A Serra Leoa não é aqui, infelizmente!

Por Denise Pimenta, doutora em Antropologia Social pela FFLCH-USP e pesquisadora do Cidacs/Fiocruz-BA

Denise Pimenta – Foto: Arquivo pessoal

 

As práticas funerárias e de enlutamento são diversas de acordo com as culturas que as praticam. Em muitos países, o enterro de um velho pode durar dias, momento em que se reúnem familiares e amigos ao redor de farta comida e música. Morrer velho é comemorado e visto como uma dádiva. Outros tantos grupos podem expressar o luto a partir da performance do desespero, com mulheres se debatendo ou até mesmo se jogando ao chão. O certo é que, como bem pontuou o antropólogo francês Marcel Mauss (1921), pelas lágrimas ou por meio de cantorias e danças, existe diante da morte “a expressão obrigatória dos sentimentos”.

O pensador chamou atenção para o fato de que, a despeito do que se possa pensar, as expressões de dor e tristeza em relação à morte não são da ordem do individual, pelo contrário, os ritos funerários e práticas de luto são, antes de tudo, da ordem do coletivo. Ou seja, as encenações e performances frente à morte buscam compartilhamento público sobre a ideia de perda e dor. Assim, Mauss colocou em cena a expressão coletiva diante da morte.

A disciplina antropológica talvez possa nos ajudar a entender o porquê da Serra Leoa, país da África do Oeste que enfrentou a epidemia do vírus do ebola entre os anos de 2014-2016, com pouco menos de 4 mil mortos, ter vivenciado profundo enlutamento nacional enquanto o Brasil, com mais de 400 mil mortos pela pandemia da covid-19, não conseguir produzir o sentimento “obrigatório” e coletivo diante da mortandade que o solapa. Ao contrário, carecemos desse sentimento coletivo de perda mesmo tendo por semana um número de mortes maior do aquele da região africana mais afetada pelo ebola – que compreende a Guiné-Conacri, a Serra Leoa e a Libéria – durante dois a três anos. Enquanto países africanos somaram um total de pouco mais de 11 mil mortos pela epidemia de ebola, em apenas uma semana, o Brasil chegou a mais de 15 mil mortos pela pandemia da covid-19. Se levarmos em conta o cálculo oficial de mortes pelo ebola na Guiné-Conacri nos anos de 2013-2016, por volta de 2.386 pessoas vitimadas fatalmente pelo vírus, seguimos vivendo no Brasil uma epidemia de ebola por dia.

No ano de 2015, quando cheguei pela primeira à Serra Leoa, destino do trabalho de campo do meu doutoramento em Antropologia Social pela USP, que deu origem à tese intitulada O cuidado perigoso: tramas de afeto e risco na Serra Leoa (A epidemia do ebola contada por mulheres, vivas e mortas (2019), encontrei um país ainda sob o signo do vírus. Apesar da grande motivação empreendida na reconstrução do país, a noção coletiva de perda era notória entre os grupos étnicos e comunidades do país. Mesmo não fazendo uso da palavra luto, era comum ouvir das mais variadas pessoas: “O ebola fez uma coisa neste país”. A “coisa” nada mais era do que um estado de enlutamento.

Tendo vivido por nove meses no país, visitei inúmeros cemitérios, hospitais e hospital mortuário. Coveiros se tornaram bons amigos e interlocutores de pesquisa; um deles, Mohamed, responsável pela manutenção das covas e sepulturas dos mortos pelo ebola, percorrendo as várias alas do cemitério destinadas aos falecidos pela epidemia, apontava para os túmulos e dizia: “Esta é a história de como não se morrer!”. Para ele, tanto os cemitérios quanto os coveiros eram agentes essenciais na preservação da memória daqueles dias de dor, doença e múltiplos enterros por dia. Para Mohamed, os cemitérios contavam a história de um tempo de catástrofe que deveria ser evitado no futuro daquele país.

Ao longo do tempo, a população serra-leonense vem acumulando conhecimentos a partir de grandes tragédias sociais que vão desde uma extensa guerra civil, passando por enchentes e desmoronamentos de terra de grandes proporções, incêndios catastróficos e diversas epidemias. De certa forma, os serra-leonenses têm usado seus aprendizados para administrar as contínuas crises no país. Sem dúvida, os coveiros fazem parte dessa produção da história e de conhecimentos para a sobrevivência.

Situação diametralmente oposta à que vivemos hoje no Brasil, onde, a princípio, os coveiros não foram entendidos como profissionais da linha de frente de resposta à pandemia da covid-19, por isso mesmo, não foram incluídos no grupo prioritário para a vacinação. Além disso, em abril de 2020, o presidente brasileiro – Jair Messias Bolsonaro –, quando demandado por um jornalista sobre a então quantidade de mortes, por volta de 2.500, respondeu: “Ô, cara… eu não sou coveiro, tá certo?”. Diferente de Mohamed e de tantos profissionais de sepultamento no Brasil, o presidente brasileiro nunca chegou a compreender a relação direta que existe entre morte, enlutamento e saúde pública.

Para mim, uma antropóloga brasileira, como para Mohamed, um coveiro serra-leonense, a relação é evidente. No entanto, o óbvio nem sempre é de fácil apreensão. Tanto a saúde pública quanto o enlutamento de que se fala aqui são da ordem do coletivo, dessa maneira, se não conseguimos produzir um sentimento comum de perda, como poderíamos entender que todas as pessoas têm o direito à vida, à saúde? Lembrando que, no mês de março de 2020, um grande empresário brasileiro não teve qualquer pudor em dizer publicamente que “o Brasil não pode parar por 5 ou 7 mil mortes”. Naquela época, já era sinalizado que algumas vidas importavam menos do que outras, portanto não seriam dignas de luto. Ali, também era implicitamente dito que a saúde que importa é apenas a individual e do núcleo familiar.

Assim, fez-se uma equação difícil de se resolver no País: como mobilizar a população em direção às boas práticas de contenção e controle do vírus propaladas pelos órgãos e profissionais da saúde, se a morte de outrem não causava dor e estarrecimento à maioria de nós? Como no Brasil não se conseguiu produzir um sentimento de valorização da saúde do coletivo, principalmente daqueles que não fazem parte do círculo imediato das relações afetivas familiares, a responsabilidade pelo outro e seu bem-estar não fizeram sentido para grande parte da população, que seguiu praticando ações nada condizentes à res publica, por exemplo, desrespeitando os protocolos de saúde, furando filas da vacinação, comprando ou até mesmo roubando o imunizante.

Talvez a pergunta-chave desta reflexão seja: como a Serra Leoa conseguiu produzir um sentimento coletivo de perda e o Brasil, com um volume de mortos muito maior, ainda não chegou nem perto disso? Interessante pontuar que, com o desenrolar da pandemia no Brasil, algumas pessoas estarrecidas me disseram, parafraseando a canção do artista Caetano Veloso: “A Serra Leoa é aqui!”. Não, não é! E isso explica muito da atual tragédia social brasileira.

Pode-se dizer que o país africano possui um forte sentimento de nação, este estruturado na gerontocracia e no respeito aos ancestrais. Além disso, entendem a Serra Leoa como uma mãe, chamando-a inclusive pelo nome afetivo de Mama Salone. Portanto, os cidadãos identificam-se como irmãos, filhos de uma mesma nação. Durante a epidemia do ebola, a sociedade serra-leonense se enlutou devido a essa responsabilidade frente ao outro, mesmo que desconhecido. Assim, a ideia de grupo ultrapassava a de indivíduo, o que foi essencial para a construção da importância da vida alheia e também de que todas as vidas são dignas de luto.

Estaria eu sugerindo que o Brasil não tem uma ideia de nação? De forma alguma! No entanto, com a ascensão do governo Bolsonaro, o sentimento brasileiro de nação foi reatualizado reforçando a forma excessiva e violenta da moral branca, masculina, heterocisnormativa, que se fortalece através do sexismo, racismo, homofobia e transfobia. E é exatamente durante uma crise sociossanitária como a da pandemia de covid-19, completamente dependente do trabalho do cuidado, que é em sua maioria feminizado e racializado, que a formação do sentimento de nação brasileira violento e masculinizado pouco pode ajudar. Uma moral conservadora que agride as narrativas e corpos das mulheres que demandam autonomia sobre seus direitos reprodutivos e a legalização do aborto, dizendo-se um Estado pró-vida, mas que nada tem feito em relação à imensa mortalidade materna por conta da covid-19, sem se preocupar com o fato de que possivelmente teremos uma futura geração de órfãos da pandemia.

Portanto, diante deste cenário de calamidade, para além da vacina e do respeito ao distanciamento social, também a produção do enlutamento coletivo seja um método urgente de prevenção, de combate ao coronavírus e valorização da vida. Enlutemo-nos!


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