A USP e os desafios para a pesquisa de excelência

Glauco Arbix é professor Titular do Departamento de Sociologia e do Observatório de Inovação da USP

Por - Editorias: Artigos
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Glauco Arbix – Foto: Marcos Santos / USP Imagens

O artigo da The Economist, “Why Artificial Intelligence researchers like video games” (11/05/17)me levou à USP, que está criando um novo laboratório de games, em sinergia com outras áreas e disciplinas. Esse novo projeto está integrado a outros centros de pesquisa (em biologia molecular e biologia sintética), assim como centros de prospecção sobre a indústria do futuro. Em cooperação com laboratórios internacionais, a USP se prepara para constituir um novo complexo gerador de conhecimento, a exemplo das grandes universidades, que desenvolvem aceleradamente a pesquisa interdisciplinar como meio para expandir a fronteira do conhecimento.

Pelo tamanho da universidade, dadas a qualidade e tradição de suas pesquisas, esses novos centros representarão apenas um pequeno passo na construção na universidade de plataformas ágeis e dinâmicas de pesquisa. Mas um passo carregado de significado inovador neste momento.

Primeiro, porque é de longa data que o Brasil enfrenta dificuldades para diminuir a distância científica e tecnológica que nos separa dos países mais avançados. Todos sabemos que C&T são pontos de apoio essenciais para tornar nossas empresas mais inovadoras e, assim, superar a baixa produtividade que marca nossa economia desde os anos 80.

Segundo, porque o atual governo, antes mesmo das delações da JBS, já havia excluído a inovação da agenda das políticas públicas, em nome das dificuldades fiscais do Estado brasileiro. Por mais que o ajuste fiscal seja necessário, os cortes na Educação e em CT&I indicam que, mais uma vez, as visões de curto prazo conspiram para alienar nosso futuro.

Terceiro, porque a turbulência extrema criada pela mais recente crise política que sacode a República certamente tenderá a eliminar a CT&I de uma eventual lista de prioridades, como ocorre há décadas.

A USP, no entanto, pretende trilhar um caminho distinto e se esforça para aumentar o investimento em pesquisa, apesar de suas dificuldades orçamentárias.

O artigo da The Economist, “Why Artificial Intelligence researchers like video games” (11/05/17)me levou à USP, que está criando um novo laboratório de games, em sinergia com outras áreas e disciplinas. Esse novo projeto está integrado a outros centros de pesquisa (em biologia molecular e biologia sintética), assim como centros de prospecção sobre a indústria do futuro

Acreditamos, porém, que pode ir mais longe. Com uma pitada de ousadia, a construção dos novos laboratórios poderia representar um passo ainda maior, pioneiro, uma oportunidade para abrir o debate sobre a mais que necessária reforma de todo o sistema universitário brasileiro.

Uma reforma de alto nível, voltada para reposicionar a universidade de modo a elevar o padrão da pesquisa brasileira, aumentar sua competitividade internacional e elevar a qualidade da formação de nossos alunos.

Para dar esse passo, seria importante que a instalação dos novos centros deflagrasse um debate sobre o funcionamento e a operação de nossa pesquisa, hoje em grande parte fragmentada, compartimentalizada e constrangida por regras burocráticas muitas vezes intransponíveis.

A perda de competitividade da pesquisa brasileira não se limita à volatilidade dos recursos, mas está também fortemente ligada ao engessamento dos mecanismos disponíveis na universidade, em contraste flagrante com as práticas existentes nas universidades de ponta, que dominam o cenário mundial da produção de conhecimento e procuram se posicionar como verdadeiros engines of economic growth.

Por esse prisma, o novo complexo de laboratórios não deveria nascer como mais uma extensão da USP, subordinado às suas regras e normas de funcionamento, a começar pelo sistema de alocação de pesquisadores, que estariam condicionados a atuar também em suas unidades de origem. Todos sabemos que pesquisa em tempo parcial oferece, em geral, resultados parciais, o que mina, de saída, a ideia desses laboratórios como centros de excelência.

Exatamente por isso, os novos laboratórios poderiam se constituir em unidades interligadas a uma nova instituição, coordenada e financeiramente controlada pela USP. Uma instituição estrategicamente dirigida pela USP (via um contrato de gestão, por exemplo), mais flexível, capaz de facilitar o fluxo da pesquisa, de atrair e reter talentos, de receber por cessão pesquisadores da própria USP, de celebrar convênios de cooperação internacional com celeridade, com agilidade de compras sem as restrições da Lei 8666 e com remuneração variável, que valorize o mérito e os resultados do trabalho de pesquisa.

O Brasil possui instrumentos legais que apontam nessa direção. Sem mágica, mas com transparência e tranquilidade, acreditamos ser possível avançar na direção de novas formas institucionais, a exemplo das Organizações Sociais (OS). Uma OS (ou outra forma legal tão ou mais flexível) poderia articular os novos laboratórios e, como experiência piloto, se bem-sucedida, poderia ter ramificações em outras unidades avançadas da USP.

Com uma pitada de ousadia, a construção dos novos laboratórios poderia representar um passo ainda maior, pioneiro, uma oportunidade para abrir o debate sobre a mais que necessária reforma de todo o sistema universitário brasileiro

A universidade só teria a ganhar em agilidade com a integração da pesquisa e de pesquisadores, com a arrecadação de recursos de agências nacionais e internacionais, a internalização otimizada de contribuições privadas e sua conversão em um fundo de tipo endowment e com o aprofundamento de suas relações com a sociedade.

Sabemos que uma OS não depende exclusivamente da universidade, mas precisa do apoio das casas legislativas e dos governos estaduais, assim como de regras próprias. Temos certeza, porém, de que a universidade não está condenada a fazer sua pesquisa relevante acontecer em meio a uma corrida interminável de obstáculos, na maior parte das vezes, desnecessários. É preciso destravar a universidade brasileira para liberar toda a inteligência hoje dispersa e muitas vezes desperdiçada. O ponto em debate, portanto, é da USP, mas da CT&I e de todo o país.

A abertura desse debate é essencial, pois estamos longe de diretrizes como essas, mesmo com a flexibilidade parcial que hoje as Fundações permitem.

Presente no estado mais dinâmico da Federação, que conta com o suporte consistente da Fapesp, a USP tem condições de acelerar e inovar institucionalmente para quebrar as amarras da nossa pesquisa. Os avanços realizados até hoje são importantes, todos reconhecem. Mas são poucos, lentos e de baixo desempenho, quando comparados aos melhores centros internacionais. Por isso, a discussão, seleção e construção dessas novas institucionalidades estão na ordem do dia.

Em outras palavras, a USP pode fazer mais e melhor para ajudar a elevar o impacto científico, econômico e social da pesquisa brasileira. Os novos laboratórios são uma oportunidade para a universidade começar, efetivamente, a rever seus históricos mecanismos de operação, flagrantemente inadequados aos desafios da pesquisa de hoje.

Temos certeza de que a USP pode fazer mais, melhor e mais rápido. Tem tradição de respeito, legitimidade e meios para avançar rumo a uma universidade aberta aos novos tempos e sensível às necessidades do país. E assim fazendo, mais uma vez, ajudaria a desbravar caminhos novos para a remodelagem da universidade brasileira.

 

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