A nova geração vai ter espaço nas ciências?

Por Gabriel Mantelli, professor da Universidade São Judas e graduado em Direito pela USP, e Julia de Moraes Almeida, mestranda em Criminologia na USP

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Gabriel Mantelli – Foto: Arquivo pessoal

 

Julia de Moraes Almeida – Foto: Arquivo pessoal

É extremamente apreensiva a situação dos pesquisadores e das pesquisadoras no Brasil. A promoção e incentivo do desenvolvimento da ciência, pesquisa, inovação, capacitação científica e tecnológica, muito embora estejam previstos constitucionalmente, vêm sofrendo uma série de percalços, o que reflete diretamente na escassez de oportunidades e incentivos para cientistas e pesquisadores no País.

O Estado está sendo destruído e cada vez mais cooptado por interesses privados antissociais. No último ano, o governo federal demonstrou posicionamentos alinhados ao anticientificismo, realizou um desmantelamento da ciência brasileira e propagou anúncios de cortes na educação e na ciência. Como consequência desse descaso institucional, as posições de pesquisa e docência se tornam cada vez mais raras e competitivas. Há toda uma geração de potenciais pesquisadores e cientistas na fila de espera. Como vai ser?

A verdade é que nunca existiu espaço para todos (e todas) na produção científica. Temos, inclusive, uma dívida com setores da população historicamente marginalizados. O acesso à universidade colaborou para a democratização científica, mas, agora, as novas gerações de pesquisadores não têm para onde ir. Quem pode, tem currículo e senioridade, se arrisca em posições no exterior. Quem não pode, ou é muito jovem e está fora de determinados círculos por questões sociais e raciais, precisa se submeter a um cenário de precarização, contratos frágeis e realização de trabalhos fora de sua área de especialidade.

De fato, a educação e a ciência não estão no topo da pauta da agenda política atual. Temos um quadro de desmonte institucional, o que, invariavelmente, gera a obsolescência dos espaços de ensino e pesquisa. Em termos de trajetória acadêmica, a política que vemos se desenhar está sem rumo. Como consequência do desinteresse estatal e da construção de um imaginário coletivo anticientificista, a ideia de “carreira acadêmica” vem perdendo a pouca força que tinha no Brasil.

É importante equacionar as críticas às deficiências estatais e acrescentar o vazio que os centros universitários privados e a sociedade civil deixam de preencher. Apesar de o Brasil possuir instituições privadas e organizações que atuam no fomento do desenvolvimento científico, como é o caso da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e do recente Instituto Serrapilheira, o espaço que esses tipos de entidades ocupam no País não se iguala aos seus pares estrangeiros. Assim, com raras exceções, universidades particulares e ONGs não investem em ensino, pesquisa e extensão e, quando o fazem, geralmente se dão em projetos que não têm rumo definido, dando vazão a núcleos de pesquisa pontuais e com data de extinção certa.

Vale ressaltar também que, por mais que buscar uma maior autonomia para a pesquisa seja um caminho interessante, não se pode deixar de lado as disputas político-institucionais do aparelho estatal, haja vista a necessidade de se ampliar políticas públicas voltadas ao tripé ensino-pesquisa-extensão.

Aliás, ao que parece, esse é também um assunto que não irá afligir a maioria de nossos orientadores e orientadoras. Esses, por já possuírem lugar cativo no meio acadêmico, poderão se abster dos esforços para a proposição de soluções em meio a este cenário desanimador. Realisticamente, o que se pode depreender da atual conjuntura é que, mais do que nunca, a situação não vai melhorar, muito menos para a nova geração que sai dos programas de pós-graduação ambicionando dar continuidade aos trabalhos e às agendas de pesquisa que desenvolvem.

Os esforços estarão concentrados nas mãos de novas gerações, como as que fazemos parte, que, apesar de não contarem com senioridade e experiência, precisarão lidar com esse ônus. É certo que será preciso ter ainda mais fôlego que as gerações passadas, caso contrário, caminharemos para um cenário cada vez mais saturado, competitivo e tóxico.

É imprescindível acreditar no protagonismo e fortalecimento de novas redes e soluções de cooperação para que pesquisadores e pesquisadoras possam trabalhar com suas especialidades, fazendo o que têm paixão e contribuindo para o avanço das ciências no Brasil. Novas plataformas, arenas e redes de pesquisa que não dependam exclusivamente do financiamento estatal ou do investimento da iniciativa privada devem florescer.

Criação de modelos de cooperativas de pesquisa, negócios sociais, arquiteturas institucionais disruptivas, captação de recursos com a sociedade civil e entidades internacionais, democratização e oxigenação dos espaços são todas alternativas a serem consideradas. Entendendo nosso contexto de retrocesso político, com as já conhecidas limitações estatais, do mercado e da sociedade civil, podemos avançar para novas possibilidades e espaços.

Para o investimento em ciência e tecnologia ser eficaz, é preciso articular ensino básico, superior e pós-graduação, dentro e fora dos aparelhos institucionais tradicionais. A educação não pode ser somente um título conseguido a duras penas e privilégios. A ciência não pode ser apenas um instrumento utilizado para qualificação técnico-profissional. Precisamos superar a imagem desse investigador acadêmico que é um sujeito isolado e com dificuldade de se articular em redes e produzir conhecimento em equipe.

Nossa geração terá espaço nas ciências? O cenário é ruim e parece desanimador, mas nós, jovens, temos que manter a energia, criar novos espaços e fortalecer os já existentes de formas inovadoras. Repensar estruturas, articular e fazer barulho: a gente tem que estar pronto para tudo isso.

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