A cultura dos relatórios “circunstanciados” na USP

Angelo Segrillo é professor associado do Departamento de História da Universidade de São Paulo

Por - Editorias: Artigos - URL Curta: jornal.usp.br/?p=230038
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Angelo Segrillo – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens
Há um problema que acredito estar na hora de ser discutido em nossa universidade: a cultura que temos da exigência bastante generalizada de pareceres e relatórios “circunstanciados” (i.e., pormenorizados, detalhados). O exagero nessa prática está levando a que percamos tempo redigindo textos que, na verdade, se revelam prolixos e ineficientes em termos de custo/benefício.

Darei um exemplo concreto. Uma vez participei de uma banca de revalidação de diploma estrangeiro. Era de um aluno de graduação da Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Redigimos um parecer de uma página que afirmava o óbvio: que um diploma de graduação da prestigiosa universidade de Cambridge deve ser aceito em nosso país.

Não é que o processo deu voltas e retornou à nossa banca, solicitando que detalhássemos mais, pois o parecer era muito curto? Resultado: fizemos outro parecer dizendo a mesma coisa, mas agora com quatro páginas. Este de quatro páginas foi aceito… Ora, será que valeram a pena essas idas e vindas, muitos professores tirarem mais tempo de suas atividades importantes (ensino e pesquisa) para chegarmos à mesma conclusão com mais páginas em vez de menos?

Eu fiz grande parte de minha formação acadêmica nos EUA. Lá, a ideia de generalizados relatórios e pareceres “circunstanciados” causaria calafrios. Como sabemos, para os norte-americanos time is money, ninguém tem tempo a perder com coisas (palavras, caracteres, páginas) desnecessárias e os relatórios e pareceres devem ser “concisos e objetivos” (to the point). Lá, há um máximo de caracteres e páginas para projetos, relatórios etc. e não um mínimo, como acaba sendo a prática por aqui.

Eu acho que deveríamos seguir esse exemplo (dos EUA e de outros países; mencionei os EUA apenas por ser o que conheço melhor). Isso não é um mero diletantismo cultural. Precisamos poupar nossos escassos recursos, em especial o tempo. O principal em uma universidade, nossas tarefas realmente produtivas, são ENSINO e PESQUISA. O importante é usarmos nosso tempo fazendo pesquisa e não fazendo “relatórios sobre a pesquisa realizada”.

Os relatórios (como a burocracia em geral) são um “mal necessário”. São necessários para podermos controlar se a pesquisa foi realmente feita, mas devem ser mantidos ao mínimo para não perdermos mais tempo com relatórios do que com a pesquisa em si. E isso pode ser facilmente conseguido utilizando relatórios “concisos e objetivos” em vez de relatórios “circunstanciados” (= prolixos).

Temos uma oportunidade de ouro agora para realizarmos essa virada. Com o novo sistema de avaliação quinquenal de todos os professores da USP, o número de relatórios e pareceres (sobre projetos docentes individuais, etc.) vai aumentar exponencialmente. Se utilizarmos o sistema antigo dos pareceres “circunstanciados”, perderemos um tempo enorme redigindo e lendo relatórios. Entretanto, felizmente, notei que o formulário eletrônico para os projetos docentes individuais têm campos a serem preenchidos com número máximo de caracteres (além da possibilidade de um anexo maior para quem precisar de mais um pouco de espaço).

Utilizemos um novo formato mais objetivo e o generalizemos! Eu proponho que abandonemos o modelo dos relatórios “circunstanciados” e adotemos doravante o modelo dos relatórios e pareceres “concisos e objetivos” na nossa querida USP!

 

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