A fragilidade e o peso dos papéis

Por Hugo Segawa, professor titular da Faculdade e Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP e ex-diretor do Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP

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Hugo Segawa – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens
Corre na imprensa e nas redes sociais o lamento de que o acervo técnico e artístico do mais importante arquiteto brasileiro em atividade, Paulo Mendes da Rocha, fará parte de uma instituição sediada em Portugal. Se a referida instituição realmente cumprir a promessa de disponibilizar tudo (grifo meu) on-line, a questão de se necessitar um passaporte para consultar o acervo se abranda. A digitalização é o futuro, no âmbito da preservação de originais e disponibilização de documentos. A questão em breve é cobrar tudo que está sendo prometido.

Na expectativa que a Comunidade Europeia permita aos brasileiros circularem por lá (o que, momentaneamente, não é o caso), vale observar o outro lado de uma das tantas questões: quem vai usar o passaporte tem uma motivação especial, daquelas que movem estudos aprofundados. É completamente distinto analisarmos a pintura A Negra, de Tarsila do Amaral, na galeria do MAC-USP, diante de uma reprodução digital (por melhor que seja a resolução) em um monitor full HD. Recordo-me do enlevamento de uma curadora do Art Institute of Chicago enquanto esquadrinhava a peça de Tarsila, quando a recebi no prédio do Ibirapuera.

A vivência, esse contato com a matéria, é provocadora. Raciocínio semelhante vale para os desenhos de Paulo Mendes da Rocha. Assim como os croquis de Tarsila nos dizem algo, os do arquiteto podem dizer até mais. É quando a materialidade inspira a alma – mesmo um pedaço de papel vegetal, um fetiche inexplicável. O que já se passa entre os veteranos estudiosos, é preciso animar naqueles que nos seguirão. Jovens, que nem todos terão bolsas ou apoios para custearem despesas em euro.

É possível que os leitores estranhem a repercussão disso que se lamenta como uma grande perda: “problema dos arquitetos”, em um subentendimento. Vale a pena apontar para um enquadramento maior.

Não existe no Brasil algo que se possa chamar de “Museu da Arquitetura” (e na maioria das vezes, Design), como o Museum of Finnish Architecture, em Helsinki, o Deutsches Architektur Museum (DAM), em Frankfurt, ou o NAI (Netherlands Architecture Institute), em Roterdã, que apregoa ser “mais que um museu: é um arquivo, museu, biblioteca e pódio cultural, tudo em um espaço”. Não é do hábito brasileiro considerar a Arquitetura e o Urbanismo como artefatos museais ou arquivísticos.

Nem é preciso que existam instituições só direcionadas para a Arquitetura e Design. O MoMA de Nova York lida com tudo, mas tem um departamento específico e seu acervo de desenhos, maquetes e objetos – um dos mais impressionantes do mundo –, participa de concorridas exibições temporárias; o Moderna Museet de Estocolmo (no esplêndido edifício de Rafael Moneo) regularmente usa um dos seus pavilhões para mostras de Arquitetura e Design.

Também não são precisos departamentos específicos nos museus. A Avery Library, biblioteca da escola de Arquitetura da Columbia University, em Nova York, e o Environmental Design Archives do College of Environmental Design da University of California, Berkeley, são dois exemplos de bibliotecas/arquivos universitários que processam e disponibilizam desenhos de arquitetura. Sem ter um metro quadrado em suas sedes para expô-los. São primos, na América Latina, os arquivos/bibliotecas das escolas de Arquitetura da Universidad Católica de Chile, em Santiago, da Universidad Nacional Autónoma de México, da Universidade de São Paulo e da Universidade Federal do Rio de Janeiro – não por acaso, entre as universidades latino-americanas de ponta nos chamados rankings internacionais.

É falsa a premissa de uma manifestação que apregoa “que A FAU tem uma coisa ou outra sobre a biblioteca, mas não um acervo de um escritório” e que a instituição em Matosinhos é “um tipo museológico muito caprichoso que não faz competição alguma com a FAU”. Não se trata de “competição”: é uma insinuação desqualificadora da instituição brasileira.

A universidade brasileira sofre com o esvaziamento moral e financeiro, cujo óbvio impacto é o prejuízo nas suas atribuições fundamentais no ensino, na pesquisa e na extensão. Mencionou-se que as instalações da FAU são precárias. A afirmação, que merece filtragens, permite recordar se isso não é decorrência de processos de sucateamento. Mas, apesar dessa denunciada “precariedade”, a FAU organizou uma parceria pioneira com o Instituto Cultural Itaú para a Ocupação Rino Levi, inaugurada pouco antes do início do confinamento social provocado pela pandemia. E que só não foi mais proveitosa para o grande público e para os milhares de estudantes que visitam aquele espaço cultural na Avenida Paulista pela razão que nos confina em nossos lares.

Antes dessa parceria, a biblioteca da FAU-USP emprestou desenhos de seu acervo para o mesmo Itaú Cultural (exposições Warchavchik, boa parte da mostra sobre Vilanova Artigas) e também, entre outros empréstimos, para o Instituto Moreira Salles, Masp, Museu da Casa Brasileira e para o MoMA de New York, para a exposição Latin American in Construction, em 2015. Ali, a Católica de Chile, a UNAM, a UFRJ e a USP contribuíram emprestando originais de seus acervos. É também uma função educacional que alcança para além do público universitário e para além das nossas fronteiras. É pouco? Poderia ser muito mais se houvesse condições para tanto. A questão não é a precária existência dos nossos arquivos, bibliotecas, museus e instalações; é a sua indigência. Por enquanto, uma postura de resistência institucional, apesar das críticas.

A parceria com o Itaú Cultural foi um esforço bem-sucedido de integrar uma instituição universitária com a iniciativa privada, viabilizando caminhos antes não percorridos. É uma saída, mas não a única. Aportes internacionais já chegaram à FAU, por seu prestígio. Depende do que a escola pode oferecer nos acordos a firmar. Se a escola tem algo que interessa para o ensino e à pesquisa internacional, bem que poderíamos enriquecer mais esse patrimônio incorporando acervos importantes também.

A única instituição brasileira que pode se equiparar a um espaço voltado para mostras de Arquitetura e Design é o Museu da Casa Brasileira, em São Paulo, parte do sistema estadual de museus. Infelizmente notícias dão conta que a instituição será despejada de sua sede.

Acervos, no sistema internacional de museus, também são formas de autossustentação. Os empréstimos de obras geram recursos para seus guardiões. Afora eventuais acordos que isentem royalties ou outras tarifas agregadas, circular peças de acervos de museus implica valiosos seguros, a que algumas poucas seguradoras no mundo se habilitam. A já mencionada exposição de arquitetura latino-americana do MoMA se inviabilizou de se apresentar fora de Nova York pelos altíssimos custos de traslado de desenhos originais que compuseram parte significativa do encanto da mostra. É provável que, nesses termos, dificilmente veremos uma exposição de originais de Paulo Mendes da Rocha no Brasil sem um magnânimo patrocinador.

A expatriação de acervos não é novidade. O arquiteto hispano-mexicano Félix Candela (merecedor de um livro pela popular Taschen) tem seu acervo sob a guarda na Avery Library, na Columbia University. Os portugueses sabem o que é expatriar acervos: o Canadian Centre of Architecture, em Montreal, detém e disponibiliza o fundo Álvaro Siza, parte do acervo cedido pelo principal arquiteto vivo de Portugal.

Sabe-se que desde 1994 o acervo do mais reconhecido arquiteto mexicano do século 20, Luís Barragán (como Siza e Mendes da Rocha, detentor do prêmio Pritzker, o de 1980), está sob a guarda do Vitra Museum, Suíça. Informações rastreadas por internet dão conta que o acesso a ele está interditado há anos. Uma rápida verificação permite constatar que há quase 20 anos não há exposições dedicadas ao grande arquiteto mexicano, e as publicações sobre ele escasseiam. Excelentes livros foram realizados por autores mexicanos no início da fama mundial de Barragán. Os que vemos hoje, nos catálogos virtuais, são de não mexicanos, editados já há algum tempo.

As primeiras publicações sobre Paulo Mendes da Rocha foram feitas no exterior. Um livro espanhol, de 1996, colocou Mendes da Rocha na mira da mídia e dos prêmios internacionais, como o Mies van der Rohe para a América Latina no ano 2000, pelo projeto da Pinacoteca do Estado. Esta premiação permitiu que os originais de um livro da suíça Annette Spiro fossem ressuscitados por uma editora de Zurique, que o publicou em 2002. Obviamente não são apenas esses livros que fizeram Paulo Mendes da Rocha merecer o prêmio Pritzker em 2006. A repercussão internacional do arquiteto brasileiro no início do milênio, em uma época em que ainda não existiam redes sociais, é tributária de críticos e estudiosos estrangeiros que olharam o Brasil também com a ajuda de filtros e intermediários brasileiros. Existem brasilianistas em Arquitetura.

O acervo Paulo Mendes da Rocha não é o primeiro brasileiro a aquecer os arquivos de Matosinhos. Os desenhos do arquiteto baiano Francisco de Assis Reis também se foram para Portugal. Assis, como é conhecido no meio arquitetônico, é o principal arquiteto moderno da Bahia. A ruidosa expatriação do acervo Mendes da Rocha junta-se à discreta expatriação do acervo de Assis Reis. Somente depois da partida dos desenhos de Assis, temos a promessa de um livro sobre o baiano, que desconhecemos por nossa incapacidade de apreciar o que está ao nosso lado.

Incapacidade inconsciente ou consciente. O episódio do acervo Paulo Mendes da Rocha e de Francisco de Assis Reis nos alertam – não é a primeira, nem será a última, nem é tipicamente brasileira – a respeito do que queremos ou podemos com o resguardo de uma tão delicada memória, como os frágeis papéis que seguem para Matosinhos. Esses papéis são a metáfora da nossa condição cultural. Fragilidades que se anunciam há muito, porque, para quem conhece, há vários outros acervos que interessaram aos grandes centros internacionais de arquitetura, e que estão precariamente preservados, talvez a poucos passos de uma expatriação salvadora. E mesmo que nem todos papéis se tornem commodities culturais para exportação, são acervos que deveriam compor o mosaico de uma paisagem cultural brasileira, pelo viés da arquitetura e do urbanismo. Não se trata de um problema apenas dos arquitetos.

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