2020 começa movimentado para o agronegócio

Por Marcos Fava Neves, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP)

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Marcos Fava Neves – Foto: Arquivo Pessoal
Nas notícias de destaque do mundo neste mês temos a expectativa da assinatura da fase 01 do acordo entre EUA e China agora para janeiro, e uma nova incerteza de grande dimensão vinda das tensões entre EUA e Irã. Em outros tempos, o temor seria maior em termos de influência nos preços de petróleo e de outros produtos, mas ainda assim não se sabe se a temperatura vai subir mais, afetando o comércio mundial com uma possibilidade de guerra. 

Entramos em 2020 com muitas incertezas para os produtores americanos de grãos. A promessa feita pelo presidente Trump, de que a China dobraria as compras que vinha fazendo antes do problema comercial, ainda não foi cumprida, há incertezas sobre o que plantar agora no verão e ainda os riscos climáticos tradicionais. Situação de desânimo, que será muito explorada neste ano eleitoral nos Estados Unidos. 

Para fazer frente à crise da peste suína africana, o governo da China colocou um investimento de US$ 7 bilhões à disposição dos grandes produtores de suínos para aumentar a produção via inclusão de pequenos produtores, por meio de aquisição ou leasing de parte ou do total das pequenas produções, ou seja, um movimento de “empresas âncora”, no qual os mais tecnificados cuidarão dos menos na região onde estiverem. Mas a situação da peste suína africana na Ásia e em outros locais do mundo segue piorando, o que tem impactado positivamente nossas exportações e preços de carnes, como será visto mais adiante. Também pode reduzir tarifas de importação de alguns produtos em 2020, principalmente nas carnes e isto terá impacto favorável ao Brasil. Em novembro, as importações chinesas de carne suína foram 151% maiores que no mesmo mês de 2018. De janeiro a novembro estavam quase 60% maiores.  

Como era esperado, o governo brasileiro anunciou que as tarifas de exportação na Argentina subiram de 25 para 30% na soja, no milho e trigo de 7% para 12% e na carne de 7% para 9%. Espera-se que o aumento dos impostos de exportação de grãos eleve a arrecadação do país em US$ 750 milhões. Ou seja, mais uma transferência de renda de quem produz, provavelmente para políticas assistencialistas.

Nas notícias do Brasil, a expectativa sobre a economia de acordo com relatório Focus, de 6 de janeiro, do Banco Central segue otimista, com o IPCA em 3,60% para 2020, crescimento do PIB de 2,3%, Selic em 4,50% e o câmbio também se mantém no patamar do fechamento de 2019 de R$4,10, com decréscimo de um centavo para 2020. Ou seja, o mercado aposta que em 2020 teremos um câmbio entre R$ 4 a R$ 4,10 – eu acho que o real se valoriza mais, e o intervalo será mais no final do 3 que no início do 4.

A balança comercial fechou o ano com US$ 46,7 bilhões de saldo, o menor desde 2015, e 20% menor que 2018. Houve menos espaço na economia mundial, com quedas relevantes nas compras da China (mesmo aumentando nas carnes) e da Argentina, principalmente. O saldo veio das exportações de US$ 224 bilhões (caíram 7,5%) e importações de US$ 177,3 bilhões (queda de 3,3%).

Em relação ao andamento da nossa safra, a Conab, em seu boletim de dezembro, espera uma produção de 246,6 milhões de toneladas de grãos, um incremento de 1,9% sobre a safra anterior, representando 4,6 milhões de toneladas a mais. Já para a área cultivada a estimativa é de 64,2 milhões de hectares, 1,5% acima do ciclo passado. Área de algodão deve crescer 1,6% e a de soja 2,6%. Para o milho primeira safra o crescimento está estimado em 1,2% (4,2 milhões de hectares) e a produção em 26,3 milhões de toneladas; já na segunda safra são esperados 71 milhões de toneladas do grão e na terceira safra 1,16 milhão de toneladas.

As exportações do agro totalizaram US$ 8,21 bilhões em novembro (dezembro ainda não foi publicado), crescendo 1,0% com relação ao mesmo período de 2018. O complexo soja teve ligeira queda de 0,8% atingindo US$ 2,34 bilhões (apesar que vendemos 5,2 milhões de toneladas de soja ao mundo em novembro, recorde para o mês); produtos florestais caíram 19,2% com valor de US$ 916,71 milhões; já cereais, farinhas e preparações cresceram 13,9%, movidos pelo milho, totalizando US$ 780,12 milhões. Algodão e suco de laranja obtiveram embarques destaques, o primeiro com US$ 412 milhões (+12,3%) e o segundo com US$ 241,25 milhões (+174,4%).  Nas importações houve queda de 8,6% com valor de US$ 1,08 bilhões, deixando o Brasil com saldo positivo de US$ 7,13 bilhões na balança.

Vejam o efeito China nos resultados de novembro: as exportações brasileiras de carnes trouxeram no mês US$ 1,6 bilhão, 22% acima de novembro de 2018. Para a China foram vendidos US$ 685,9 milhões e em novembro de 2018, US$ 253,1 milhões. Somando-se a Hong Kong (US$ 148 milhões) mais de 53% das carnes foram compradas pelos dois. A carne bovina teve aumento de quantidade e de preços, vendendo US$ 845 milhões no mês, e para a China foram quase US$ 490 milhões, 4 vezes mais. No frango vendemos US$ 531 milhões, sendo 23% para a China e nos suínos US$ 150 milhões com 50% indo para a China. Exportações de suínos cresceram 16,2% em 2019. 

Em 2019 batemos nosso recorde na exportação de milho. Foram praticamente 45 milhões de toneladas, 88% a mais que a safra anterior. Na soja as exportações caíram do recorde de 83,8 milhões para quase 78 milhões de toneladas. Ainda um bom número, mesmo com a queda de compras chinesas.

Segundo o Valor Data, o preço médio da soja (em dólar) em 2019 foi 4% menor que o de 2018 e 40% menor que o de 2012. A expectativa para 2020 é de ligeira elevação na Bolsa, com melhor relação entre EUA e China, e consequentemente, prêmio menor no Brasil. 

O café também melhora com o consumo forte e menor produção. Cenário bom para a pecuária em 2020, com mercados internos e externos demandantes e oferta apertada. Exportações devem aumentar mais de 10%. A laranja também terá um ano bom de preços, com a provável menor safra. 

A comercialização de defensivos atingiu US$ 11,5 bilhões na safra 2018/19. Houve aumento de 7% em volumes e diminuição de 5% no valor, pela desvalorização do real. É o maior mercado do mundo. A soja é o maior mercado, e os defensivos representam, de acordo com estudo do Rabobank, 32% do custo de produção, com preços mais altos em reais. 

Os cinco fatos do agro para acompanhar agora diariamente em janeiro são: 

1) O andamento da nossa safra e o comportamento do clima.  Além da nossa, acompanhar o andamento da safra na Argentina. 

2) China e Ásia: seguir os impactos da peste suína africana na Ásia nos preços e quantidades de carnes importadas do Brasil;

3) A provável assinatura da fase 1 do acordo comercial China e EUA e pressão nos preços dos nossos produtos;

4) Questão geopolítica EUA x Irã e impactos no petróleo, segurança e importações do Oriente Médio; 

5) O andamento das reformas no Brasil, o crescimento e seus impactos ao agro e ao câmbio.

Bom mês a todos!  

 

 

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