diferentes saberes em diálogo, um aprendizado coletivo com ganhos para todos os envolvidos, a ser consolidado por meio da presente proposta: (1) as comunidades saíram da invisibilidade e se fizeram ouvir a partir daquilo que mais valoriza sua identidade e autoimagem; (2) os professores compartilharam o que realizaram com êxito e expuseram suas dificuldades e, coletivamente, identificamos os pontos de articulação inter/transdisciplinar; (3) os estudantes não quilombolas tiveram contato com a realidade vivida pelos quilombolas, o que permitiu romper preconceitos e dar valor positivo à diversidade; já os estudantes quilombolas estreitaram laços de pertencimento e reconhecimento da história de sua comunidade, o que permitiu assumir de forma positiva sua identidade; (4) a Universidade, por meio dos docentes das diferentes áreas do saber, pôde colocar o conhecimento por ela produzido em diálogo entre si, com as escolas e com as comunidades, de modo a reorientar o conhecimento produzido para atender às demandas dali surgidas; (5) os pós-graduandos puderam contribuir com suas produções e reflexões, ampliar a escala das próprias pesquisas e as possibilidades de trocas no processo em construção; (6) os estudantes de graduação das diferentes áreas tiveram tanto a formação específica em um tema não tratado nos currículos oficiais quanto a vivência da construção de uma proposta de educação diferenciada em que múltiplos saberes se articulam e dialogam sem hierarquização, consolidando o papel social da universidade na produção de um conhecimento de combate às desigualdades.

Em 2020, a pandemia de covid-19 nos obrigou a reformular a rota. Assim, realizamos a avaliação do material didático utilizado pelos professores à luz das oficinas realizadas anteriormente e elaboramos o curso de formação continuada de 60 horas Saberes em Diálogo: Comunidade, escola e universidade na construção da educação escolar quilombola no município de Barra do Turvo-SP, iniciado em março 2021 via CCEX/FFLCH/USP. O projeto foi reapresentado ao Edital 02/2020 e aprovado. Também em 2020 ampliamos a equipe integrando a Equipe de Ciências a partir da parceria com o Projeto Arte e Ciência, coordenado pelo professor Mikiya Muramatsu.

O curso iniciado em março de 2021 possui uma etapa inicial com sensibilização ao tema, com aulas de História da África, Diáspora Africana na América, Movimento Negro e Comunidades Quilombolas, Racismo Estrutural, Lei 10.639/03 nas ciências humanas e exatas, educação diferenciada e uma segunda parte articulando os conteúdos das oficinas ao previsto para a Educação Infantil e Ensino Fundamental I. É prevista a produção de livro de autoria coletiva coletando as atividades realizadas pelos professores em sala de aula, seminário de avaliação, exposição dos materiais produzidos pelos estudantes ao longo do ano. O curso é oferecido para os professores da rede pública de Barra do Turvo, obrigatório para os professores da Educação Infantil e Ensino Fundamental I e foi aberto para os professores da rede estadual. Possui também duas professoras convidadas da rede municipal de Osasco que colaboraram conosco na identificação das possibilidades e desafios enfrentados no Ensino Fundamental I, diante da dificuldade de contato com os professores de Barra do Turvo. Isso porque nenhum dos professores da equipe possui experiência com o ensino nessa etapa da Educação Básica, o que foi encarado por todos como uma grande vantagem e desafio.

A construção interdisciplinar com essa equipe que congrega diversas áreas do saber (falta apenas contemplar a área de Artes, e estamos em busca de professores dispostos a construir esse sonho/desafio de uma educação escolar quilombola territorialmente referenciada conosco) é uma experiência que por si só é de grande riqueza. Somado a isso, o diálogo com os saberes das comunidades e a compreensão, pelos estudantes de graduação, de como os saberes científicos são ressignificados nas comunidades ou de como a ciência interpreta os saberes ancestrais das comunidades quilombolas é algo que nenhuma disciplina da graduação por si só proporciona. As reuniões da equipe têm sido momentos de grande aprendizado coletivo e de diálogo entre ciências que dificilmente o fariam em outro modo. É o que tem dado corpo ao sentido de universidade, de conhecimento interdisciplinar e compartilhado.

O curso tem sido momento de aprendizado coletivo. Já estamos no quarto encontro e aos poucos os professores têm se colocado mais e refletido sobre sua vivência. No primeiro encontro, um professor falou da importância de construir um museu na cidade. No último, por mim ministrado, deixei um slide que falava da chegada dos fundadores das comunidades quilombolas para passar a palavra à liderança quilombola que faria a fala (e que não pôde estar presente por problemas de acesso à internet). Nesse momento um professor pede a palavra e diz: “Valéria, estou lendo o seu slide. A história que contamos de Barra do Turvo está errada. Precisamos reescrever nossa história”. A realização dessa nova etapa irá consolidar o que foi iniciado e fortalecer o diálogo de saberes e tenho certeza que esse diálogo não se encerrará nessa etapa.


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