Três Brasis: Estatistas, liberistas e extremistas

Por Janice Theodoro da Silva, professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP

 02/12/2022 - Publicado há 2 meses

A eleição de 2022 gerou um retrato atualizado do Brasil e dos brasileiros. No passado eram dois, agora são três.

O Brasil número um é católico. Foi construído aos poucos, ao longo dos séculos 16, 17 e 18. Brasil nordestino e nortista. Uma sociedade fabricada à moda do Antigo Regime. Embora desigual, a tradição conformava uma sociedade regida pelo bem comum. Um Brasil humanista e desigual de homens livres e escravos, um Brasil açucarado e seco, injusto e esperançoso. Proclamada a República, a trilha aberta colocava em debate a desigualdade e as instituições políticas.

O Brasil número um, em razão de suas raízes históricas, tende para o estatismo, obra das tradições teológicas dos séculos 16 e 17.

Já o Brasil do Sul e do Sudeste, o Brasil número dois, está repleto de vencedores. Suas concepções de vida e política datam do século 19. Um Brasil formado por imigrantes alemães, italianos e tantos outros: gente de ferro. Competiram e venceram: no campo, na cidade, ampliaram fronteiras agrícolas. Em geral de pele clara, um tipo diferente das gentes da terra e dos antigos colonizadores. A “civilização” criada pelos novos imigrantes seguiu os modelos europeus do século 19. Respeito à educação, à família: mãe, pai e filhos.

O Brasil do Sudeste e do Sul é individualista, empreendedor, de vocação conservadora e autoritária. São filhos do trabalho. Perturbam as políticas de redistribuição de renda, os privilégios, as políticas de cotas voltadas para pretos, pardos. Consideram os perdedores na competição do mercado, gente arrastada, morosa, pachorrenta. Olham o Estado como um estorvo, beneficiando, mediante auxílios, quem (supostamente) não trabalhou duro como eles.

Os valores do Brasil número dois dizem respeito ao indivíduo. O Estado atrapalha. São liberistas em termos econômicos e políticos.

O outro, o terceiro Brasil, é do centro. Brasil profundo, das fronteiras e da floresta amazônica. O Brasil dos rios, do pescado, da madeira, do ouro. É também o Brasil da soja, do gado, da alta tecnologia responsável por muitas divisas para a nação e para os produtores. Alimenta muita gente no estrangeiro e em terras brasileiras. Brasil misturado. No mesmo pote riqueza, tecnologia e violência. Brasil armado, meio indígena, meio sulista, meio misturado.

Neste Brasil vivem os desbravadores do Mato Grosso, Rondônia e Roraima, da mata virgem e do Cerrado. Migraram do Sudeste e Sul para o Centro-Oeste. Querem pastagens, terra, expandir território, criar gado. Não têm medo. Focam no ouro, no gado, na venda de madeira e vão em frente. Deixam a boiada pastar. Os fracos ficam no caminho. Tratam a vida com desprezo, as próprias e as dos outros. Entre eles a mortalidade infantil é a mais alta do Brasil e a saúde, precária, mas a possibilidade de enriquecimento é energia que pulsa. Brasil profundo é uma mistura de desbravadores individualistas, liberistas e de povos originários, estes defensores, com a própria vida, da floresta, dos rios e dos bichos. São gente de pouca conversa. Inimigos uns dos outros, se odeiam, se matam.

Muitos, no Brasil profundo, demonizam o Estado, as leis e as gentes da terra.

Os números falam alto sobre os três Brasis.

A votação no País, formado grosso modo por liberistas e estatistas, resultou na vitória de Lula. O resultado foi o seguinte:

Lula obteve 50,90% dos votos (59.563.912) e Bolsonaro 49,10% (57.675.427). Votos nulos foram 3.889.466. Brancos 1.751.415. Somando as duas últimas categorias, os desencantados, a cifra é de 5.640.881 votos.

Do ponto de vista regional, o Nordeste, estatista, deu a Lula o maior número de votos, 53,18% (22.534.967). Bolsonaro, liberista, obteve 23,5% (9.962.917). A diferença entre eles foi de 29,67% (12.572.050).

Já o Brasil do Sudeste, liberista, deu a Bolsonaro 40,53% (27.043.620), o maior número de votos. Lula teve 34,16% (22.793.540). A diferença entre eles foi de 4.250.080 (6,37%).
Na região Sul, liberista, Bolsonaro obteve 58,9% e Lula 41,1%.

E o Brasil do Centro-Oeste, liberista, deu para Bolsonaro 60,21% (5.331.708) e para Lula 39,79% (3.523.743), porcentagens próximas do Sul e Centro-Oeste.

Regiões Bolsonaro Lula Diferença
Nordeste 23,50% 53,18% 29,68%
Centro-oeste 60,21% 39,79% 20,42
Sul 58,9% 41,1% 17,8%
Sudeste 40,53% 34,16% 6,37%

 

Do ponto de vista das cidades brasileiras, Lula venceu em 3.125 cidades e Bolsonaro, em 2.445. As variações respondem a particularidades das regiões onde se encontram as cidades. Segundo a CNN, Lula ganhou em municípios pequenos e médios, e Jair Bolsonaro, em cidades com mais de 500 mil habitantes. É interessante observar que os municípios pequenos e a cidade de São Paulo preferiram Lula (Lula teve 53,54% e Bolsonaro 46,46%). Lula venceu em 13 Estados e Bolsonaro em 13 e no Distrito Federal.

Os que tinham fome votaram em Lula. Os mais ricos optaram por Bolsonaro. Os leitores com menor escolaridade votaram em Lula, e os com mais alta escolaridade votaram em Bolsonaro. As mulheres preferiram Lula, e os homens, Bolsonaro.

Qual a lógica?

Renda, fome e escolaridade explicam as opções políticas?

O que a regionalização dos votos, em torno de um ou de outro candidato, significa?

Representações cartográficas. Primeiro passo

Para ver o Brasil como um conjunto a melhor forma é olhar os mapas. As representações cartográficas, com as cores dos candidatos vencedores por Estado, são perigosas. Escondem peculiaridades regionais ficando difícil compreender a charada dos três Brasis e seu intrincado municipalismo, raiz da compreensão do Brasil.

Em países continentais, a relação entre a dimensão do território, a densidade da população e a história em cada rincão é complexa. Todos estes elementos juntos interferem nos resultados eleitorais. As eleições no Brasil expressam a vontade de cada eleitor. O candidato vence por maioria simples.

Parto dos mapas e considerações produzidos pelo LabCidade (FAU/USP), em artigo de Pedro Rezende, Aluízio Marino, Pedro Lima e Raquel Rolnik, para elaborar algumas proposições. A partir das sugestões do artigo incorporo outros dados das diferentes regiões brasileiras.

Os autores do trabalho demonstram cartograficamente os porcentuais de votos nos dois candidatos:

“Nos mapas abaixo, mapeamos a diferença entre os percentuais de votos válidos de Lula (PT) e Jair Bolsonaro (PL) por município. As maiores diferenças a favor de Lula ocorrem no Amazonas e no interior da região Nordeste, mas também há áreas com mais votos em Lula no Rio Grande do Sul e em Minas Gerais. Nas áreas rurais de São Paulo, Mato Grosso do Sul e Goiás, o voto bolsonarista tem uma vantagem menor sobre o voto em Lula. Bolsonaro tem vantagem mais ampla na chamada fronteira agrícola (norte de Mato Grosso e Rondônia) e também nos estados de Roraima e no litoral de Santa Catarina. (…) as regiões com mais eleitores têm margens mais apertadas entre os candidatos, indicando uma disputa mais acirrada nas maiores cidades”.

Fonte: Labcidade/USP
Fonte: Labcidade/USP

Quais foram os principais ingredientes responsáveis pelas escolhas políticas?

Fronteira agrícola. Brasil número três

O mapa apresentado mostra a preponderância de Bolsonaro nas áreas de fronteira agrícola. Nos Estados de Acre, Rondônia, Roraima e Mato Grosso Bolsonaro venceu. Estas regiões são marcadas por conflitos de terra e confrontos com as populações indígenas. A ocupação responde a interesses econômicos individuais levados à frente, em muitos casos, de forma ilegal. Os desbravadores usam os recursos naturais como forma de enriquecimento, sem interesse em criar raízes no local da exploração (mineração). São áreas com baixo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), grande mortalidade infantil e índices de escolaridade baixos.

Para parte da população amazonense bolsonarista (48,9%), habitantes, na sua maioria, das maiores cidades da região, existe tolerância para os baixos índices de escolaridade, altas taxas de mortalidade infantil e destruição dos recursos naturais. O motivo? Geram recursos para os trabalhadores e, especialmente, para os financiadores. Os fins legitimam os meios utilizados, desmatamento e mineração (contaminando os rios com o uso de mercúrio). Na cidade de Manaus, Bolsonaro teve 61,28% dos votos e Lula 38,72%, diferença significativa especialmente se lembramos a falta de oxigênio em Manaus no auge da epidemia de covid.

Na Amazônia Legal Lula venceu em 491 municípios e Bolsonaro em 281 (dados CNN), o que explica os conflitos entre populações da floresta e ribeirinhas e as populações dos centros urbanos. É fácil compreender as escolhas políticas realizadas especialmente na cidade de Manaus. Quanto menos interferência do Estado, melhor. Menos Funai, menos Ibama, mais fácil de cometer atos ilícitos, sem o risco de punição, da perda do capital investido.

Na floresta e nos rios a história segue caminho inverso. A natureza (gente, bichos e árvores) importa, a vida importa, o planeta importa.

Sul e Sudeste. Brasil número dois

O Brasil número dois é diferente do ponto dos recursos naturais e da história das áreas de fronteira. No Sul e no Sudeste, a renda é alta e a mortalidade infantil, mais baixa. A população desta região considera o mercado capaz de resolver os problemas econômicos, políticos e sociais favorecendo o enriquecimento da população. A maior parte dos eleitores identifica em Bolsonaro esses ideais e com ele comunga.

A cidade de São Paulo, a maior cidade do Brasil, escapou do sonho empreendedor. Deu vitória para Lula, à democracia, com 53,54% dos votos. Bolsonaro obteve 46,46%. Já o interior, a maior parte dos municípios, preferiu Bolsonaro. Escolheram menos Estado. Desvalorizam as instituições políticas. Em Minas Gerais a disputa foi acirrada, Lula om 50,62% e Bolsonaro com 49,80%. Um Estado em que cada parte, cada município, representa um pedaço do Brasil. No Rio de Janeiro a diferença foi significativa em favor de Bolsonaro. Ele teve 56,53% e Lula 43,47%. Talvez uma parte das pessoas goste de armas.

Segundo a CNN, Bolsonaro ganhou nas cidades onde pouca gente recebe o Auxílio Brasil, provavelmente cidades mais ricas, e Lula ganhou nas cidades onde um número maior de pessoas recebem Auxílio Brasil, provavelmente cidades mais pobres, onde a população precisa de proteção. Concepção que encontra amparo nas tradições católicas menos competitivas.

Comparação: Brasil três e Brasil dois

Observem a contradição: Bolsonaro venceu nos Estados com os piores IDH, mortalidade infantil e Ideb mais baixos. Venceu em Roraima, com 76,08% dos votos, em Rondônia, com 70,66% e em Mato Grosso, com 65,08%. Mas foi vitorioso também nos Estados com os melhores IDH brasileiros, baixa mortalidade infantil e bom desempenho escolar. Em Santa Catarina, estado com o menor Índice de Mortalidade Infantil, obteve 62,27% dos votos e no Rio Grande do Sul 56,35%.

Brasil dois:

Estados IDH Lula Bolsonaro Mortalidade infantil por 1000 hab. IDEB
2021 Anos iniciais
Santa Catarina 0,808 30,73% 62,27% 8,9 6,2
Rio Grande do Sul 0,787 43,65% 56,35% 9,3 5,8
Paraná 0,792 37,60% 62,40% 10,3 6,1

Brasil três:

Estados IDH Lula Bolsonaro Mortalidade infantil por 1000 hab. IDEB
2021 Anos iniciais
Rondônia 0,725 29,34% 70,66% 19,6 5,3
Amazonas 0,733 51,1% 48,9% 17,9 5,3
Roraima 0,752 23,92% 76,08% 16,7 5,3
Acre 0,719 29,70% 70,30% 16 5,4
Mato Grosso 0,774 34,92% 65,08% 15,8 5,5
Goiás 0,769 41,29 58,71 14,5 5,7
Mato Grosso do Sul 0,766 40,51% 59,49% 11,1 5,2

 

Como explicar o desapego à democracia e às políticas de Estado voltadas para o bem-estar social tanto em regiões de fronteira como nos Estados com os melhores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) e de Desenvolvimento na Educação Básica (Ideb)? São todos eles liberistas? Por quê?

Em regiões de fronteira é fácil compreender o conflito de interesses entre os invasores de terras e as políticas de Estado voltadas para a preservação do meio ambiente e a proteção das populações originárias.

Para os praticantes de atividades ilegais o Estado é inimigo. Quanto menor e mais ineficiente, ele é melhor para os infratores.

Mas como explicar o inverso? A mesma escolha política, Bolsonaro, nas áreas com melhor IDH?

A floresta amazônica e suas ambiguidades municipais

A lógica é fruto dos interesses municipais, não estaduais. A devastação e crescimento da criminalidade nas áreas com pouca densidade populacional no Amazonas justificam Lula ter ganho em 58 dos 62 municípios e Bolsonaro apenas em Manaus e outras três. Os povos originários e ribeirinhos espalhados pela floresta e margem dos rios enfrentam inúmeras ameaças de mineradores e madeireiros. Sua sobrevivência depende do bom funcionamento de instituições de Estado. Cientes do perigo, nas eleições optaram majoritariamente por Lula. Eles representam 51,1%, um pouco mais do que a metade dos votantes. Estão espalhados pela floresta. Isto é bom, para as árvores, para os peixes e para os animais.

Estados IDH Lula Bolsonaro Mortalidade infantil por 1000 hab. IDEB
2021 Anos iniciais
Amazonas 0,733 51,1% 48,9% 17,9 5,3

 

Já as populações amazônicas dos grandes centros urbanos, mais numerosos, privilegiaram o enriquecimento individual. A importância da vida tem outro peso. As atividades econômicas, legais e ilegais, estão entranhadas umas nas outras, nas cidades maiores. Estes amazonenses preferem menos Estado, menos vigilância e menos ciência. Votaram em Bolsonaro optando por uma política liberista.

Brasil número dois: Santa Catarina e Sul do Brasil

Imigração alemã para o Brasil entre 1824 e 1989. Fonte: MAUCH, C., VASCONCELOS, N.(org). Os alemães no sul do Brasil: cultura, etnicidade e história. Canoas: Ed. Ulbra, 1994. p. 165

Compreender Santa Catarina e Estados do Sul é bem mais complexo. Nas áreas de fronteira, de floresta, os interesses econômicos prevalecem, são autoexplicativos das escolhas políticas. Ocupação ilegal de terras sugere menos controle do Estado.

Compreender Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul exige mais reflexão, uma viagem para o passado. Estados como Santa Catarina, por exemplo, com imigração alemã, construíram, especialmente no século 20, um projeto marcado por uma reinvenção da civilização germânica em solo brasileiro, “civilização” nacionalista e romântica, com raízes individualistas e “liberistas” de tipo europeu.

Os imigrantes recém-chegados da Europa organizaram centros culturais para a manutenção de suas tradições. Criaram associações para práticas esportivas, de tiro, de canto e de ginástica. Estimularam a educação musical, produziram almanaques e jornais. Escreveram literatura, poesia, lutaram pela construção de uma identidade com base nas diferenças dos habitantes locais. Sofreram, posteriormente, a violência das campanhas de nacionalização em razão da guerra. Vincularam as tradições germânicas a um sentido civilizatório mantendo uma identidade de “hóspedes no país de acolhida”. Do ponto de vista político trouxeram referências de um pensamento autoritário e, alguns grupos, vínculos com o nazismo. O partido nazista surgiu na região antes da Segunda Guerra e seus afiliados mantiveram relações com representações alemãs preservando vínculos identitários com os países europeus. Civilização e barbárie eram referências conceituais da época, qualificativos para a Europa e para o Brasil.

Os imigrantes alemães e italianos recém-chegados encontraram trabalho nos Estados do Sul e Sudeste do Brasil. Coexistiram no mesmo território com os povos originários, sobreviventes de massacres e também com populações de trabalhadores pretos ou pardos, escravos de antigos habitantes na região. O convívio resultou, em muitos casos, na incorporação e preservação de valores típicos do século XIX e descrédito nas instituições políticas brasileiras.

As formas de organização social dos imigrantes favoreceram o surgimento da pequena propriedade com uma população atenta à educação de seus filhos. As comunidades preocupadas com a escolaridade das crianças criaram suas próprias escolas étnicas mantidas pela comunidade. Nelas ensinavam a língua materna, a religião (eram luteranos e evangélicos) e a cultura de origem.

O Estado brasileiro não se apresentou como um aliado diante das dificuldades enfrentadas pelos imigrantes. Educaram os seus filhos com muito trabalho, rigor e afinidade com a cultura de origem, considerada por eles mais elaborada. Ascenderam socialmente. Atualmente o Estado de Santa Catarina apresenta uma das mais altas expectativas de vida e as mais baixas taxas de mortalidade infantil.

Hoje, estas regiões optam por projetos políticos marcados pela autonomia do indivíduo e com pouca interferência do Estado. Olham com desagrado políticas sociais de redistribuição de renda. Preferem um Estado autoritário, conservador e aderem a ideologias nacionalistas e militarizadas. As tradições do romantismo alemão deixaram marcas na formação dos imigrantes de segunda e terceira geração.

Santa Catarina Bolsonaro Lula
Blumenau 75,28 % (159.256) 24,72% (52.292)
Joinville 76,60% (268.079) 23,40% (81.886)
Brusque 78,60% (61.992) 21,40% (16.877)

Os Estados do Sul patrocinaram no final do século XX e, na história recente, migrações para o Centro-Oeste.

Brasil número um: a fome

O Brasil número um salvou o Estado Democrático de Direito, em 2022.

Pode parecer estranho, mas a fome e o catolicismo juntos foram os dois mais importantes ingredientes, um letramento político a favor do Estado Democrático de Direito, agente do bem-estar social no Brasil. Entre os estatistas e os liberistas venceram os estatistas, graças às raízes do humanismo católico entranhado na história desta região. Nestas bandas do Nordeste a vida humana, de pobre e rico, tem valor.

Para os países conformados pelas monarquias ibéricas (Antigo Regime) a humanidade é uma e una, embora possa ser profundamente desigual. A responsabilidade do Estado é a busca constante de equilíbrio (ideal). A raiz do pensamento político é concebida na polis, como o espaço do bem comum, do exercício constante da política, da prática do contraditório.

Estados IDH Lula Bolsonaro Mortalidade infantil por 1000 hab. IDEB
2021 Anos iniciais
Sergipe 0,702 67,21% 32,79% 17,7 4,8
Piauí 0,697 76,94% 23,16% 17,5 5,3
Bahia 0,714 72,12% 27,88% 16,6 4,9
Maranhão 0,687 71,09% 28,91% 16,3 4,7
Pará 0,698 54,74% 45,26% 16,3 4,8
Paraíba 0,722 66,62% 33,38% 15,1 5,0
Rio Grande do Norte 0,731 65,10% 34,90% 14,5 4,5
Alagoas 0,683 58,68% 41,32% 14,4 5,3
Tocantins 0,743 51,36% 48,64% 14 5,1
Ceará 0,735 69,97% 30,03% 13,5 6,1
Pernambuco 0,727 66,93% 33,07% 13 5,1

 

Dentro desta tradição católica do Ocidente, as políticas públicas (como princípio) são mais importantes do que as iniciativas individualizadas. Políticas individualizadas não priorizam o bem comum porque os interesses humanos são contraditórios, impedem a boa gestão da coisa pública, das instituições capazes de gerir a res pública.

Por exemplo, o SUS (Sistema Único de Saúde) representa a busca do bem-estar da sociedade na área da saúde, a Bolsa Família, a busca do equilíbrio, o absorvente, a prudência no trato com as necessidades femininas, a refeição na escola, o respeito ao ser humano. Todos estes procedimentos visam ao bem comum, são parte da vida social.

Escolaridade

A escolaridade, maior ou menor, não interfere nas escolhas dos votantes quando o tema é política. O Estado Democrático de Direito foi garantido no Brasil em 2022 graças à população pobre e com menor escolaridade.

Por quê?

A educação, o desenvolvimento de habilidades e competências, por si mesmo não favorece nem desfavorece o apoio aos regimes democráticos ou autocráticos. A educação apenas contribui para o livre-arbítrio do cidadão.Às vezes a razão é vitoriosa. Outras vezes não. O livre-arbítrio pressupõe o erro, a loucura e a estupidez. O mesmo ocorre com a liberdade e a busca para uma melhor distribuição de renda. Algumas vezes as escolhas são acertadas, outras vezes não. O esforço da educação é indagativo, demonstrativo e experimental. Muita gente bem formada na Alemanha apoiou o nazismo e as barbaridades realizadas pelos seus adeptos. Os Estados Unidos, com uma classe média extensa e com altas taxas de escolaridade, foram capturados pelo trumpismo, pelos seus exércitos de vikings, invadindo o Congresso americano.

No Brasil, inúmeras pessoas, graças às políticas realizadas durante os governos de Fernando Henrique e de Lula, ascenderam socialmente. Deixaram a situação de miséria, aumentaram a escolaridade integrando o grupo dos brasileiros com renda de 2 a 5 salários mínimos. Estes indivíduos, ao avaliar as razões de sua ascensão social, enxergaram apenas o esforço individual. É difícil ver os benefícios de uma lenta expansão da economia e do equilíbrio das contas. Usufruíram dos benefícios e votaram em Bolsonaro, depositaram suas esperanças no empreendedorismo individualista.

Nas eleições de 2022 ,optaram pelo Estado mínimo e soluções individuais para os desafios enfrentados. Reduziram toda a política à corrupção e passaram a defender soluções autoritárias e populistas.

A visão de mundo para este grupo, defensor de soluções individualizadas, “liberistas”, é a seguinte:

• A farmácia popular não deveria existir. Para este grupo a expectativa é que cada pessoa compre o seu próprio medicamento;
• O Estado não deve se responsabilizar pela saúde individual. Para isto existe plano de saúde;
• A alimentação na escola para as crianças é responsabilidade da família e não do Estado;
• A vacinação é responsabilidade da mãe da criança e não do Estado;
• Os absorventes fazem parte da higiene pessoal de cada indivíduo, portanto não devem ser doados pelo Estado;
• A Bolsa Família tira recursos de quem trabalha pesado;
• A aposentadoria deve ser administrada privadamente e não pelo Estado. As pessoas devem ser responsáveis e fazer poupança para a velhice.

O sonho de ascensão social frequentemente vem acompanhado de fantasias, privilégios hierárquicos, não de igualdade ou de preocupações com distribuição de renda. Defender a igualdade é fácil. Viver a igualdade, difícil. Exige um longo e delicado aprendizado individual e coletivo. Distribuir renda não é apenas um exercício matemático. Distribuir renda é arte para os regimes democráticos, regimes de natureza conflituosa, repletos de contradições, exigindo permanente negociação.

P.S. Alguns vão achar simplificado o raciocínio em torno das oposições entre estatistas e liberistas. De acordo. Li com régua a Ética a Nicômaco. Mas, para reconhecer o centro é necessário definir os dois projetos, explicar as razões das políticas de desmonte do SUS, da Funai, do combate contra a fome, contra as armas entre outros. Não se trata de maldade, loucura ou problemas morais da extrema direita. A questão é conhecer a raiz, as motivações explícitas e implícitas do projeto levado à frente nestes últimos quatro anos. Um projeto anti-humano.

Resumo da ópera: arregacem as mangas, comprem ansiolítico e façam amigos. O caminho é longo, o dinheiro curto e o vinho, caro.


Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.