A USP na pesquisa e na prática da economia do País

Por Ariaster Baumgratz Chimeli e Claudio Antonio Pinheiro Machado Filho, professores da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da USP

 Publicado: 29/07/2022

Ariaster Baumgratz Chimeli – Foto: Arquivo pessoal
Claudio Antonio Pinheiro Machado Filho – Foto: Arquivo pessoal

 

O programa Eixos Temáticos da USP promove a conexão de áreas de expertise entre si e com a sociedade. Neste contexto está o Eixo Temático Economia, entendido de forma ampla de modo a incluir as áreas primárias de economia, administração, contabilidade e ciências atuariais. Estas áreas trabalham diretamente na esfera do desenvolvimento econômico e promoção, com importantes consequências para o bem-estar social e o ambiente onde a sociedade se insere.

Ao longo de décadas os corpos docente e discente dos vários campi da Universidade de São Paulo associados ao eixo econômico têm atuado em alto nível na produção de pesquisas, estudos e trabalhos junto à sociedade. A atuação do Eixo Temático Economia tem tido uma estreita conexão com diversas esferas da sociedade, incluindo o setor empresarial, organizações da sociedade civil e todas as esferas de governo e poder público. São vários os exemplos de docentes e discentes que atuaram ou atuam em todas estas esferas. Exemplos como cargos de alto escalão nos governos federal, estaduais e municipais abundam. Igualmente abundantes são as contribuições para organizações da sociedade civil, empresariais e poderes locais, além de representantes em organismos internacionais, atuantes em temas como ambiente, comércio internacional, finanças internacionais, normas técnicas, entre outros.

A comunidade da USP atuante no Eixo Temático Economia tem contribuído e continua ativa no ataque dos problemas da sociedade nas suas mais diversas dimensões. Essa comunidade compreende de forma profunda o campo do conhecimento da economia e as formas como este pode contribuir com a melhoria do bem-estar social, especialmente no contexto contemporâneo de desafios ambientais que nos convidam a transformações fundamentais nas formas que produzimos, consumimos e geramos riqueza.

O campo do conhecimento da economia (denominado economics em inglês), bem como a economia em sua prática (the economy), revolvem em torno das escolhas que membros da sociedade fazem. Essas escolhas são determinadas pelos seus recursos disponíveis e têm como fim a promoção do bem-estar individual, de grupos de interesse e da sociedade como um todo. Dessa forma, o bem-estar individual e social dita a agenda do desenvolvimento econômico, que, por sua vez, afeta o bem-estar individual e social.

A relação entre bem-estar e desenvolvimento e crescimento econômico impacta o ambiente onde eles se inserem. O ambiente, por sua vez, impacta diretamente o bem-estar e o desenvolvimento econômico. Em última instância, o ambiente determina a sustentabilidade da ligação entre bem-estar e desenvolvimento. É esta lógica que fundamenta o nexo central do Eixo Temático Economia como a inter-relação entre as esferas do bem-estar, desenvolvimento econômico e meio ambiente.

O desenvolvimento econômico afeta o bem-estar social através da geração de bens, serviços, riqueza e renda. Estes, por sua vez, contribuem para a satisfação das demandas sociais, incluindo o fortalecimento de instituições de proteção da sociedade, do ambiente e dos mecanismos de promoção do desenvolvimento. O bem-estar social afeta o desenvolvimento através da produtividade do trabalho e da estabilidade de instituições que garantem o funcionamento e evolução da forma em que o desenvolvimento econômico se dá.

O desenvolvimento econômico afeta o meio ambiente através da pressão por recursos e serviços da natureza, bem como através da sua habilidade de produzir mecanismos que alinhem incentivos privados com interesses sociais quando mercados falham em fazer o mesmo de forma a promover a proteção ambiental. Por outro lado, o meio ambiente determina a disponibilidade de recursos e serviços da natureza para promoção do desenvolvimento econômico, bem como a quantidade e produtividade dos insumos produtivos da economia. Adicionalmente, o estado do meio ambiente pode exercer pressão para a inovação tecnológica e institucional com vistas à promoção do desenvolvimento econômico que garanta sua existência no longo prazo.

Dois canais principais determinam o impacto do bem-estar social sobre o meio ambiente. O nível de bem-estar social impacta (de forma positiva ou negativa) o grau de pressão sobre recursos e serviços da natureza. Adicionalmente, o nível do bem-estar social influencia a demanda por mecanismos que alinhem incentivos privados com interesses sociais onde mercados falham em fazer o mesmo de modo a garantir a proteção ambiental. O meio ambiente, por sua vez, impacta a disponibilidade de recursos e serviços importantes para a promoção do bem-estar social, bem como exerce pressão para inovação tecnológica e institucional que garantam a promoção do bem-estar social.

No plano microanalítico, a “economia das organizações” estabelece o arcabouço teórico para entender a inter-relação entre os agentes organizacionais, o mercado e o ambiente institucional. As empresas provedoras de bens e serviços são pautadas pelo ambiente institucional que baliza os incentivos e limites de sua atuação. Na definição do Nobel em Economia Douglass North, instituições são as “regras do jogo”, organizações são os “jogadores”, que atuam de acordo com as regras, mas também atuam para alterá-las. North trata a qualidade das instituições formais (leis, regras, normas) e informais (crenças, valores, princípios) como componentes essenciais no desenvolvimento econômico e social das sociedades ao longo do tempo.

A governança corporativa, traduzida na forma como as organizações são “dirigidas e controladas”, tem correlação com a evolução do ambiente institucional no qual se inserem. As organizações são ficções jurídicas, que refletem um “nexo de contratos” que devem ser “governados”. Acionistas, colaboradores, administradores, fornecedores, consumidores, governo e comunidades são stakeholders diretos que estabelecem “contratos formais ou informais” com a entidade organizacional. A criação de valor sustentável da organização passa pelo estabelecimento de contratos sustentáveis com o conjunto de seus stakeholders. Neste sentido, a internalização de variáveis sociais e ambientais tem relação estreita com a governança, à medida que passam a ter maior relevância no mainstream do processo decisório estratégico das empresas.

Evidências no ambiente contemporâneo podem ser notadas a partir da popularização do acrônimo ESG (environmental, social, governance). Embora o tema não seja novidade, ganhou tração exponencial nos últimos cinco anos, como reflexo de pressões da sociedade civil, consumidores e governos, tendo como resultante movimentos estratégicos dos provedores de capital, especialmente investidores institucionais, que passam a exigir novos padrões de conformidade social, ambiental e de governança nas empresas investidas. Ou seja, mudanças institucionais (formais e informais), novas “regras do jogo”, que podem induzir agentes organizacionais a mudanças profundas e disruptivas nas suas condutas. São questões em aberto, com potencial de impacto nos modelos de negócios e de governança nas organizações. A academia deve estar atenta e preparada para a investigação destes fenômenos emergentes. Amplia-se o campo fértil para pesquisas que relacionem a governança das organizações, desenvolvimento econômico, bem-estar social e meio ambiente.

A tradição de atuação dos corpos docente e discente da comunidade da USP no Eixo Temático Economia gerou e gera pesquisas e assessorias para os mais diversos setores da sociedade. Esta atuação envolve desde a atuação no nível microeconômico, com a melhoria na governança de empresas e estruturação financeira de municípios, até Planos Plurianuais do governo federal e direção em órgãos internacionais multilaterais.

Cabe destaque para a vasta produção nas áreas de meio ambiente e recursos naturais, energia, estudos regionais e urbanos, finanças, ambiente empresarial, avaliação e análise de políticas públicas, setores agropecuário, industrial e de serviços, bem como estudos de aspectos diversos da pobreza e da desigualdade. Toda esta produção guarda estreita conexão com desenvolvimento e crescimento econômico.

Mais especificamente, o Eixo Temático Economia da USP tem produzido trabalhos em alto nível nas áreas de meio ambiente, recursos naturais e energia; mudanças climáticas; desenvolvimento regional; educação; criminalidade; saúde; economia política; setor financeiro; ações ambientais, sociais e de governança das empresas; finanças públicas; pobreza; desigualdades de renda e riqueza, gênero e raça; e aspectos diversos de políticas públicas nacionais.

No contexto da pandemia, a Economia da USP, assim como outras áreas do conhecimento da Universidade, tem dado uma resposta rápida às demandas da sociedade. Tal resposta inclui desde reflexões sobre os desafios da saúde pública no País em um cenário de envelhecimento da população exposta a preocupantes níveis de poluição até a atuação direta com órgãos de governo monitorando o cenário econômico conjuntural e os caminhos para a retomada do crescimento. A pandemia trouxe à tona a necessidade de reformas fundamentais que garantam o uso eficiente dos recursos escassos do País para um melhor ataque a problemas latentes da nossa sociedade. Esses problemas incluem, entre outros, o financiamento da saúde pública, as consequências da desigualdade para o bem-estar dos brasileiros, o padrão de crescimento econômico e as relações entre a economia, bem-estar e o meio ambiente.

Questões centrais do mundo contemporâneo como as mudanças climáticas e a pandemia estão intimamente ligadas ao papel da economia de elucidar perdas e ganhos das escolhas que o presente e o futuro impõem. Enfrentar essas questões envolve uso mais eficiente de recursos. É esta melhoria de eficiência que norteia reformas estruturantes discutidas no cenário atual, como as reformas tributária com um componente verde, da previdência, trabalhista e administrativa, por exemplo. A Economia da USP tem participado ativamente das discussões sobre essas reformas que, em última instância, estão ligadas à nossa habilidade de alocarmos recursos para as prioridades da sociedade, quaisquer que elas sejam.

Em uma agenda de contribuição para a sociedade, o Eixo Temático Economia olha para o futuro com ações diversas baseadas em sua vasta experiência e expertise. Está no DNA da Economia na USP a atuação próxima com a sociedade no tratamento de questões relevantes para o crescimento e desenvolvimento econômico, para o bem-estar social e, em resposta aos desafios do nosso mundo contemporâneo, para a sustentabilidade do desenvolvimento.


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