Albert Camus sobre o muro

Por Jean Pierre Chauvin, professor da disciplina Romance Distópico na ECA/USP

Editorias: Artigos - URL Curta: jornal.usp.br/?p=294214
Jean Pierre Chauvin – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

[…] o senhor tem esse Outro por baixo de si: é este o silogismo [da dominação] (Hegel, Fenomenologia do espírito).

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A sua moral transformou-se em moralismo; hoje, ela não passa de literatura; amanhã talvez ela seja imoralidade (Sartre, carta em resposta a Camus).

 

Nesta fala[1], que é tangencial, pretendia lhes dizer algo sobre A peste (1947), de Albert Camus (1913-1960). O romance, para muitos uma distopia, figura um surto de peste bubônica na pequena cidade de Oran, situada ao extremo norte da Argélia, na borda do continente africano. O protagonista é um médico que alterna descrições vívidas, sobre a triste situação dos enfermos, com reflexões particulares, mas generalizantes, de seus “concidadãos”.

“Uma forma cômoda de travar conhecimento com uma cidade é procurar saber como se trabalha, como se ama e como se morre. Na nossa pequena cidade, talvez por efeito do clima, tudo se faz ao mesmo tempo, com o mesmo ar frenético e distante. Quer dizer que as pessoas se entediam e se dedicam a criar hábitos. Nossos concidadãos trabalham muito, mas apenas para enriquecerem.”

À proporção que avançamos na história, descobrimos que a peste contagia e contamina os habitantes de Oran, levando-os a mostrar o melhor e o pior de si. Diante da ameaça de morte, certos discursos (antes, calados), certas posturas (antes dissimuladas) explicitam-se. Provavelmente isso teria levado um célebre cidadão a afirmar o seguinte:

“O diretor do hotel não consegue falar de outra coisa. Mas é também porque se sente envergonhado. Descobrir ratos no elevador de um hotel respeitável parece-lhe inconcebível. Para consolá-lo disse-lhe: ‘Mas acontece o mesmo a todos!’.
– Justamente – respondeu-me – somos agora como todos os outros”.

Bernard Rieux, o narrador-personagem, percebe o esnobismo – e, no caso do diretor do hotel, a sede de distinção por parte de seus “concidadãos” –, o que o leva a proferir sentenças judiciosas, que não se limitam a comentários paralelos à narrativa. A consequência desse procedimento é deslocar o gênero romanesco em direção ao ensaístico, diluindo-se as fronteiras entre ficção e reflexão, a exemplo do que fez José Saramago, em seus romances ensaísticos (especialmente no Ensaio sobre a cegueira), 30 anos depois.

“Dirão, sem dúvida, que nada disso é peculiar a nossa cidade e que, em suma, todos os nossos contemporâneos são assim. Sem dúvida, nada há de mais natural, hoje em dia, do que ver as pessoas trabalharem de manhã à noite e optarem, em seguida, por perder nas cartas, no café e em tagarelices, o tempo que lhes resta para viverem.”

Trata-se, portanto, de uma obra híbrida, que funde literatura e filosofia. Ora, quem trabalha com artefatos ditos literários costuma reconhecer que um dos limites do ofício é lidar com as instâncias autorais/enunciativas do discurso[2]. No caso particular de Camus, há uma tendência, que remonta aos anos de 1950, em sinalizar certas ambiguidades do homem Camus, a partir do que o romancista-filósofo escreveu.

Penso, em particular, n’O homem revoltado, publicado em 1951. Nele, Camus problematizava as contradições do sujeito que, em nome da revolta, distanciava-se dos elementos que a motivaram: “É por isso que o escravo revoltado diz simultaneamente sim e não. Ele afirma, ao mesmo em que a fronteira, tudo que suspeita e que deseja preservar aquém de fronteira”.

Entre o Sim e o Não, entre afirmar sua condição e refutá-la, o revoltado se comportaria de modo ambíguo em relação às premissas de seu discurso. Há 60 anos, portanto, afirma-se que o principal fator de rompimento entre Jean-Paul Sartre e Albert Camus envolveu a publicação dessa obra. Seria o caso de nos perguntarmos: teria Albert Camus escrito o ensaio com vistas a mitigar a sua antiga assertividade, como intelectual afiliado ao Partido Comunista? Teria sido uma resposta completada em A queda, de 1956, ensaio em que se dirige ao leitor em primeira pessoa, simulando subserviência aos seus críticos, na França e na Argélia? Lembro que Camus se mudou para a França em 1939, dois anos após ter sido expulso do partido.

Comento alguns excertos de A peste, como forma de sugerir hipóteses de leitura. Reestabelecidas as diferenças entre o homem, o autor e o narrador do romance, arriscaria palpitar que os eventos transcorridos em Oran poderiam ser interpretados para além deles mesmos. Vejamos o que o médico diz sobre o amor de seus concidadãos:

“Os homens e as mulheres ou se devoram rapidamente, no que se convencionou chamar ato de amor, ou se entregam a um longo hábito a dois. Também isso não é original. Em Oran, como no resto do mundo, por falta de tempo e de reflexão, somos obrigados a amar sem saber.”

Do ponto de vista simbólico, o que a peste nos poderia sugerir? Que o cálculo vencera a espontaneidade?  Os ratos podem representar algo para além da doença que transmitem, a ponto de isolar a cidade. Seriam eles uma representação da ruína de uma população amortecida pelo hábito?

“A morte do porteiro, pode-se dizer, marcou o fim deste período, cheio de sinais desconcertantes e o início de um outro, relativamente mais difícil, em que a surpresa dos primeiros tempos se transformou, pouco a pouco, em pânico. Os nossos concidadãos – a partir de agora eles se davam conta disto – nunca tinham pensado que nossa pequena cidade pudesse ser um lugar particularmente designado para que os ratos morressem ao sol e os porteiros perecessem de doenças estranhas. Sob este ponto de vista, era evidente que estavam errados e que suas ideias precisavam ser revistas. Se tudo tivesse ficado por aí, os hábitos, sem dúvida, teriam vencido.”

Seria o fenômeno da peste um pretexto eficaz para dissertar sobre o medo particular e o pânico em geral, combinados à vida irrefletida e à falta de solidariedade? Parece-me que sim, especialmente se levarmos em conta a epígrafe do romance, tirada de uma sentença atribuída a Daniel Defoe: “É tão razoável representar uma espécie de aprisionamento por outro como representar qualquer coisa que realmente existe por alguma coisa que não existe”. Vale lembrar que uma das funções da epígrafe é induzir a leitura do romance, ou seja, como obra de representação de algo para além da ficção.

Por isso mesmo, gostaria de propor uma segunda interpretação do romance. As considerações do narrador Bernard e os diálogos que mantém com seus “concidadãos”, combinados ao isolamento da pequena Oran, sugerem que a cidade argelina – historicamente, lar de vários povos e etnias, seria uma miniatura do mundo, com suas bandas ocidental e oriental; europeia e africana, católica e muçulmana. O isolamento da cidade, no romance, poderia ser lido segundo a ótica de Frantz Fanon, proferida 14 anos depois, em Os condenados da terra: “O mundo colonizado é um mundo cortado em dois. A linha divisória, a fronteira é indicada pelas casernas e pelos postos de polícia”.

Sob esse aspecto dúplice, seria aceitável supor que, se Oran representa o mundo, com seus habitantes contraditórios, a oscilar entre o egoísmo e a solidariedade, entre a solidão e a coletividade, a peste e o isolamento que ela provoca não poderiam constituir uma alegoria da situação argelina na década de 1940, quase um século após o início da colonização do país pela França? Relembro, com João Adolfo Hansen, que a alegoria tanto constitui uma técnica de escrever, quanto pressupõe um método de exegese, com vistas a decodificar e interpretar o texto, seja ele canônico, sagrado, histórico, ficcional ou filosófico. Em termos mais específicos, a alegoria não se confunde com a metáfora, pois é recurso que se vale de uma imagem para sugerir outra, quase sempre situada cronológica e espacialmente.

Nessa perspectiva, a cidade de Oran, cenário e prisão ao ar livre, diria respeito às variadas formas de isolamento, tanto mentais quanto geográficos, dos indivíduos, ora descritos como células de sobrevivência, ora como membros de uma coletividade, cujo sentido não parece se restringir à cidade (Oran), nem ao território (Argélia), como possessão da França. O enredo de A peste remeteria à condição do país, desde meados do século XIX? Ou poderia sugerir a ambivalência de um universo fronteiriço, em busca de sua identidade, para além dos acordos impostos pelo colonizador? Não será demasiado lembrar que o romance de Camus foi publicado dois anos após o final da Segunda Guerra. Seria uma alusão à reconfiguração do planeta, a oscilar entre regimes totalitários? Recorro novamente a Fanon, para lembrar a mim mesmo um dos papéis que nos cabe, nesta neocolônia que leva o nome de uma commodity – pau-brasil: “O fenômeno [a autodepreciação dos colonizados] é habitualmente mascarado porque, durante o período de de(s)colonização, certos intelectuais colonizados estabeleceram diálogo com a burguesia do país colonialista”.

Evidentemente, não pretendo estabelecer relações imediatas entre a interpretação do romance e a situação enfrentada pela Argélia (ou pelo Brasil), hoje. Por outro lado, acredito que a história contada por Bernard Rieux, em A peste, diz algo para além de ampliar os limites que a convenção literária supõe e relembra que, pelo menos desde o final do século XIX, a historiografia passou a ser vista também como variedade discursiva, em que a versão dos fatos assumiu tanta importância quanto as fontes e testemunhos a que o historiador teve acesso.

 

[1] Fala apresentada na ELAHP (Escola Latino-Americana de História e Política) em 26 de outubro de 2019. Conteúdo parcial da aula “Revolução Argelina, 1954-1962”, ministrada em parceria com Everaldo de Oliveira Andrade, para o curso Revoluções do Século XX.

[2] “O falante no romance é sempre, em maior ou menor grau, um ideólogo, e sua palavra é sempre um ideologema. A linguagem peculiar do romance é sempre um ponto de vista peculiar sobre o mundo, que aspira a uma significação social” (Bakhtin, A teoria do romance). Conforme salienta José Luiz Fiorin, em As astúcias da enunciação: “O enunciador pode, em função de suas estratégias para fazer crer, construir discursos em que haja um desacordo entre essas duas instâncias. A discordância entre enunciado e enunciação não é uma discrepância entre um conteúdo manifesto e uma intenção comunicativa inefável, pois as únicas intenções do sujeito que se podem apreender são as inscritas no discurso”.

 

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