A Odisseia da Chape

Katia Rubio – EEFE

Por - Editorias: Artigos
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Katia Rubio é professora associada da Escola de Educação Física e Esportes (EEFE-USP) e membro da Academia Olímpica Brasileira - Foto: Marcos Santos - USP/Imagens
Katia Rubio é professora associada da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE-USP) e membro da Academia Olímpica Brasileira – Foto: Marcos Santos – USP/Imagens
Não tenho dúvidas de que o esporte funciona como uma metáfora da vida. As mazelas e dramas humanos estão presentes em todas as etapas da trajetória de um atleta: a iniciação cheia de nãos, a busca por um lugar ao sol, a missão impossível de disputar um campeonato nacional e, mais ainda, chegar à final de um torneio internacional.

Cenas de um roteiro de filme hollywoodiano, a trajetória do Chapecoense certamente inspiraria diretores da sétima, e de outras artes, por tudo o que esse clube representou na trágica condição do futebol brasileiro contemporâneo. Preferiu escapar ao tradicional modelo “pires na mão”, para trilhar um caminho próprio, bem ao gosto catarinense, de fazer com os próprios recursos.

Deixou o dinheiro público onde ele deve ficar e buscou um modelo de gestão que valorizou os próprios recursos, humanos e materiais. Talvez aí estivesse a relação de identificação e amor pelo time criado por Chapecó e região. A Chape é o modelo de time que se deseja para o futebol, para um país. Logo, na final da Copa Sul-Americana #SomosTodosChape.

Fazer o futebol nessas condições reforça o modelo heroico tão do esporte: o atleta, embora humano, se imortaliza em seus feitos, que podem ser pelas habilidades físicas ou pela astúcia. Se isso se soma a um grupo gestor heroico que foge do modelo corrupto e investe na transparência e na ética, pouco comum a essa modalidade, não há como resistir. É paixão à primeira vista.

Cenas de um roteiro de filme hollywoodiano, a trajetória do Chapecoense certamente inspiraria diretores da sétima, e de outras artes, por tudo o que esse clube representou na trágica condição do futebol brasileiro contemporâneo. Preferiu escapar ao tradicional modelo “pires na mão”, para trilhar um caminho próprio, bem ao gosto catarinense, de fazer com os próprios recursos.

E lá se foi a Chape, rumo à Colômbia, se imortalizar na conquista de seu primeiro título internacional. Junto com o time da bola, ia o time de gestores com a dignidade própria de quem pode cruzar a fronteira de seu país sem temer os agentes internacionais. Levava também os jornalistas que cobririam esse feito histórico e mais a torcida de quase 200 milhões de brasileiros ainda engasgados com um 7 x 1 inesquecível. Carregava consigo a esperança de afirmar a possibilidade de fazer um esporte diferente nesse país, que já foi do futebol, e também a certeza de que ganhar e perder fazem parte do jogo.

A serenidade de seus jogadores mostrou isso nas entrevistas antes do embarque. Nenhum corte de cabelo para ser copiado por meninos no dia seguinte ao jogo. Nem diamantes, anéis ou correntes que denotassem salários milionários. Tampouco sorrisos ensaiados diante do espelho, na presença de agentes ou familiares, com o firme propósito de já cavar contratos nababescos imediatamente após a façanha histórica. Pelo contrário. Os registros apontam serenidade, um desejo verdadeiro de conquista no campo, uma humildade brejeira, típica dos interiores do Brasil, que não deve ser confundida com idiotice.

Ah, essa Chape. Que grande exemplo para os tantos futebóis que se praticam por esse mundo afora.

Mas parece que os deuses andam mesmo de mal com o Brasil neste ano de 2016. Será que o povo desta Terra de Santa Cruz andou abusando da paciência divina com tanto desmando e safadeza? Pensei que depois de chamarem a Emily para o futebol feminino essas dívidas já começassem a ser pagas. Mas, pelo visto, não.

Será que, como na Odisseia, os deuses se deram conta de que ofereceram o melhor dos touros e entregaram outro?

Inacreditável!!!

Ah, essa Chape. Que grande exemplo para os tantos futebóis que se praticam por esse mundo afora.

Ulisses, para voltar a Ítaca, precisou de muitos anos, e nesse trajeto perdeu todos os soldados que venceram a Guerra de Troia. Fora isso teve que enfrentar o canto das sereias, a ira dos ciclopes e as artimanhas de feiticeiras. Ao chegar, encontrou sua casa cheia de pretendentes que desejavam desposar sua amada Penélope e, como se não bastasse, teve ainda que provar que era ele mesmo, mas ainda assim conseguiu resgatar o que era seu.

A Chapecoense voltará para casa sim, não depois de tantos anos, mas também sem parte de seus guerreiros. Não tombaram pelas ilhas do Mediterrâneo, como os de Ulisses, mas na mata amazônica que cerca Medellín. Não puderam chegar a fazer e ganhar a guerra, mas, como heróis, se consagraram pelos feitos que realizaram até aquele momento. Deixaram em todos os cantos deste país uma comoção sem fim diante da fatalidade que cerca os fins inesperados. Com eles ficou o sonho de uma disputa não realizada, o desejo de ver Sansão derrotando Golias. Quantos mitos para uma só cena.

A queda do avião e a interrupção da trajetória da Chapecoense representam a maior tragédia do esporte brasileiro. Pelas vidas que se foram, pela não materialização de um projeto que contava com a torcida de todo o País, enfim, pela possibilidade do vir a ser de um futebol que não tem futuro.

E, diferente das partidas nas quais existe a possibilidade de prorrogação, a vida impõe o fim, mesmo sem que o juiz soe o apito e indique o centro do gramado.

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