Para Vahan, o desafio será aproximar mais a USP da sociedade e do governo

Em entrevista, o futuro reitor da USP fala sobre as oportunidades e os desafios da nova gestão

Por - Editorias: Universidade
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Professor Vahan Agopyan assume o cargo de reitor da USP no dia 25 de janeiro – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

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Em 25 de janeiro, o engenheiro Vahan Agopyan assumirá a tarefa de gerir a USP e será o 27º reitor da maior universidade pública do Brasil. Nascido na Turquia e naturalizado brasileiro, Agopyan já foi chefe do Departamento de Engenharia de Construção Civil da Escola Politécnica (Poli) da USP, assim como diretor da Escola e, também, diretor-presidente do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT), conselheiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e Coordenador de Ciência e Tecnologia da Secretaria de Desenvolvimento do Estado de São Paulo.

Em entrevista à Clarissa Turra publicada pela Comunicação da Poli e reproduzida pelo Jornal da USP, o novo reitor da USP, nomeado para atuar a partir de 2018 em um mandato de quatro anos,  comenta as oportunidades e os desafios da nova gestão. Um deles é fortalecer, em toda a Universidade, a internacionalização. “É essencial para alcançarmos excelência”, considera Agopyan sobre o tema.

“A internacionalização não tem a ver apenas com mobilidade de alunos e professores, mas com a criação de um ambiente internacional de ensino e pesquisa”, completa. O outro desafio, junto à oportunidade inerente, é aproximar sociedade, universidade e governo por meio da criação de grupos de trabalhos multidisciplinares para a proposição de políticas públicas.

Temas tais como sustentabilidade e o perfil do “profissional gestor”, também estão em pauta. “Sustentabilidade significa desenvolver soluções que promovam equilíbrio entre questões sociais, culturais, econômicas e ambientais. Isso vale para todas as nossas atividades, inclusive para a vida familiar”, diz o futuro reitor.

Se os desafios existem, também existem soluções. E, segundo ele, o conjunto de incertezas que permeiam a vida de um engenheiro torna-se uma poderosa ferramenta de gestão, inclusive universitária. “Engenharia é administrar o risco. Por isso, temos facilidade para atuar em áreas administrativas, financeiras e de recursos humanos, pois estamos acostumados a trabalhar com incertezas”, ensina ele. “É algo rotineiro na cabeça de um engenheiro, uma ferramenta de gestão”, acredita.

Leia, a seguir, a conversa com Agopyan:

Durante o momento de comemoração de sua nomeação para futuro reitor da USP, junto ao grupo de professores, funcionários, pesquisadores e convidados do Departamento de Engenharia de Construção Civil da Escola Politécnica, no dia 17 de novembro, você ressaltou que a extensa experiência no âmbito do Departamento fortalece sua atuação na reitoria. Poderia comentar isso?

Vahan Agopyan – Em minha fala durante a confraternização, o que destaquei é que nosso Departamento, no início, teve a felicidade de contar com muitos docentes jovens. Essa geração inclui os professores Alex Abiko, Eduardo Ioshimoto, Hermes Fajersztajn, Moacyr Eduardo Alves da Graça, Paulo Helene, Orestes Marracini Gonçalves, o saudoso Vanderlei Flausino e eu. Nesse grupo, alguns de nós tivemos a oportunidade de assumir tarefas e responsabilidades que, atualmente, jovens doutores raramente assumem. Eu, com quarenta anos, tive cargo de chefia. Na década de 1990, fui chefe de departamento sendo apenas um Professor Doutor, e coordenei um programa de pós-graduação como um doutor recente. Esse foi um período com boas experiências para todos nós. O Departamento, então, foi um bom ambiente para me preparar para atividades administrativas acadêmicas.

Em uma das reportagens publicadas sobre sua nomeação, chamou atenção a seguinte frase: “O engenheiro é o profissional que toma decisões na incerteza”. Como funciona o processo da tomada de decisão na área da engenharia?

Vahan Agopyan – Na engenharia somos treinados para isso, tomamos decisões em cenário de incertezas. Em tudo o que fazemos, há uma certa probabilidade de insucesso. Nossos projetos, nossa produção, têm incerteza, pois não é possível modelar como se desejaria: há sempre uma porção de incerteza, e essa incerteza varia conforme o grau de responsabilidade e de dificuldade. Por exemplo, projetar e construir um liquidificador traz menos risco para os usuários do que projetar um carro. Uma falha em um carro pode levar a uma perda humana, enquanto uma falha em um liquidificador faz com que, no máximo, seja necessário comprar outro. O engenheiro, portanto, leva em conta essas ponderações. Engenharia é risco. Mesmo com aplicação de uma matemática sofisticada, a nossa atuação é ainda muito relacionada com incertezas. Por isso, os engenheiros se dão bem em áreas administrativas, financeiras e de recursos humanos, pois estão acostumados a trabalhar com incertezas. Nada nos oferece 100% de garantia, e isso nos leva ao trabalho de quantificar. Nós quantificamos e assumimos os riscos, o tempo todo.

Como você definiria o perfil clássico de um engenheiro, e no que ele ajuda na gestão da maior universidade pública do Brasil?

Vahan Agopyan – O fato de não ter certeza do que vai acontecer é o que nos define. O engenheiro, então, faz uma tabela de riscos, verifica as consequências desses riscos e a possibilidade de eles ocorrerem. Checa, portanto, os cuidados que ele tem que tomar e somente assim segue adiante. É algo rotineiro na cabeça de um engenheiro: uma ferramenta de gestão. Assim, o engenheiro ataca o problema mais grave e que pode ter consequências piores.

Então estamos falando de um sucesso na gestão, correto?

Vahan Agopyan – Estamos falando não só sobre a gestão de um projeto, mas também sobre a sua execução. Por exemplo, no momento da definição de um projeto de engenharia que visa ao conforto térmico, o que é mais grave? Levar em conta o efeito do vento? Ou, do calor? A resposta: depende do projeto. Ou, ainda, o que é mais grave no momento da construção, subestimar a espessura da argamassa ou os recursos necessários ao assentamento do bloco? Todas essas questões devem ser levadas em conta para que atuemos.

As respostas para essas questões são formuladas não somente com base em conhecimento tecnológico, mas também no empírico, ou mesmo no adquirido na prática cotidiana?

Vahan Agopyan – Sim. Por exemplo, quando um juiz pergunta se um acidente ocorrido foi por falha de engenharia, muitas vezes é por um desconhecimento do fenômeno como um todo. Comumente, o fato que provocou o acidente em questão não havia ocorrido antes, era desconhecido, e as pessoas não estavam preparadas para resolver esse tipo de problema. As novas ciências da engenharia surgiram por causa de acidentes gravíssimos. Na década de 1960, rompeu uma barragem na França, foi um acidente com muitos mortos porque gerou uma espécie de onda enorme, como um tsunami fora do mar, que destruiu tudo por onde passou, causando perdas humanas e danos ambientais. Foi quando surgiu a mecânica das rochas. Até então, uma rocha era considerada algo inerte, tal como um material sólido sem risco nenhum. Assim, criou-se uma ciência da engenharia por causa de um desastre. Outro exemplo, a mecânica dos solos é da década de 1930, não tem nem cem anos. Já o cálculo probabilístico de estruturas é dos anos 1970, 1980. Tais conhecimentos são muito recentes.

Como inovar na construção civil?

Vahan Agopyan – A construção civil trabalha com “produtos” que são adquiridos, como residências e edificações institucionais (por exemplo, escolas), e que têm um ciclo de vida muito extenso, diferentemente de um aparelho celular, que é trocado a cada dois anos. Como trocamos o celular a cada dois anos, uma inovação nesse tipo de objeto pode ser implementada com mais rapidez. Por outro lado, a casa em que moro já tem 20 anos e, desde então, houve evolução no conhecimento, mas a casa continua como era há duas décadas. Explico melhor: por exemplo, utilizo um sistema predial que não previa cabeamento de rede, o que já acontece em um apartamento novo. Entendo que você não vai descartar um apartamento porque ele não tem cabeamento de rede. Você faz uma reforma, um retrofit. Portanto, é um bem durável cujo trabalho de inovação é de longo prazo. Uma estrada, por exemplo, como a Via Anchieta, continua existindo, mesmo com a construção da Rodovia Imigrantes. E o Caminho do Mar só foi fechado porque as pessoas não compreenderam que a velocidade lá devia ser de 30 km/h, porque foi construída originalmente para a passagem de charretes. Inovar na construção civil é um trabalho cuidadoso, de longo prazo.

Veja como funciona a evolução do conhecimento: quanto mais aprendemos com o que acontece, mais otimizamos nossos produtos. Nosso conhecimento faz com que sejamos mais ousados. Uma ponte construída no século XXI é mais delgada e mais leve do que a de cinquenta anos atrás, e muito mais leve do que a de cem anos atrás. A evolução nos torna mais confiantes. Já o desconhecimento faz com que nos protejamos. Ousamos a ter menos reservas, menos sobras de desempenho porque sabemos melhor como as coisas funcionam. A evolução nas ciências da engenharia modificou muito as coisas. A evolução do automóvel deixa bem claro como hoje ele é mais seguro e mais leve, com menos gasto em material. Antes da Segunda Guerra, carros seguros eram os carros robustos. Atualmente, o carro deforma-se numa batida para proteger o motorista e os passageiros. Ele absorve o impacto para que os passageiros não sofram. Antigamente era o contrário, buscava-se a rigidez do automóvel era visando à segurança dos ocupantes, o que se sabe hoje não é o melhor caminho.

Prédio da reitoria da USP, no campus Cidade Universitária, em São Paulo – Marcos Santos/USP Imagens

Então, na construção civil, o processo de inovação visa ao uso mais eficiente de materiais e aumento da segurança de desempenho das edificações de modo concomitante?

Vahan Agopyan – No nosso caso, na engenharia, com mais conhecimento pode-se projetar com mais segurança, menos gasto e com a redução do uso de elementos construtivos e materiais que, em princípio, se mostravam necessários para a eficiência do conjunto construído. Por exemplo, este edifício onde estamos, que abriga a sede da reitoria da USP e foi construído entre o fim da década de 1950 e início dos anos 1960, tem pilares enormes. Hoje, não gastaríamos nem metade desse material para projetá-lo e construí-lo de modo eficiente e seguro. Mas, naquela época, os projetistas tinham evoluído até certo ponto do conhecimento que indicava, por segurança, a necessidade de uso dessa solução de pilar.

A internacionalização foi um importante legado de sua gestão na diretoria da Escola Politécnica. Como reitor, pretende fortalecer ainda mais essa característica em toda a USP?

Vahan Agopyan – A internacionalização é essencial para alcançarmos excelência. É preciso ter parâmetros internacionais de qualidade para buscar excelência. Na rngenharia, não temos dúvida nenhuma: hoje, o engenheiro trabalha em grupos internacionais. Li recentemente uma reportagem sobre a Embraer, que mostrava como cada pedaço de um avião é fabricado em um lugar diferente. Seus engenheiros falam inglês porque vêm de vários países. Isso é muito importante. Para a Escola Politécnica, era uma condição o engenheiro ser internacional para que conseguíssemos mostrar e buscar excelência. E para o aluno, é importante conviver em um ambiente onde se trabalha com grupos internacionais. O aluno terá parceiros que estão na Índia, na China, nos Estados Unidos e na Espanha. Atualmente, os projetos da área de engenharia acontecem 24 horas do dia, pois, enquanto um dorme, outro trabalha. Esse ambiente, portanto, é fundamental. O mesmo vale para a USP.

Não conseguiremos ter parâmetros de qualidade se não tivermos esse relacionamento internacional. A internacionalização não tem a ver apenas com a mobilidade de alunos e professores, ela envolve a criação de um ambiente internacional de ensino e pesquisa. É esse esforço que estamos fazendo, adotando o modelo da Poli para a Universidade de São Paulo. Se você tem convênios internacionais fortes, consequentemente conseguirá mandar seus alunos para fora do país e receberá os de lá, ampliando o convívio nesse ambiente internacional. Um aluno francês em sala de aula altera totalmente o comportamento daquela sala. O mesmo acontece com um aluno nosso que passa um tempo fora e retorna. Atualmente, cerca de 20% dos alunos da Politécnica vão para o exterior. Metade vai para obter um duplo diploma e metade permanece por curtos períodos. A partir do terceiro ano, as salas de aula do curso da Poli já têm um ambiente internacional.

Um dos caminhos para criar esse ambiente na USP é aumentar a quantidade de convênios de pesquisas internacionais?

Vahan Agopyan – Aumentar e fazer pesquisa conjunta. É isso que está sendo feito.

Atualmente, o tema da internacionalização tem relação direta com os esforços que estão sendo feitos no sentido de superar a crise financeira e angariar recursos?

Vahan Agopyan – Tem relação. Obviamente, um número reduzido de bolsas de estudos e menos recursos para pesquisa prejudicam a criação desse ambiente. Mas, no Estado de São Paulo, existe um importante agente financiador que é a Fapesp. Se você tem bons projetos de pesquisa, você consegue recursos para investir no Brasil. Com uma boa proposta, é possível montar um grupo de pesquisa conjunta, aqui e no exterior.

Essa mensagem é interessante não só para o aluno da Escola Politécnica, mas para os alunos da USP, correto?

Vahan Agopyan – Sim. São Paulo ainda tem uma condição privilegiada, mas precisa de bons projetos. No âmbito de todas as áreas de conhecimento, escolas e faculdades que integram a USP, consegue-se montar um projeto internacional, com um parceiro no exterior. E isso valoriza tanto nossos alunos, como nossos professores e pesquisadores, pois eles se tornam reconhecidos no exterior.

Nesse sentido, tanto professores quanto alunos podem participar de maneira mais ativa na interlocução com a nova reitoria e desenvolver esse tipo de projeto…

Vahan Agopyan – Na Politécnica isso já é rotina. Não é tão rotineiro em alguns ambientes por uma série de razões, mais ideológicas do que de competência.

Talvez isso seja um desafio. Oportunidades e desafios caminham juntos. Nesse sentido, em âmbito nacional, você declarou que irá criar grupos de trabalho com foco em gerar conhecimento e realizar pesquisas junto aos órgãos públicos brasileiros. Como funcionarão esses grupos?

Vahan Agopyan – Trata-se de grupos que buscarão criar propostas de políticas públicas. Na USP, temos especialistas em diversas áreas que produzem conhecimento avançado diretamente relacionado a diversos desafios enfrentados pela esfera do poder público. Nós, como instituição, por exemplo, não propusemos para o Estado de São Paulo uma ideia de política pública para o ensino básico, nem para o ensino superior. Nós temos universidades federais, estaduais, privadas, instituições isoladas, Fatecs, a Universidade Virtual, e ainda não elaboramos nenhuma proposta. As coisas seguem caminhando no poder público, sem nosso envolvimento. Não podemos, portanto, cobrar nada de ninguém porque nós ainda não propusemos nada. Nós é que temos mais condições para apresentar projetos de política pública. Não podemos criticar nossos deputados e nossos secretários, pois ainda precisamos contribuir.

Temos, por exemplo, problemas relacionados à energia que não são mais problemas que envolvem apenas a engenharia. Hoje, a questão da energia no Estado de São Paulo é legal. Está também no âmbito do direito, e não apenas da engenharia, porque há uma série de restrições e dificuldades legais que precisam de um bom arcabouço jurídico. Então, poderíamos reunir engenheiros da Escola Politécnica, integrantes da Faculdade de Direito e sociólogos da Faculdade de Filosofia, dentre outros, e buscar apresentar uma proposta. Poderíamos, assim, também angariar mais recursos.

Nesse sentido, como será possível angariar mais recursos?

Vahan Agopyan – Acho difícil para o Estado fornecer mais recursos diretos para a Universidade, mas ele poderia criar modelos de interlocução a partir dos quais a Universidade passasse a ajudá-lo a resolver seus problemas.

O Estado de São Paulo tem cerca de 640 municípios, sendo 500 de pequeno e médio portes. Não vamos resolver seus problemas, mas podemos e devemos identificar prioridades, orientar, propor, apresentar soluções, realizar treinamentos para equipes locais. Não estou pensando em fazer planos diretores para 500 municípios pequenos, pois prestar serviços rotineiros não é tarefa da USP. Mas podemos orientar, treinar, propor checklists.

Especificamente na área de conhecimento do Departamento de Engenharia de Construção Civil da Escola Politécnica, há algum tema que considere prioritário?

Vahan Agopyan – No Departamento, existe a área de Engenharia Urbana, que atinge esses 500 municípios. Há quinze, vinte anos atrás, contribuímos fortemente em toda a parte de qualidade de construção, por meio de vários docentes. Isso ajudou o Ministério das Cidades, por exemplo. Mas sempre se tratou de iniciativas realizadas por pessoas físicas, por um docente. Acredito que ao criar novas iniciativas capitaneadas pela pessoa jurídica – o Departamento, a Escola Politécnica, a USP -, é possível valorizar o caráter multidisciplinar do conhecimento. A multidisciplinaridade é uma ferramenta fundamental, pois permite visão sistêmica e integrada sobre a questão a ser estudada. A equipe do laboratório de estudos em materiais da construção civil, do professor Vanderley Moacyr John, é um exemplo: há engenheiros civis, engenheiros de materiais, físicos, químicos e biólogos, entre outros.

Em seu livro Os Desafios da Sustentabilidade na Construção Civil (ed. Blucher, série Sustentabilidade José Goldemberg), em coautoria com o professor Vanderley Moacyr John, você trata de sustentabilidade. Existe algo relacionado ao tema que gostaria de ressaltar entre os objetivos de sua gestão, a partir do próximo dia 25 de janeiro? Imagino que esteja, por exemplo, buscando sustentabilidade financeira.

Vahan Agopyan – Vamos tratar o tema sustentabilidade em diversos aspectos, o que inclui o viés financeiro. Por exemplo, nossos campi têm que ser sustentáveis. Ganhamos um concurso internacional entre universidades de proposta de projeto de campus sustentável, chamado Sustainable Campus Excellence Award, concedido pela Rede Internacional dos Campi Sustentáveis (ISCN, na sigla em inglês), no dia 14 de junho de 2016, e agora temos a missão de implantá-lo. O projeto inclui mobilidade; redução da utilização de água, de eletricidade e de energia em geral; manejo sustentável de lixo urbano e orgânico; além de toda a questão que envolve a valorização da presença de áreas verdes e a implantação de compostagem. Quando esse projeto foi feito, o professor Marcelo Romero era o superintendente de gestão ambiental da USP.

O projeto será, então, a oportunidade de uma vivência prática na USP dos conceitos que definem sustentabilidade?

Vahan Agopyan – Sim. Tanto nas edificações, como nas soluções urbanas.

A sustentabilidade é um conceito de como fazer o desenvolvimento sem agredir a natureza, sempre considerando o necessário equilíbrio entre questões ambientais, sociais, culturais e econômicas. Então, isso obviamente é importante para a construção civil, pois somos um setor com índice muito elevado de consumo de matérias-primas. Mas isso vale para todas as nossas atividades, inclusive para a nossa vida familiar. Então, esse conceito de sustentabilidade deve ser implementado pela USP, inclusive porque desenvolvemos na instituição como um todo estudos relevantes em diversas áreas de conhecimento que são relacionadas a ele.

Atualmente, fala-se de economia circular, em que o resíduo de uma edificação, por exemplo, torna-se matéria-prima de outra. Portanto, já estamos falando de algo que não considera somente a dinâmica de estudos “do berço ao túmulo”. Já temos dois grupos de pesquisa trabalhando intensamente em economia circular.

A Escola Politécnica é reconhecida pela tradição em formar os melhores engenheiros do País. Ocupa com frequência o primeiro lugar no Guia do Estudante, publicação anual da Editora Abril. Quanto aos temas cota social e cota racial, você tem alguma mensagem para os alunos?

Vahan Agopyan – Sim. Falo do ponto de vista do engenheiro, de maneira bem pragmática. Queremos ter, como alunos, os melhores talentos. Até recentemente, só conseguimos atrair aqueles talentos que tinham a oportunidade de se preparar para o nosso vestibular. Trabalhávamos, assim, com aproximadamente 10% do universo dos nossos jovens. Os outros 90%, não conseguíamos atingir. Provavelmente, nesse universo de 90% há talentos que perdíamos, com as cotas iremos abarcá-los. Ainda do ponto de vista pragmático, com a cota social, o aluno que vai chegar é tão talentoso quanto os outros que já ingressavam pertencentes ao universo de 10% citado. O que é necessário, e já está sendo feito, é que o aluno que ingressa com possíveis deficiências em ensino – como em português ou matemática -, por exemplo, receba (e isso a reitoria já está oferecendo) cursos gratuitos online. No caso da Escola Politécnica, por exemplo, o aluno precisará ter excelente desempenho em matemática, uma disciplina que tem muito peso na grade curricular. Então, possivelmente, precisará de reforço nessa área do conhecimento. Assim, essas deficiências pontuais serão resolvidas com cursos concebidos para adequar os alunos em cerca de seis meses.

Tem outra coisa, também pragmática. Quero formar líderes. Uma universidade de excelência não forma profissionais apenas, forma líderes, pessoas que vão mudar a sociedade para melhor. Não posso formar líderes de um mesmo grupo social. É interessante que eu tenha pessoas com outras origens sociais. Isso não acontece só na USP. Grandes universidades do exterior reservam uma cota de bolsas para alunos que não podem pagar, pois consideram importante ter alunos de realidades sociais diferentes para que todos entendam a complexidade da sociedade contemporânea. São palavras de um reitor de Stanford, universidade que há vinte anos reserva cotas. Já aqui na USP, as cotas também estão repercutindo. Um exemplo ocorreu em uma sala de aula de disciplina de Urbanismo, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU). Antes das cotas, os alunos que estudavam tinham todo o material completo – pranchetas, softwares de CAD, tudo direitinho. Acabada a aula, todos iam para casa. Agora, com o início da inserção de um maior número de alunos vindos de escolas públicas, uma parte dos alunos do primeiro ano não vai embora para casa quando a aula acaba. Isso porque eles não têm uma mesa de 1,5 m em casa para desenhar, nem computadores, tampouco o material completo, e precisam estudar aqui [na USP]. O resultado é que a partir deste ano, a FAU resolveu dar um kit básico para todos os alunos que ingressarem, seja ou não via cota social. Além disso, como esses alunos permanecem mais tempo na faculdade, o professor tem condições de interagir mais com eles.

Nas aulas de sociologia acontece o mesmo. Certa vez, um professor comentou sobre violência em áreas periféricas ao centro da São Paulo, muitas delas sob domínio do tráfico. Um dos alunos rebateu, dizendo que se sentia tranquilo morando em uma dessas áreas, porque ao voltar tarde da noite para casa após a faculdade, sabia que sua casa e sua família estariam em segurança, oferecida exatamente por se tratar de uma área dominada pelo tráfico.

A cota é importante para a USP e universidades em âmbito mundial, não é assistencialismo. É claro que existem problemas: muito provavelmente esses alunos precisarão de apoio para alimentação, bolsa para permanecer estudando aqui (na USP), o que significa que teremos que buscar recursos adicionais para a permanência desses estudantes. É um desafio, mas o curso em si não vai mudar. A preocupação é com o preparo prévio desses alunos. São jovens talentosos que não tiveram oportunidade.

Isso é, na verdade, um cenário de oportunidades e desafios. Existem os problemas, mas há planos para superar os problemas, correto?

Vahan Agopyan – Teremos desafios, mas também condições de garantir que esse jovem, sem possibilidades financeiras e com talento, possa continuar seus estudos. Em 2021, o percentual mínimo de alunos ingressantes vindos de escolas públicas será de 50%, em todos os cursos. Curiosamente, a Medicina já tem um número alto de cotistas; mas o curso de Relações Internacionais tem um número baixo. Para um aluno de classe média baixa, cursar medicina ou engenharia representa uma ascensão social muito mais provável do que entrar em Relações Internacionais, área na qual arrumar emprego é mais difícil e o salário, muitas vezes, mais baixo. O que quero chamar atenção, em princípio, é que alguns cursos mais concorridos, como Medicina, têm, surpreendentemente, percentual relevante de pessoas com menor poder aquisitivo entre os matriculados. Medicina não tem somente alunos da elite, como muitos pensam. A profissão tem aceitação no mercado. O jovem de classe média baixa se esforça para entrar em cursos que têm índices melhores de empregabilidade.

Uma pessoa esforçada muitas vezes chega mais longe do que uma pessoa que teve acesso a mais recursos, não?

Vahan Agopyan – Isso acontece em qualquer profissão. Certa vez, vi um corredor de Fórmula 1 dizendo que sua profissão não tinha segredo, não era apenas uma questão de dom. Esses profissionais trabalham várias horas por dia, sem parar. Aqui na USP, todos os professores talentosos trabalham mais de 60 horas por semana. Não se trata de ser um gênio, é preciso ter força de vontade, aceitar desafios. Isso vale tanto aqui como fora da universidade.

Gostaria de deixar uma mensagem para a comunidade da USP?

Vahan Agopyan – A universidade é uma instituição milenar porque soube se adequar para atender e até antecipar as expectativas da sociedade, e superar desafios. Cabe a nós manter essa postura.

Clarissa Turra / Assessoria de Comunicação da Poli

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