A professora Ecléa Bosi que conheci

José Geraldo de Paiva é professor aposentado de Psicologia Social do Instituto de Psicologia da USP

Por - Editorias: Artigos
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José Geraldo de Paiva – Foto: Arquivo pessoal
Pegou-me de surpresa o falecimento da professora Ecléa. Nós nos conhecíamos desde o início da década de 1970, e nos aproximamos ainda mais desde o concurso de ingresso que fizemos em 1976, para o Departamento de Psicologia Social e do Trabalho do IP. A notícia de seu falecimento me pareceu simplesmente irreal. De fato, não só no Instituto de Psicologia nos encontrávamos, ambos aposentados, de vez em quando, mas com uma frequência quase cotidiana nos víamos e nos cumprimentávamos no condomínio onde moramos.

Quase todo dia eu a via, de braços com o professor Alfredo, caminhando sem pressa para cima e para baixo e quase sempre em conversa. Eu me admirava como, depois de tantos anos juntos, ambos tinham assunto para conversar dia após dia! Aliás, sua mesa de trabalho, na sala de sua casa, estava bem à frente da mesa de trabalho do professor Alfredo, e quase todo dia eu os via trabalhando! Seu contato conosco não era alimentado apenas por nossa longa convivência no IP, mas também por assuntos mais comezinhos, como onde conseguir um nhoque gostoso ou que tipo de roseira ela queria ter para o seu jardim. Não faltavam assuntos mais sérios, não acadêmicos, como a paróquia mais litúrgica e homilética na vizinhança, ou a Academia Brasileira de Letras, que ela me queria fazer conhecer por dentro, numa próxima ida do professor Alfredo à ABL.

Dela guardo o tom de voz: sempre suave, delicado, acompanhado de sorriso, embora, algumas vezes, veemente. Essa veemência, que não perdia a suavidade, presenciei mais raramente, voltada para temas de importância coletiva ou institucional, e nunca para questões de âmbito privado. Nesses casos, dela posso dizer que se comportava fortiter in re, suaviter in modo. Essas são lembranças (Lembranças de Velhos?) que me acorrem neste momento.

Falei de Lembranças de Velhos, parte do título de sua obra mais impactante, com várias edições e traduções. O resgate da memória viva, em primeiro lugar de pessoas velhas (termo preferido ao eufemismo “idosas”), e simples, recolhia, em seu enredo acadêmico, as contribuições de Halbwachs, Ricoeur, Bartlett, James, Beauvoir, Machado e Proust, organizadas nos parâmetros da psicologia da Gestalt. Tenho em mãos, com a dedicatória manuscrita dela, a primeira edição, de 1979, pela editora T. A. Queiroz.  Na dedicatória, Ecléa declara que o trabalho foi “feito com amor e alegria”.

E outra obra, regada pelos escritos e pelo exemplo de Simone Weil, atesta sua amorosa preocupação com a classe operária e com suas leituras dilaceradas entre a cultura popular e a cultura de massa. A literatura, o bem dizer e o bem escrever sempre me chamaram a atenção no convívio com Ecléa. Velhos Amigos (por que de novo Velhos?) nos delicia com sua linguagem simples, imaginosa e correta. Unindo a boa escrita literária com os temas clássicos da Psicologia Social, deparamo-nos com O Tempo Vivo da Memória, que, entre outros ensaios, nos revive o campo de concentração dos judeus de Terezin, tópico que confirma a preocupação de Ecléa pelos desvalidos e perseguidos. Enfim, traduzir poesia é fazer poesia, e Ecléa nos apresentou a Rosalía de Castro, e nos fez partícipes de Ungaretti e Leopardi. Esta, uma obra de décadas. Nem por isso, contudo, Ecléa sucumbiu à febre das publicações, e manteve-se fiel aos mestres brasileiros de sua formação, que publicavam quando tinham algo a dizer.

Convivendo com Ecléa por cerca de 40 anos, pude observar o apreço em que era tida nas aulas de Psicologia Social ministradas na graduação e na pós-graduação. Nesta última, ouvi mais de uma vez que era um privilégio tê-la como orientadora. Entre mestrado e doutorado, orientou pesquisas quase todas relacionadas com os temas de sua dileção: envelhecimento, trabalho operário, memórias, condição subalterna, enraizamento. Uma vez, no entanto, Ecléa me confidenciou que sentia temor de novata toda vez que começava uma disciplina na pós-graduação…

Não seria justo deixar de lado, nessa rememoração, uma iniciativa notável de Ecléa, que encarnava seu cuidado pelos idosos e seu interesse pela memória. Com o apoio da Universidade, Ecléa concebeu, organizou e coordenou, desde sua implantação em 1994 até 2016, a Universidade Aberta à Terceira Idade, destinada a pessoas com mais de 60 anos, na quase totalidade sem experiência acadêmica. Ela conseguiu, com paciência, insistência e persistência, a colaboração de um número extraordinário de professores dos campi de São Paulo e do interior, dispostos a aceitar, em suas disciplinas, uma porcentagem de alunos nessa condição. Ecléa tinha como meta, além da informação, o convívio entre velhos e jovens, com mútuos benefícios. Se, de um lado, os mais velhos rejuvenescem com o contato com os mais novos, “esses alunos jovens da graduação, dizia, vão conhecer esses velhos, que podem ser pedreiros, domésticas, enfim, muitos trabalhadores manuais. E vão se sentar ao lado deles não como servidores, mas como companheiros de aprendizado”.

Muito poderia acrescentar a essas lembranças. Apresentação mais abrangente que a minha, o leitor poderá encontrar no número especial dedicado a Ecléa,  em Psicologia USP, 2008.

 

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