Universidade é protagonista em controle biológico de pragas

O professor Italo Delalibela, da Esalq, fala sobre o avanço das tecnologias que utilizam insetos e microrganismos no lugar de agrotóxicos

 21/10/2020 - Publicado há 1 ano
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O uso de recursos biológicos — como bactérias, fungos e insetos —, no lugar de pesticidas químicos, para o controle de pragas agrícolas cresce em ritmo acelerado no Brasil, e as pesquisas desenvolvidas na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP em Piracicaba, têm tido um papel fundamental nisso. Diversos desses produtos que já estão em uso no campo foram desenvolvidos dentro da própria Esalq ou por egressos da Universidade, que cada vez mais fazem a transição de expertise da academia para o setor privado.

“Se você pegar a maioria desses microrganismos que estão no mercado, de alguma forma eles foram isolados, selecionados ou desenvolvidos dentro da academia”, diz o pesquisador Italo Delalibera Jr., professor do Departamento de Entomologia e Acarologia da Esalq, convidado desta semana na série Você e o Pesquisador, que busca mostrar como as pesquisas feitas na universidade revertem em benefícios práticos para a sociedade.

Especialista em patologia e controle microbiano de insetos, Delalibera é um dos pesquisadores principais do SPARCBio, um centro de excelência em pesquisa sobre controle biológico de pragas, patrocinado pela Fapesp e pela empresa Koppert Biological Systems, e diretor da Unidade Embrapii de Biocontroladores de Pragas Agrícolas, que tem um portfólio de 20 projetos de inovação tecnológica em parceria com empresas.

Uma das principais vantagens de se trabalhar com empresas, segundo ele, é a possibilidade de fazer pesquisas mais direcionadas para problemas práticos do setor, gerando resultados que podem ser rapidamente absorvidos pelo mercado, em vez de ficar “na prateleira da biblioteca”. Dois exemplos recentes, lançados em 2017, são fungos usados como biopesticidas no controle de pragas dos citrus e da soja.

O controle biológico consiste no uso de inimigos naturais das pragas para controlar infestações no campo. Esses inimigos podem ser microrganismos (como fungos, vírus ou bactérias) ou insetos que matam outros insetos. No caso dos microrganismos, eles são pulverizados sobre a lavoura da mesma forma que os pesticidas químicos (agrotóxicos).

Cerca de 95% do controle de pragas no Brasil hoje, segundo Delalibera, ainda é feito com produtos químicos, mas o mercado de produtos biológicos cresce cerca de 20% ao ano. Além das vantagens ambientais, esses produtos biológicos têm o diferencial de serem, na sua maioria, desenvolvidos e produzidos in loco, no Brasil, por dezenas de pequenas e médias empresas de tecnologia — diferentemente da indústria de agroquímicos, que é dominada por um pequeno grupo de grandes multinacionais estrangeiras.

Todas as projeções feitas nos últimos anos sobre o crescimento do mercado de biológicos no Brasil, segundo ele, foram superadas com muita antecedência, “o que significa que está crescendo muito mais do que se previa no passado”. Um dos grandes desafios foi mudar a mentalidade do produtor para confiar nesses produtos, relembra Italo. Um divisor de águas foi a chegada de uma lagarta ao Brasil, cinco anos atrás, que causou prejuízos bilionários ao agronegócio, e que era resistente aos químicos disponíveis. Quem resolveu o problema foram os biopesticidas, baseados em vírus e bactérias. “O produtor testou, aprovou e passou a produzir localmente o próprio biopesticida. Desde então mudou bastante essa aceitação.”

A pesquisa básica também tem um papel essencial nesse processo, na prospecção, identificação e caracterização dos microrganismos com potencial para atuar como biopesticidas. O Laboratório de Patologia e Controle Microbiano da Esalq mantém uma coleção com cerca de quatro mil microrganismos entomopatogênicos (que causam doenças em insetos), que serve como repositório e fonte de material biológico para pesquisas.

“Não tenho dúvida que a universidade está cumprindo o seu papel e tem prestado muitos serviços à sociedade”, afirmou Italo. “Talvez uma das nossas falhas seja a capacidade de comunicar isso para a sociedade.”

A série Você e o Pesquisador é uma iniciativa da Pró-Reitoria de Pesquisa da USP, vinculada à exposição virtual Você e a USP – A Universidade de São Paulo sempre presente na sua vida, que busca mostrar a contribuição e o impacto das pesquisas científicas produzidas pela USP para a sociedade brasileira ao longo dos anos. As entrevistas acontecem a cada 15 dias e as gravações ficam disponíveis no Canal USP.


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