Os últimos anos

Por Pedro Luiz Côrtes, professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) e do Instituto de Energia e Ambiente (IEE)

 03/10/2022 - Publicado há 2 meses

Nos últimos anos, assistimos a um desmonte de uma política ambiental que fora construída ao longo de décadas. Foi uma construção coletiva que envolveu diferentes governos e fez com que, dentre outras conquistas, a taxa de desmatamento na Amazônia decrescesse. Há quase quatro anos, quando a “porteira foi aberta” e o fogo começou a destruir a floresta tropical úmida, houve uma tentativa inicial de brigar com os dados. O Inpe estaria mancomunado com ONGs interessadas em internacionalizar a Amazônia. No governo, houve até quem declarasse que, “se fossem verdadeiros”, os dados deveriam ser mantidos sob sigilo para que o governo tomasse providências e não prejudicasse a imagem internacional. Esqueceram que o Inpe, além do enorme prestígio de sua equipe, utiliza metodologia internacionalmente reconhecida e replicável. Se os dados não fossem divulgados, outras instituições no exterior poderiam fazer esse mesmo trabalho.

Sim, essa desculpa “não colou”. Então, passaram a argumentar que as queimadas eram apenas e tão somente provocadas pelos índios e caboclos para o manejo de suas culturas. Fosse isso verdade, como explicar o crescimento absurdo da taxa de desmatamento diante de uma população de índios e caboclos que permanecia estável? Essa desculpa também “não colou”. Nesse intermeio, as cinzas das queimadas chegaram a São Paulo, seguindo o fluxo natural dos chamados “rios voadores” e provocaram a chuva negra na cidade. “Ah! Mas essas cinzas não eram da Amazônia. Elas vinham do Paraguai”. Uma nova desculpa que também “não colou”.

Disse o governo que precisava de recursos para preservar a Amazônia. Bom, disse, mas desdisse. Argumentou-se que recursos estrangeiros visavam apenas internacionalizar a Amazônia. Fato é que a internacionalização da Amazônia – paranoia militar dos anos 60 e 70 – nunca foi discutida em nenhuma reunião organizada pela ONU. O Brasil recebia dinheiro para preservação da Amazônia por meio do Fundo Amazônia, patrocinado pela Petrobras, Alemanha e Noruega, principalmente. Esse fundo, que é administrado pelo BNDES, está paralisado há três anos e meio. O governo diz que precisa de recursos. Recursos há, embora o montante do Fundo não seja grande. Mas nem isso ele consegue usar. Nesse descaminho, em uma Convenção do Clima, um representante do governo disse que o Brasil precisava de bilhões para preservar a Amazônia. Como seria possível convencer a comunidade internacional a financiar a preservação diante de perversões tão contumazes.

Chegou um momento em que o governo passou a não se importar mais em arrumar desculpas. O então ministro do Meio Ambiente propôs que se aproveitasse a porteira aberta e a pandemia para deixar a boiada passar e aprovar pacotes antiambientais. A porteira foi, então, arrancada. O desmatamento e as queimadas chegaram a taxas cada vez mais assustadoras. Há uma corrida para “terminar o trabalho” antes que o mandato acabe. É aproveitar a oportunidade propiciada pelo desmonte do Ministério do Meio Ambiente, Ibama, ICMBio e outros órgãos de fiscalização e controle.

Agora, o desafio que se impõe é como reconstruir esses órgãos? Como reestabelecer a fiscalização e o controle? Contratar pessoas e remontar equipes é necessário, mas a sinergia entre os membros é algo que demora a ser conseguido. Um desmonte realizado em quatro anos poderá levar bem mais do que isso para ser absorvido e superado. O estrago foi brutal. As consequências do desmatamento já são mais do que evidentes, reduzindo as chuvas e a quantidade de água na região central do Brasil. Superamos o chamado turning point. O equilíbrio ambiental da floresta foi rompido. Não basta o desmatamento zero. Ele congelaria uma situação já interposta em nosso cotidiano. Precisamos partir para a recuperação florestal. Estamos presenciando os últimos anos de uma floresta e o lento começo de seu fim.


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