A política besta-fera

Por Waldenyr Caldas, professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP

 19/10/2021 - Publicado há 1 mês
Waldenyr Caldas – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

 

Pois bem, parece brincadeira, mas lá no hemisfério norte, no continente americano, também temos a sinistra figura do besta-fera, conhecido personagem do folclore luso-brasileiro. Ele dá urros e relinchos tão pavorosos só comparáveis aos gritos de cidadãos torturados nas dependências do DOI-Codi, quando os militares e seu doentio fascínio pelo horror liquidavam vidas, como desavisadamente pisamos em formigas. Trata-se da imagem alegórica de um brutamonte metade homem, metade cavalo, cruel, desumano, insensível e muito semelhante ao lobisomem. Só que ainda mais perigoso. É assim que o fabulário mítico da cultura popular descreve o perfil do besta-fera em nosso folclore. Devemos ter em mente que o conceito de mito é uma narrativa de caráter meramente simbólico-imagético. No universo da política, no entanto, não é difícil encontrar figuras semelhantes à do besta-fera. Por esse motivo, justamente, é que optei por esta imagem alegórica para usá-la como metáfora, como figura de linguagem, e analisar o comportamento de dois políticos em seus respectivos países. Além disso, usarei em determinados momentos nesta narrativa, alguns provérbios populares que vão bem ao encontro do tema deste artigo. São apotegmas da nossa cultura lúdica, e sempre nos ajudam a entender melhor o que queremos verbalizar.

Um conhecido besta-fera, por exemplo, até recentemente era a figura mais poderosa do mundo. Foi presidente dos Estados Unidos. Tentou a reeleição, mas perdeu para seu concorrente que hoje governa aquele país. Em um discurso sobre como seus compatriotas deveriam se defender do coronavírus, sugeriu nada mais, nada menos o seguinte: “se vocês quiserem se livrar do coronavírus devem beber muita água sanitária (para nós, a popular Cândida), tomar injeção de desinfetantes e ficar 15 minutos no sol.” As pessoas que o ouviam começaram a rir considerando uma brincadeira, mas ele em tom muito sério reiterou: “é verdade, precisam fazer isso sim!” Ao ouvir esta confirmação, a pequena aglomeração “se quedou paralisada, pronta pra virar geleia”, como diz Chico Buarque em sua belíssima canção, Geni e o Zeppelin, a mesma que, lamentavelmente, muitas vezes só é lembrada pela frase, “joga bosta na Geni”. Ninguém acreditou no que ouviu. A essa altura, claro, a reação das pessoas foi contestá-lo de diversas formas. Algumas insinuaram insanidade do presidente, outras o ironizavam e outras ainda preferiram protestar indo embora diante de tanta tolice.

Não satisfeito com essa patacoada chucra e desatinada, resolveu atacar os chineses. Para esta rica e chula criatura apologeta do horror, a infame Teoria da Conspiração (talvez ele nem saiba o que é teoria, mas conspiração com certeza sabe) explica as origens do coronavírus: os chineses o criaram em laboratório para arrasar com a economia do ocidente e finalmente transformar o país de Mao Tse Tung e Xi Jinping no mais poderoso do planeta. Só assim, de forma “desonesta”, segundo ele, os chineses poderiam se tornar os senhores soberanos da terra e então subjugar o ocidente. Com esse discurso primário e desarticulado, percebe-se que o besta-fera do norte nada entende de geopolítica e, portanto, é incapaz de fazer uma leitura mais acurada da Nova Ordem Mundial. Quanto despautério concentrado em apenas um cérebro! Os chineses nem precisam fazer nada mais do que estão fazendo. Eles industrializam seus produtos e vendem para o mundo inteiro, inclusive para os Estados Unidos. Se estiverem corretos os dados estatísticos da Comunidade Europeia, só a China nesse momento, é responsável pela produção de nada menos que 22% de todo o consumo de produtos industrializados em todo o mundo. E tem mais: para o senhor compatrício do Pato Donald, essa história de social isolation é coisa de chinês para acabar com a economia do ocidente. Bom, esta é uma truanice e como tal, na mesma proporção desimportante, apenas isso. Não há como levar a sério.

Enfim, em face do que dele já sabemos, só nos resta entender que este senhor é o modelo perfeito do desagregador. Dele, não se conhece sequer, uma única atitude agregadora; não é uma pessoa do bem. Politicamente é apenas sofrível. Ele desconhece o processo histórico e ignora que a hegemonia de um país tem um percurso de início, meio e fim. Grécia, Roma e Inglaterra, apenas para citar alguns, já tiveram seu período hegemônico também. O país do besta-fera ainda é hegemônico, mas vive seu ocaso. Nos próximos vinte ou trinta anos provavelmente, a China estará integrando esse hermético clube de países que tiveram forte liderança mundial. Aliás, esta já é uma realidade no contexto internacional. Estados Unidos e China são protagonistas de uma disputa hegemônica que está apenas começando, mas é irreversível. Minha geração a essa altura, não estará mais por aqui, e em caso contrário, teria que aprender a falar o idioma mandarim, como hoje falamos o inglês. Convenhamos, não é uma tarefa das mais fáceis. Bom, é bem verdade que se ainda estivermos por aqui já estaremos no “bico do corvo”, como diz o famoso provérbio popular. Estou me reportando à geração dos anos sessenta, que em 1968 lutava por liberdade democrática, e enfrentou as fatídicas medidas repressivas do AI-5 de 13 de dezembro deste mesmo ano.

Mas, a última agressão aos chineses, no entanto, se pensarmos melhor, é um grande elogio do besta-fera aos orientais. Ele propagou aos quatro cantos do mundo, que o número de mortes por Coronavírus nesse país é quatro vezes maior do que o divulgado oficialmente. Muito bem, se for verdade, isto significa que a China é quatro vezes mais competente do que pensávamos nós no ocidente. Isto porque, afinal resolveu o problema em tempo recorde (três meses), enquanto seu país, com o novo presidente, que continua sua luta sanitária para eliminar definitivamente essa doença, só agora tem avançado muito nessa direção.

Pois bem, mas seja como for, o fato é que o besta-fera do hemisfério norte não está sozinho. No hemisfério sul, também nas Américas, existe uma figura bem semelhante e adepta das ideias horrorosas, fascistas do besta-fera do norte. Pode-se dizer mesmo, que essa figura é uma espécie de kitsch apequenado do besta-fera do norte e, por esse motivo, não vou me alongar sobre ela para não ser repetitivo. Tem razão o sociólogo Jean Baudrillard quando fala do arremedo. Para ele isto não passaria de um simulacro e, como tal, é pleno de banalidades, de veleidades desarticuladas e vazias que redundam na farsa e na falsidade. Este é exatamente o perfil do besta-fera do sul que habita Pindorama, primeiro nome do Brasil, antes mesmo do seu descobrimento. Nosso presidente é mais uma figura que, sem nenhum conhecimento científico, sem um mínimo de sensatez, se arvora a dizer que o isolamento social é bobagem, só funciona na China. Enfim, vivemos abaixo da linha do Equador, um verdadeiro “inferno astral” como diriam os astrólogos. Agora, no entanto, este “inferno astral” chegou à sua exaustão.

Certamente por isso mesmo, bem recentemente aconteceu um fato político da mais alta importância em Pindorama. O besta-fera do sul, encrenqueiro contumaz como tem demonstrado ser e investido de sua habitual empáfia política, achou que estava lidando com um amador a mais e tentou tripudiar em cima de um ministro do STF – Supremo Tribunal Federal. Depois de fazer ameaças, de praticar diversas atitudes as mais espúrias possíveis, se deu mal e logo arregou. Se considerarmos a magnitude do seu cargo de chefe de Estado, esse comportamento torna-se ainda mais grave. A rigor, o que ele estava querendo mesmo era criar um quiproquó, dando continuidade a um processo de desinteligência entre os três poderes da República, com a mais malévola das intenções: dar o golpe de Estado. Embora não tenha força nem apoio para isso, o fato é que também nunca negou ter esse objetivo.

Acontece que seu adversário (ele prefere chamar de inimigo) não é nenhum neófito, nenhum um rábula. Ao contrário, é um homem do “ramo”, como diz mais um sábio provérbio popular, muito preparado em ciências jurídicas e sociais, e tem mais uma grande diferença entre eles: é honesto e não mente. Aliás, eu poderia até colocar este adjetivo qualificativo no superlativo, mas não é necessário. Pensando bem, quem é honesto é honesto mesmo e estamos conversados, não se fala mais nisso. Não existe meio honesto nem muito honesto. O ministro chamado covardemente de canalha pelo presidente, tem demonstrado honestidade em seus pareceres no Supremo Tribunal Federal. Acontece que peças jurídicas muito bem elaboradas, justas e equilibradas, causam mesmo a ira e o descontrole emocional nos neófitos desinteressados em aprender. Quiçá, pode até ser mesmo motivo inveja. Com seu costumeiro destempero verbal e arrogância crônica, o besta-fera do sul, que não conhece minimamente os princípios basilares da democracia, decidiu em sua cabeça que, enquanto for presidente de Pindorama, não existem os três poderes que constituem o estado democrático de direito. Para ele, os poderes Legislativo e Judiciário não têm importância. Pelo menos é assim que os tem tratado. O que conta na administração do estado é o poder Executivo e pronto, fato consumado!

Em seu pronunciamento no dia 7 de setembro de 2021, ele deixou uma perigosa ameaça no ar, dizendo publicamente que não iria obedecer às decisões do poder Judiciário e passaria a fazer o que considerava certo sem dar importância às leis. Dada a gravidade de suas palavras e certamente aconselhado por seus assessores (finalmente resolveu ouvir alguém), divulgou uma carta auxiliado pelo ex-presidente Michel Temer, tentando amenizar seu discurso agressivo e desrespeitoso com a justiça do seu país. No médio e longo prazo nada mudará em seu comportamento de chefe de estado. Até porque, sabemos que sua essência é de uma pessoa autoritária, de um déspota não esclarecido incorrigível.

Ora, ora, senhor presidente, não seja tolo, não queira reeditar em Pindorama o que italianos e alemães viveram durante as décadas de 1920 a 1940. Este país não aceita mais o totalitarismo, as ideologias autoritárias, a violência, o racismo, o perigoso nacionalismo exacerbado e a apologia ao ódio tão propagados em seu governo. Não há mais espaço para aventureiros, muito menos para políticos despreparados e oportunistas. Não queremos e não aceitaremos que nossa democracia se converta em mais um simulacro do seu governo. Vamos à práxis política, isto sim, mas dentro das quatro linhas da Constituição. Não as ultrapasse presidente, como o senhor disse que faria nos ameaçando se não o obedecêssemos. A democracia se constrói com diálogo, não com ameaças, não com balas, algo tão familiar ao seu governo. Pindorama nada tem a ver com a “Nau dos Insensatos”, memorável obra de Sebastian Brant do século XV e muito menos com a “Alegoria do Navio”, uma metáfora político-filosófica tão bem construída por Sócrates, e narrada na obra A República, de Platão, onde o condutor do navio desconhece completamente o ofício de navegar. O senhor conhece o ofício de governar? Aliás, esta é uma pergunta que a voz dos esquecidos por seu governo gostaria de lhe fazer, mas não tem nenhuma chance. Afinal, as eleições ainda estão suficientemente distantes para que o senhor inicie seu costumeiro falatório, sua logomaquia demagógica para se aproximar novamente do povo apenas por interesses eleitoreiros.

Independentemente das eleições em 2022, a sociedade brasileira está vivamente interessada em recuperar a paz perdida em seu governo, para continuar o tão desejado projeto político de defender e respeitar as instituições democráticas. Iremos consolidar a democracia, ainda que isto signifique abreviar o seu mandato como nosso presidente. Não é isso o que desejamos, acredite-nos, mas ouça a voz do povo. Desejamos, isto sim, que as instituições democráticas sejam respeitadas pelo chefe do poder Executivo, o que não tem acontecido em seu governo. Desrespeitá-las, como tem ocorrido sistematicamente, é enfraquecer, é debilitar a própria democracia já tão combalida em nosso país nesse momento. Portanto, não somos passageiros da “Nau dos Insensatos”, não somos aqueles passageiros atônitos e desnorteados tão bem narrados por Brant. Ao contrário, desejamos saber precisamente para onde estamos indo. Não somos personagens da “Alegoria do Navio” e sabemos muito bem a direção que queremos seguir e onde queremos chegar. Temos um projeto político que envolve, sobretudo, a justiça social e a consolidação da democracia em nosso país, mas já sabemos que não contamos com sua ajuda para realizá-lo.

Durante a sua campanha eleitoral havia claramente a promessa de combater a corrupção, o desemprego, o subemprego, a violência, fortalecer e consolidar a economia, entre outras providências que um chefe de estado tem de tomar por dever de ofício. Pois bem, nada disso até agora aconteceu e não mais acontecerá em seu governo. De 2019 para cá, o país tem piorado consideravelmente. O povo tem se ressentido muito disso, especialmente quando vai às compras de alimentos, mas não só. O desemprego aumentou e hoje temos, de acordo com dados do IBGE em julho de 2021, nada menos que 14.8 milhões de desempregados, 14,6% da nossa população. Isto significa duas vezes a população do Paraguai, hoje com 7.3 milhões, mas não é só. De acordo com o Cadastro Único (Cad’Único) do próprio governo federal, em sua gestão como presidente, já tem mais dois milhões de famílias vivendo em grande penúria, em estado de extrema pobreza tentando sobreviver com um valor médio de R$89,00 mensais. E usar a Pandemia como argumento para eximir-se de responsabilidade desta situação não vale, não resgata a dignidade dessas famílias, nem as livra da humilhação diária por que passam.

O combate à corrupção, ao contrário da sua promessa inexiste. Não houve e não há nenhuma providência para extirpar este mal. Para aumentar sim. Todos os dias, os veículos de comunicação noticiam novos casos de corrupção em Pindorama e mesmo assim, nosso presidente ignorou tudo isso, e insistiu em mentir durante seu pronunciamento por ocasião da Assembleia Geral da ONU – Organização das Nações Unidas, realizadas em 21 de setembro de 2021. Ele disse que seu governo havia acabado com a corrupção em nosso país. Isso não é verdade. Investido legalmente de sua autoridade de chefe de Estado, o presidente negou a existência de corrupção que grassa progressivamente em Pindorama. A CPI – Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid, tem provas irrefutáveis do abuso e da gatunagem com o erário, sem que nada tenha sido feito por parte do governo para evitar tal procedimento e levar os punguistas a julgamento. A inescrupulosidade continua. Mas continua porque seu governo, embora tenha prometido descarrilar esse funesto “trem da alegria”, não criou nenhum mecanismo para fazê-lo. A Segurança converteu-se em Insegurança. O decreto nº10.629 de 12 de fevereiro de 2021 criado em seu governo, permite que todos os brasileiros usem armas de fogo, um descabido e notório estímulo à violência indiscriminada, tanto quanto o seu gesto de simbolizar um revólver erguendo os dedos polegar e indicador para acertar o alvo que quer matar. Seus filhos, também políticos, fazem o mesmo. Que que horror presidente!

E agora, apenas para encerrar esta lista de desfaçatezes com o povo de Pindorama, quero comentar sobre a pandemia que ainda nos assola a todos. O chefe do poder Executivo usou de todos os recursos possíveis para boicotar a vacinação dos brasileiros. Esta atitude causou perplexidade dentro e fora do país. As pessoas ficavam e ficam se perguntando até agora: como pode um presidente boicotar a vacinação de seu próprio povo? Não bastasse isso, ele desmereceu e desrespeitou a pesquisa científica de todo o mundo, zombando e fazendo gracejos alambicados e arrogantes contra a ciência. Nos enganava dizendo que logo iria comprar milhões de vacinas dos Estados Unidos e da Índia.

Não comprou no momento certo e só o fez tardiamente, depois de muita pressão dos media e da oposição ao seu governo, quando já morriam centenas e até milhares de pessoas diariamente. Quanto desprezo pelo povo que o elegeu, quanta iniquidade! Se valia do ministro da Saúde todo estrelado para mentir a milhões de brasileiros, debochou publicamente do laboratório chinês Sinovac, fabricante da vacina CoronaVac. Publicamente também, receitou o medicamento Cloroquina, eficiente para malária, mas não para combater o Coronavirus. Só os impostores deixam a ética de lado para ludibriar a boa-fé das pessoas aflitas com a incerteza e o medo da doença. Ele não é médico e não poderia receitar ou indicar qualquer medicamento.

É quase inacreditável, mas o presidente foi e continua sendo contra as pesquisas científicas que têm salvado milhões de vidas em todo o mundo e em nosso país. Não por acaso, todas as suas atitudes, desde que tomou posse em 2019, são fortemente repudiadas no plano internacional maculando a imagem do país e, por extensão do seu povo, que nada têm a ver com sua incompetência para exercer o cargo de chefe do poder Executivo do país. Todos nós esperamos que nosso próximo presidente seja agregador, que tenha a noção exata da sua responsabilidade, mas também que saiba administrar conflitos e não os criar por questiúnculas, por coisas comezinhas, enfim, que não seja encrenqueiro e criador de discórdia a todo momento. Em outros termos, o que desejamos é ter um presidente inteligente e não ciclotímico. Isso está nos fazendo muita falta. Pois é, vamos ver se Deus é brasileiro mesmo, como diz o provérbio popular. Se for estaremos livres em 2022 de um presidente que nos mente, autoritário ao extremo e que só olha para o seu próprio umbigo. Quer nocautear o país, mas não vamos deixar. Os mil dias de sua gestão na presidência da República, parecem mais uma velha e enferrujada locomotiva abandonada no final da ferrovia. Tem razão Caetano Veloso quando em sua bela canção faz uma sincera declaração de amor à cidade de São Paulo, intitulada “Sampa”: “… é que Narciso acha feio o que não é espelho …”. O besta-fera de Pindorama é assim, narcisista.


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