Verdades e narrativas dez anos depois de 2013

Por Bruno Paes Manso, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP

 07/06/2023 - Publicado há 4 meses

Em junho de 2013, eu trabalhava como repórter do jornal O Estado de S. Paulo e atuei na cobertura dos protestos. Algumas cenas ficaram registradas na minha memória. No primeiro dia, 6 de junho, uma quinta-feira, a tropa de choque veio batendo seus cassetetes nos escudos para liberar a Avenida Paulista dos jovens que a bloqueavam na hora do rush. Quando os policiais finalmente se aproximaram, os manifestantes abriram caminho e passaram a correr pelas laterais da avenida, revirando os lixos e fazendo pequenas fogueiras, deixando os policiais sem ação. Impressionante.

No dia seguinte, a ousadia foi ainda maior. Em plena sexta feira, novamente no horário de pico, o movimento parou a Marginal Pinheiros. Havia planejamento e disposição inéditos, com o objetivo de fazer a cidade ouvir suas reivindicações e rever o aumento de vinte centavos no transporte público. Apesar de admirado com o estado de ânimo, ainda via os protestos com ceticismo. Seria capaz de apostar que não daria em nada.

Na semana seguinte, o terceiro dia de ações já era o assunto principal da imprensa. No terminal de ônibus do Parque D. Pedro II, um novo confronto com a polícia resultou em quebra-quebra. Subindo a Avenida Brigadeiro, em direção à Paulista, alguns jovens jogavam pedras no vidro dos bancos. A polícia não sabia como agir. Naquela noite, foi feita uma foto marcante, publicada na Folha de S. Paulo, em que um policial aparecia com a cabeça ensanguentada, desequilibrado, tentando conter um manifestante.

Nessa noite, durante a cobertura, encontrei com um colega da USP. Disse que não estava entendendo a quebradeira. Ele me explicou sobre a tática black bloc nas manifestações, algo que já vinha sendo colocado em prática nos protestos antiglobalização ao redor do mundo. De acordo com essa concepção, se os movimentos pacifistas, iniciados nos anos de 1960 e 1970, foram influentes durante décadas, já haviam esgotado sua capacidade de provocar mudanças. A ação direta, que consistia em usar a violência simbólica contra objetos e prédios – e não contra pessoas – tinha um papel a cumprir. Passei a entrevistar e acompanhar alguns adeptos da tática black bloc e a escrever sobre eles.

As consequências políticas das manifestações, contudo, viriam antes do que se imaginava. Na quinta-feira, depois de apenas uma semana, os protestos fugiram do controle. Os grandes jornais pediram reação das autoridades para o quarto dia de manifestação. Cobravam uma atitude mais firme da polícia, que se sentiu autorizada a partir para cima. O resultado foi um show de horrores histórico, filmado por todos os ângulos e compartilhado entre milhões de pessoas. De um lado, a coragem dos manifestantes. De outro, a covardia da polícia e das autoridades. Essa foi a principal mensagem daquela noite.

Jovens cirandeiros apareciam apanhando covardemente dos policiais. Jornalistas foram feridos. As imagens eram captadas pelos celulares. As cenas passaram em horário nobre e se multiplicaram nas redes socais. A opinião pública se solidarizou diante dessa avalanche emocional e abraçou os manifestantes. Era hora de protestar, mesmo que fosse preciso tirar uma causa da cartola. A comoção causada pela quarta manifestação foi o estopim para que as ruas brasileiras fossem tomadas. A partir daquele momento, as coisas seriam diferentes.

Antes de junho de 2013, a cultura política no Brasil tinha um estilo próprio, criado no contexto dos movimentos sociais dos anos 1970 e 1980, que depois fizeram parte de governos majoritariamente progressistas durante a redemocratização. Os protestos de rua simbolizaram o rompimento com esse breve passado, que durou menos de três décadas. Depois do ponto de inflexão, a disputa política seguiu outros caminhos.

A relevância da mudança e a busca por uma explicação sobre o novo rumo se revelam nos diversos estudos e balanços que foram e estão sendo feitos sobre as jornadas de junho. Treze: A política de rua de Lula e Dilma, de Angela Alonso (Companhia das Letras), é o mais recente. No ano passado, Marcos Nobre publicou Limites da Democracia – de junho de 2013 ao governo Bolsonaro (Todavia). Em 2016, Eugênio Bucci escreveu A forma bruta dos protestos – das manifestações de junho de 2013 à queda de Dilma Rousseff (Companhia das Letras), apenas para citar a perspectiva de três pesquisadores e professores ligados à Universidade de São Paulo. Roberto Andrés, da Universidade Federal de Minas Gerais, publicou este ano A razão dos centavos: crise urbana, vida democrática e as revoltas de 2013 (Zahar).

O período foi também um divisor de águas para o jornalismo. Acompanhei o processo de perto. A crise no setor já vinha afetando outros países, mas pairou sobre o Brasil junto com as manifestações. A imprensa nunca mais seria a mesma. O abalo ocorreu não somente nas finanças da indústria de informação, mas na forma de cobrir os acontecimentos. Com o celular nas mãos, todos podiam dar sua versão dos fatos na timeline das redes, por meio de textos, fotos e vídeos. Não era mais necessário ser dono de rotativas ou de grandes geringonças eletrônicas para compartilhar sua visão de mundo. Essa horizontalidade aproximou as pessoas dos fatos e tornou a cobertura das redes mais quente do que a da grande imprensa.

O desafio era como fazer a curadoria dessa infinidade de conteúdos aos quais todos tinham acesso. O conceito de mídia-ativismo ganhou forma, peso e mostrou um caminho possível. De acordo com essa visão editorial, informação era poder e fazia parte da luta política. Em vez da suposta parcialidade do jornalismo profissional, o desafio seria disputar e emplacar narrativas bem-sucedidas para fazer a cabeça da audiência. O Mídia Ninja ganhou popularidade nesse contexto. Surgiu ainda em 2013 e seguiu voltado principalmente para a cobertura das causas identitárias, ligadas a uma esquerda emergente. Em 2014, deixei as redações e participei da criação da Ponte Jornalismo, que tinha o objetivo de cobrir segurança pública centrando o enfoque nas denúncias de abuso contra os direitos humanos. Outros colegas deixaram a Ponte para fundar os Jornalistas Livres, cuja motivação era disputar as narrativas com uma direita que já se mobilizava para derrubar a presidente Dilma Rousseff em 2016.

A ideia do mídia-ativismo e da disputa discursiva, contudo, nunca me seduziu. Tem um papel cada vez mais relevante na política, mas é bem diferente de jornalismo. Cada qual tem sua função. O ativismo, no entanto, atrapalha a apuração da notícia. Concordo que a verdade é inalcançável e que o repórter, quando escreve, não consegue escapar dos vieses de sua história, cultura e formação. Creio, porém, que a profissão exige um compromisso, mesmo que utópico, com a busca pela versão mais justa e imparcial dos acontecimentos.

A boa reportagem depende justamente da habilidade do jornalista de, em primeiro lugar, conseguir aproximar-se dos fatos para, depois, se afastar e definir um fio condutor que amarre os fragmentos, formando um todo capaz de atrair o leitor e fazer justiça à realidade observada. As redes sociais, no entanto, cresceram e se popularizaram premiando os que gritavam mais alto para engajar a audiência pela emoção, ódio e medo. Ninguém parecia disposto a refletir. Todos queriam uma boa briga.

Ao longo da década, contudo, a ideia da disputa de narrativas e do uso das redes foi sequestrada pela extrema direita. Eles nadaram de braçadas quando a violência entrou de vez na política. O discurso maniqueísta ganhou a adesão dos religiosos fundamentalistas, que levaram o debate da moral privada para o centro da política. Os fatos foram sendo escanteados. Os progressistas perderam o rumo, mas conseguiram evitar o desastre na eleição de 2022.

Os ânimos, porém, seguem acirrados. Se o ativismo e a disputa de narrativa continuam tendo papel relevante, o tom belicoso dos embates já se mostrou autodestrutivo. Favorece os senhores da guerra, aglutinados em torno de suas seitas armadas e uniformizadas. A democracia pede moderação e racionalidade. As autoridades precisam tomar decisões que possam representar o interesse da coletividade. A esfera pública precisa voltar a ser uma arena de confronto de ideias. O compromisso com a verdade factual, com a racionalidade, a ciência e com o bom jornalismo fortalece esse debate construtivo, enquanto a defesa cínica de narrativas sem sentido favorece o poder dos autoritários. Precisamos aprender com a história, porque não há margem para novos erros.

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