O que Angelina Jolie, Morgan Freeman e James MacAvoy têm a ver com gestão das organizações?

Por Fábio Frezatti, professor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP

 15/08/2022 - Publicado há 6 meses  Atualizado: 23/08/2022 as 15:02

Em 2008 eles foram os atores principais do filme O Procurado. Um thriller onde James MacAvoy foi escolhido por Angelina Jolie e Morgan Freeman para eliminar um criminoso. Não se trata de um grupo benfeitor da humanidade, mas altamente pragmático em termos de objetivos e meios. James era o agente, e os mentores eram Angelina e Morgan. Não vou me referir aos nomes dos personagens, mas vou indicar os nomes dos atores simplesmente. Fica mais forte a humanização da história pela imagem que temos dos atores.

Apesar de muito capacitado e motivado, James não conseguia atingir seu objetivo. Além do desafio em demonstrar competência num ambiente de altíssimo risco, o sentimento de vingança era um elemento muito presente na sua atitude e ações. Por vários motivos, sempre estava atrasado ou faltava algo nos seus planos. Em alguns momentos seria questionável se era quem deveria procurar ou era o procurado. Numa linguagem atual, um personagem fadado ao fracasso, embora altamente competente em termos técnicos e de percepção para o nível de risco que poderia assumir em cada situação: um perfil de autossuficiência ímpar. Se pararmos para pensar, vamos reconhecê-lo com alguma frequência nas nossas trajetórias.

Depois de várias tentativas, James foi conversar com seus mentores exteriorizando suas frustrações e recebeu um conselho muito valioso, que é a motivação deste texto: ele deveria voltar para o ponto inicial de onde saiu e resgatar o que seria importante para a sua missão, pois havia perdido qualquer força para conduzir o processo, passando a ser conduzido, envolvido por ações táticas reativas que consumiam energia e geravam riscos, mas não o sucesso. Ele tinha perdido a visão mais estratégica de se posicionar e as ações eram planejadas para evitar erros anteriores, o que é intuitivamente adequado, mas não eliminando possibilidade de novos tipos de erros e enganos. É algo parecido com o jogador de xadrez que só preocupa com a próxima jogada, facilitando a vida do oponente.

Não é relevante se gostamos desse tipo de filme ou não, mas a mensagem agrega muito valor. Tem implicações práticas na sociedade. A busca de respostas nem sempre é uma linha reta em que simplesmente assumimos um direcionamento e seguimos em frente nas organizações e nas nossas próprias vidas. Os cenários mudam, personagens novos aparecem e precisamos voltar ao ponto de partida para a referência. Nas organizações, indicar que devem voltar para o ponto inicial consiste em voltar para a missão, visão e valores. Se esses mecanismos forem realmente algo assimilado pela organização, a análise compartilhada e participativa deve trazer respostas importantes, o que não é pouco para um ambiente com rupturas a cada momento. No mínimo uma âncora de consistência será disponibilizada.

Por que alguém precisa escrever sobre isso? Pelo mesmo motivo que o James precisou ouvir alguém que o aconselhou. Somos pressionados a dar sequência a partir do “último degrau” alcançado e… seguir em frente, com novos degraus. Pode ser que a escada não nos leve mais para o local desejado. A sociologia nos apresenta a dualidade em termos de estrutura e agência, onde a segunda depende de as pessoas agirem. Esse voltar seus olhos e reflexões para o ponto de partida só ocorre quando o agente estiver convencido de que deve fazê-lo.

A pergunta do título continua em aberto e posso dizer que seus personagens são bem provocativos e estimulam reflexão em termos de possibilidades de situações que cada um de nós pode estar vivendo em uma organização. É mais fácil e menos dolorido ver um dado problema nos outros do que em nós mesmos ou nas organizações das quais fazemos parte. A capacidade de adaptação e a inspiração vão depender do que Giddens (1979) propõe na interação da agência com a estrutura.

Eu tenho que admitir que Angelina Jolie, Morgan Freeman e James MacAvoy nada têm a ver com gestão das organizações, mas os personagens do filme contribuem para uma reflexão relevante sobre o tema. A propósito, um spoiler para quem não assistiu e gosta desse tipo de filme: James seguiu o conselho e teve sucesso. A arte imita a vida, mas a vida também imita a arte num looping bem interessante.


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