Ser mulher na Universidade

Professoras, alunas e funcionárias da USP expõem suas visões sobre conquistas e desafios da mulher

Por - Editorias: Universidade
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Apesar de as mulheres terem sido eleitas apenas uma vez para assumir a Reitoria da USP e de serem minoria entre seus principais dirigentes – atualmente, não ocupam nem um quinto dos cargos da gestão atual, reflexo de um cenário nacional em que estão em apenas 21,7% dos postos mais altos no setor público -, dentro da comunidade universitária elas são muitas. Em 2014, as mulheres eram quase metade dos alunos (45.819) e do quadro de funcionários administrativos (8.399) e quase 40% (2.312) do corpo docente – ainda que este número caia para apenas 15,4% quando se trata de cargos como professoras titulares, e que a representatividade caia ainda mais, ou se reduza a zero, quando se trata de mulheres negras ou trans.

Este é apenas um dos sintomas da desigualdade de gênero na Universidade. Neste sentido, vêm aumentando as iniciativas para combater essa disparidade e lutar contra a violência sexual e de gênero, como a formação de coletivos feministas e a criação da rede de professoras e pesquisadoras Não Cala! e do Escritório USP MulheresMesmo com esses avanços e conquistas pessoais e profissionais, para as mulheres da USP ainda há muito o que conquistar. Conversamos com elas para saber o que e mostramos aqui algumas das milhares de mulheres que participam da construção da Universidade.

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Mayara Paixão, estudante do terceiro semestre de Jornalismo – Foto: Luenne Neri/USP Imagens

A gente tem que conquistar a compreensão de que a Universidade tem que defender a igualdade entre os gêneros

Em seu primeiro ano de graduação, foi mediadora e uma das responsáveis pela organização independente de um debate sobre assédio na profissão, motivada pela série de denúncias de machismo no jornalismo ocorridas na época. Atualmente, é uma das diretoras do núcleo de antiopressão do centro acadêmico do qual faz parte. Para ela, apesar de existirem iniciativas positivas em seu combate, o machismo é institucionalizado e, nesse sentido, as mulheres ainda têm muito o que conquistar – desde a compreensão de que a Universidade deve defender a igualdade entre os gêneros até fazer com que os cursos levem as pessoas a pensarem nisso.

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Eva Blay e Vera Soares, do Escritório USP Mulheres – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Socióloga e estudiosa do movimento feminista e dos direitos humanos, Eva Blay coordena hoje o Escritório USP Mulheres, iniciativa que conta com a assessora Vera Soares, pesquisadora na área de Políticas Públicas de Gênero, Relações de Trabalho e Movimento de Mulheres.

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Horrana Porfirio Soares, aluna do quarto ano de Design – Foto: Luenne Neri/USP Imagens

Eu espero muito que, em algum momento, as outras minas negras que entrarem aqui não tenham que passar pelas coisas que eu passei para conseguirem se fazer presentes no espaço acadêmico, profissional, militante, como mulher, como mulher negra

Empenhada, atualmente, numa pesquisa sobre designers negros, percebe que é necessário levantar a questão racial e feminina em tudo que faz, já que, segundo ela, até então não existia essa preocupação no ambiente acadêmico do qual faz parte. Pessoalmente, acredita que já conquistou o que queria – desde o fato de entrar na Universidade até ter conseguido que sua voz fosse ouvida nos espaços que ocupa -, mas deseja que outras pessoas que estão na mesma condição que ela possam ter as mesmas oportunidades que conquistou.

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Evelyna Bloem Souto, única mulher da primeira turma do curso de Engenharia Civil da USP em São Carlos – Foto: Nathalia Nicola/EESC

Para poder visitar uma obra em Paris, oportunidade em que havia recebido uma bolsa de estudos, Evelyna precisou se vestir de homem: prendeu o cabelo, desenhou barba no rosto e colocou galochas. Deu aulas de geotecnia na Universidade até sua aposentadoria.

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Marina Zanatta Ganzarolli, pesquisadora do Núcleo de Direito e Democracia do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e cofundadora da Rede Feminista de Juristas – Foto: Luenne Neri/USP Imagens

Foi aqui que eu virei mulher, feminista, acadêmica, me apaixonei pelo direito e encontrei os instrumentos que eu acredito que podem transformar um pouco a realidade das pessoas

Graduada e mestra em Direito pela USP e referência na área de Direito com ênfase em estudos de gênero, Marina atribui à Universidade tudo o que conquistou até hoje. Ainda assim, como mulher, afirma que é preciso conseguir alcançar, dentro da academia e da própria estrutura da Universidade, cada vez mais espaço entre os docentes e pesquisadores e, assim, ocupar de forma mais igualitária os espaços de liderança.

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Raquel Virgínia (à esquerda) e Assucena Assucena (à direita), vocalistas da banda As Bahias e a Cozinha Mineira – Foto: Luenne Neri/USP Imagens

A USP é uma Universidade que tem uma raiz racista e patriarcal muito grande e é por isso que não tem mais mulheres trans, negras, (enfim), mulheres nos espaços de poder – Assucena

Ex-alunas da História, viram o grupo musical do qual fazem parte nascer na Universidade. Transexual, assim como a colega, foi nos espaços construídos pelos próprios estudantes da USP que Assucena afirma ter sido embasada sobre o feminismo e aprendido a respeitar suas companheiras. Também foi lá que diz ter conquistado uma consciência política mais apurada, inclusive no sentido de perceber que há muito nela há ser melhorado quando o assunto é representatividade nos espaços de poder da instituição. Semelhante à companheira, Raquel fala da importância que o espaço da Universidade e das pessoas que conheceu ali dentro tiveram para a construção de sua consciência social e para a abertura de diversas possibilidades de pensamento. Para ela, ainda é preciso conquistar uma Universidade que seja um espaço, de fato, público, feito e frequentado por ele e, assim, mais associada à realidade.

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Mayana Zatz, coordenadora do Centro de Pesquisas do Genoma Humano e Células-Tronco da USP – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Autoridade em genética humana, Mayana já foi premiada dentro e fora do País. Foi uma das principais vozes na discussão sobre o uso de células-tronco embrionárias em pesquisas no Brasil.

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Adriana Alves, professora do Departamento de Mineralogia e Geotectônica do Instituto de Geociências – Foto: Luenne Neri/USP Imagens

Eu acho que tem muitas questões que precisam ser discutidas, muita coisa naturalizada que precisa ser revista

Apesar do trabalho que desenvolve com estudos sobre petrologia ígnea, Adriana afirma que, ao buscar aumentar o diálogo com seu alunos e alunas e acolher suas denúncias, reclamações e anseios, sua maior conquista foi tornar a Geologia um lugar um pouco mais democrático. Nesse sentido, atuou na criação da Comissão de Ética e Direitos Humanos do instituto, da qual é presidente. Como mulher, para ela, ainda há muito o que conquistar, começando pela mudança da relação entre professores homens e alunas mulheres – já que muitas reclamam de piadas machistas, insinuações desrespeitosas e outras posturas inadequadas tomadas por eles – e indo até o reconhecimento e valorização de trabalhos desenvolvidos por mulheres.

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Marcia Thereza Couto Falcão, uma das coordenadoras da Rede Não Cala! USP Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

A rede é formada por professoras e pesquisadoras pelo fim da violência sexual e de gênero na Universidade. Marcia leciona no Departamento de Medicina Preventiva da USP e desenvolve pesquisas sobre gênero e saúde.

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Maria Magdalena Rossi, professora do Instituto de Biociências e responsável pelo Laboratório de Genética Molecular de Plantas – Foto: Luenne Neri/USP Imagens

Nós, mulheres, somos discriminadas em diferentes frentes da nossa vida, inclusive no aspecto profissional

Norte-americana, chegou ao Brasil em 1999 para trabalhar como pesquisadora na Universidade. Como pós-doutoranda, trabalhou caracterizando os genes da resistência da cana-de-açúcar, um trabalho pioneiro, base de inúmeras linhas de pesquisas que surgiriam após esse projeto. Professora do Departamento de Botânica desde 2005, montou um grupo de pesquisa e hoje trabalha tentando compreender o metabolismo de alguns compostos nutracêuticos importantes para a saúde humana e como é possível aprimorar o conteúdo desses compostos. Apesar de suas realizações, diz já ter sido discriminada por colegas homens por ser mulher, inclusive em concursos, e chama a atenção para a falta de representatividade feminina nos cargos mais altos da Universidade.

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Beatriz Rodrigues Sanchez, coordenadora do Grupo de Estudos de Gênero e Política (Gepô) – Foto: Luenne Neri/USP Imagens

É um desafio ser mulher na USP

Seu interesse pela questão de gênero começou ainda no ensino médio, quando estudava na Escola de Aplicação da USP. Durante a graduação em Relações Internacionais, participou da criação de um núcleo feminista e entrou no NUPPs, o Núcleo de Pesquisas em Políticas Públicas, desenvolvendo uma pesquisa sobre a mulher na política. No mestrado em Ciência Política, concluiu uma pesquisa sobre o que mulheres, depois de eleitas, faziam para promover a igualdade de gênero. No mesmo período, participou da criação do Gepô, que discute a questão de gênero e a violência contra as mulheres na Universidade. Para ela, apesar de haver boas iniciativas, ainda falta orientação e institucionalidade para dar conta dos casos de violência contra a mulher na Universidade, bem como um maior diálogo entre a USP e os coletivos feministas que falam desse problema há tempos.

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Cristina Augusto, à esquerda, líder da Cooperativa Monte Sinai e Roberta Silva – Foto: Luenne Neri/USP Imagens

Aqui conquistei minha liberdade, amigos, meu carro (que era um sonho) e minha autoestima: hoje me sinto importante para mim mesma, sabe? – Cristina Augusto

Trabalhando desde os 17 anos na lanchonete da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, Cris, como é conhecida, não podia nem imaginar que quase duas décadas depois se tornaria a cabeça do local, ao assumir a Cooperativa Monte Sinai. A iniciativa surgiu após a saída da antiga dona e foi encampada pela Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (ITCP) da Universidade.

Na época, nem mesmo entendia o que era isso, apenas queria trabalhar. Com a ajuda de antigos fornecedores, familiares e uma porção de amigos, o trabalho começou – isso já faz 14 anos. “A FAU é minha casa, meu mundo, tudo que sei aprendi aqui.”.

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Ana Clara Renó Ferreira Yoshitake, funcionária da Creche Central  Foto: Paula Serra/USP Imagens

Eu sinto falta na USP de um espaço de convívio entre crianças e adultos

Formada em pedagogia, tornou-se funcionária da creche logo ao final de sua graduação, mesmo momento em que teve seu primeiro filho – atualmente, tem dois: um de 7 e outro de 4 anos. Junto à sua trajetória acadêmica e profissional permeada pela educação, sempre conviveu a militância, principalmente pela permanência das creches dentro da Universidade e da manutenção de sua qualidade.

 

Reportagem: Marcella Affonso
Fotos: Luenne Neri, Cecilia Bastos Ribeiro e Paula Serra
Arte: Thais Helena dos Santos

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