A experiência Ai Weiwei

Alecsandra Matias de Oliveira é crítica de artes plásticas e especialista em Cooperação e Extensão Universitária do Museu de Arte Contemporânea (MAC-USP)

Por - Editorias: Artigos - URL Curta: jornal.usp.br/?p=216352
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Alecsandra M. de Oliveira – Foto: Arquivo pessoal

O que conta não é quem você é, mas quem acreditam que você é

Andy Warhol

 

No vão do Masp, às vésperas da abertura da mostra História da Sexualidade, ameaçada de represálias pelo MBL, entre as centenas de pessoas ali reunidas no ato contra a censura, surge Ai Weiwei (Pequim, 1957), artista e ativista, tido como uma das pessoas mais influentes na cena contemporânea. Em instantes diversas selfies de manifestantes com o artista espalharam-se pelas redes sociais, despertando em alguns o orgulho de ter sua causa apoiada pela celebridade e em outros a dúvida: o que, verdadeiramente, significa essa presença?

Polêmico e irreverente, ele costuma usar os registros e as aparições midiáticas como estratégia para atrair atenções. Alguns críticos mais ácidos acusam sua obra de mera panfletagem; outros veem sua arte como propaganda norte-americana contra o regime chinês e, outros, ainda, entendem que o artista transforma constantemente sua vida em performance. Já Weiwei, em diversas entrevistas, afirma que “a arte é mais política do que qualquer movimento político”, sendo célebre também sua máxima: “Não estou interessado em uma arte só para alguns, se a arte não é entendida pela maioria, não é arte; às vezes me dizem para tornar meu trabalho mais artístico”.

O “mais artístico” seria mais hermético ou menos político? Fica aí a questão. De fato, o jogo existente entre mídia, ativismo e arte, imerso nos trabalhos de Ai Weiwei, coloca críticos e espectadores em xeque. Nas suas obras, as fronteiras do mundo não se limitam a oriente e ocidente – as “contaminações” estão em todas elas. As clivagens promovidas pelo artista-ativista (filho de um poeta perseguido pelo regime de Mao Tsé-Tung) misturam os códigos geopolíticos e fornecem subsídios para a leitura de sua identidade forjada entre a cultura chinesa e a assimilada nos EUA e na Alemanha (lugares onde o artista reside e tem ateliê).

No vão do Masp, às vésperas da abertura da mostra História da Sexualidade, ameaçada de represálias pelo MBL, entre as centenas de pessoas ali reunidas no ato contra a censura, surge Ai Weiwei (Pequim, 1957), artista e ativista, tido como uma das pessoas mais influentes na cena contemporânea.

Desde meados de 1990, quando Weiwei quebrou uma urna de 2 mil anos da Dinastia Han, na performance Dropping a Han Dynasty Urn, 1995, e, em outra produção artística, ele pintou o logotipo da Coca-Cola (Coca-Cola Vase, 2007), suas obras tornaram-se ícones do questionamento às tradições culturais e, simultaneamente, sua forma de resistência ao regime opressor chinês. Em 2008, ele investigou e divulgou o nome de mais de 5 mil crianças mortas no terremoto que destruiu diversas escolas na província de Sichuan, dando origem ao trabalho Straight, 2008-2012. Durante esse processo de investigação, o artista foi gravemente golpeado na cabeça por policiais chineses. Ele documentou a operação de emergência, a ressonância magnética e a hemorragia. A denúncia sobre essa agressão ressoou na mídia planetária. Ele acabou preso em 2011 e fez de sua prisão uma performance acompanhada por milhões de pessoas via redes sociais.

Ai Weiwei, artista e ativista dissidente chinês, faz exposição na Oca, no Ibirapuera – Foto: Hafenbar via Wikimedia Commons / CC BY-SA 2.0 de

E cerca de um ano depois da aparição no Masp, está aberta a exposição Raiz, que ocupa a Oca no Parque Ibirapuera, com curadoria de Marcello Dantas. O título da mostra problematiza a ideia de origem e identidade. Os temas presentes na mostra tratam dos refugiados, da liberdade de expressão e do rompimento com velhos padrões – nessa toada, o discurso expositivo pode aumentar ou dirimir as resistências.

Considerada uma das maiores mostras do artista-ativista no mundo, Raiz reúne 70 obras, desde trabalhos icônicos a inéditos sugeridos por suas viagens ao Brasil. Entre as obras mais conhecidas, além das já apresentadas aqui, estão Sunflower Seeds, 2010, e Forever Bicycles, 2014 – nessas e em outras, os conceitos de acumulação e de seriação estão densamente representados. Para as obras de inspiração brasileira, foram cinco viagens em dois anos. Weiwei estava interessado em conhecer nossa terra e cultura: a floresta, as escolas de samba, o futebol e até as manifestações políticas (vejamos o ato no Masp como laboratório, então).

Em 2008, ele investigou e divulgou o nome de mais de 5 mil crianças mortas no terremoto que destruiu diversas escolas na província de Sichuan, dando origem ao trabalho Straight, 2008-2012. Durante esse processo de investigação, o artista foi gravemente golpeado na cabeça por policiais chineses.

Entre as obras criadas, a partir da interação com o Brasil, destaca-se F.O.D.A, múltiplo composto com moldes em porcelana de quatro elementos nacionais: a fruta-do-conde, a ostra, o dendê e o abacaxi. De modo semelhante a outros trabalhos seus, as peças foram produzidas a partir da comunidade local, no caso em São Caetano do Sul/SP. Em 200 Ex-Votos, o artista contou com o trabalho das comunidades de Juazeiro do Norte (CE) para o entalhe das pequenas esculturas de madeira.

200 Ex-Votos, obra de Ai Weiwei, faz parte da exposição Raiz, na Oca, Ibirapuera – Foto: Divulgação via Parque Ibirapuera Conservação

Raiz é um conjunto de esculturas que tratam das raízes de um pequi-vinagreiro, árvore praticamente extinta no Brasil e que pode viver por até 1.200 anos – essas raízes nos lembram as obras de Frans Krajcberg e de Hugo França, mas, por incrível que pareça, Weiwei não comenta essas referências em momento algum. À primeira vista, parece-nos que Raiz seria o mote da exposição. Mas não é! A ideia do título da mostra, além de incluir essas esculturas, nasce de um dos poemas de seu pai e está ligada à noção de origem e de vasos comunicantes. Em outra instalação, couros de boi foram marcados com frases políticas de músicas nacionais e de pensadores como Paulo Freire e Abdias do Nascimento, grafadas no alfabeto armorial de Ariano Suassuna. O imaginário erótico que está em F.O.D.A também surge na figura feminina deitada num colchão ao lado da figura em gesso do artista.

Sobre o discurso expositivo presente em Raiz: primeiro, aconselharia ao público despir-se dos critérios preconcebidos sobre os limites da arte e vida; em segundo lugar, desnude-se das expectativas criadas pela série de posts e reportagens que já leu sobre o artista, sua obra e sobre a exposição (inclua o presente texto na lixeira); e, por último, leia as legendas somente o necessário – apenas daquelas obras que, realmente, lhe chamem a atenção. Acima de tudo, deixe-se guiar pelo que comove ou não.

A produção de Weiwei está muito ligada às ideias de Marcel Duchamp. Os ready-mades têm um grande destaque na trajetória do artista-ativista e são fortemente representados na mostra, mas o espírito de Andy Warhol dá o tom e a roupagem pop que o artista-ativista imprime em suas propostas. Sobre o critério do que comove ou não, lembremos a frase de Warhol: “Nunca se pode prever quais as pequenas coisas na aparência, na maneira de falar ou de agir vão despertar reações emocionais peculiares nos outros”. Porém, lembre-se, Weiwei é onipresente na exposição. Ele está nos vídeos, nas performances, nas instalações e, sobretudo, na memória e intenção de cada proposta. Nesse sentido, abra-se para a experiência Ai Weiwei.

 

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