Por que a educação matemática pode promover a inclusão social?

Formas alternativas de ensino e aprendizagem mostram que a matemática pode contribuir com a inclusão de grupos historicamente desfavorecidos

Por - Editorias: Universidade
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Arte sobre foto de Fernando Frazão/ Agência Brasil

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Um banco comunitário, uma marcenaria coletiva feminina, uma cooperativa que presta serviços de limpeza, um grupo que faz artesanato com papel reciclado, outro que produz sabão caseiro e um terceiro que fabrica produtos de limpeza. O que há em comum entre esses seis empreendimentos tão diferentes? Os associados de todos eles já tiveram a oportunidade de compreender o quanto a matemática é fundamental para que possam atuar de modo mais eficaz na cadeia de produção e gestão de seus negócios, que são chamados de Empreendimentos em Economia Solidária. “Economia solidária é uma forma diferente de gerar renda, pautada nos princípios da cooperação, solidariedade e autogestão”, explica a professora Renata Meneghetti, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos.

A pesquisadora coordena diversas ações destinadas ao ensino e à aprendizagem da matemática a fim de atender as demandas específicas desses empreendimentos. De caráter colaborativo e interdisciplinar, essas iniciativas são desenvolvidas desde 2008 pelo grupo de pesquisa em Educação e Matemática Solidária (EduMatEcoSol), do ICMC, em parceria com o Núcleo Multidisciplinar e Integrado de Estudos, Formação e Intervenção em Economia Solidária (NuMI-EcoSol), da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

“A população pertencente aos Empreendimentos em Economia Solidária é constituída, em sua maioria, por pessoas excluídas do mercado formal de trabalho, as quais são, portanto, obrigadas a procurarem alternativas de sobrevivência”, explica Renata. Segundo ela, em muitos casos, esses trabalhadores apresentam baixa escolaridade e ausência de qualificação profissional satisfatória para exercerem as atividades nos empreendimentos.

Renata revela que, nesse contexto, a economia solidária e a educação matemática são alternativas facilitadoras para a geração de trabalho e renda, além de meios para promover a inclusão social: “A matemática está atrelada ao nosso cotidiano e também é importante na cadeia do empreendedorismo em economia solidária para que decisões mais adequadas sejam tomadas e as ações realizadas”.
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Recriart, grupo de São Carlos que faz artesanato com papel reciclado, é um dos empreendimentos atendidos pelas ações de educação matemática – Foto: Denise Casatti

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Como funciona

Nos Empreendimentos em Economia Solidária, a prática de ensino da matemática segue um processo que se diferencia do que é tradicionalmente empregado nas escolas, onde há a educação formal. Primeiramente, os pesquisadores precisam identificar as necessidades encontradas no cotidiano de cada empreendimento. Essa etapa é realizada por meio de conversas informais, de entrevistas com as pessoas que fazem parte desses empreendimentos e também da observação da rotina dos associados. “Buscamos identificar qual a percepção que os participantes têm sobre o uso da matemática no cotidiano do grupo, quais recursos tecnológicos utilizam ou poderiam utilizar nos seus afazeres, bem como fazer um levantamento do conhecimento matemático de cada membro do grupo”, conta Renata.

A partir desse diagnóstico, em que são analisadas as dificuldades existentes em cada empreendimento, os pesquisadores planejam como farão as intervenções e preparam o material necessário. Essas intervenções costumam acontecer de maneira não formal, sendo realizadas durante o período em que os cooperados estão trabalhando por meio de bate-papos, oficinas e minicursos. Por exemplo: se a compreensão sobre o conceito de porcentagem é uma das demandas identificadas, os pesquisadores estudam maneiras de ensinar esse conceito às pessoas que precisam compreendê-lo. Na penúltima etapa, são avaliadas as intervenções e é produzido o diagnóstico final. Por último, são estudadas possíveis intervenções futuras (veja o infográfico).

Imagem sintetiza passo-a-passo como os pesquisadores realizam as ações em cada empreendimento (clique para ampliar) – Imagem: Yasmin Reis

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Essa metodologia prática está descrita detalhadamente no livro Educação Matemática no contexto da Economia Solidária, de autoria da professora Renata. “É uma obra que pretende criar subsídios para outras pesquisas e atuações pedagógicas da educação matemática no contexto da economia solidária”, diz a professora.

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Etnomatemática

Uma das bases conceituais que norteiam as práticas coordenadas por Renata é chamada Etnomatemática. Criada em 1975 pelo matemático brasileiro Ubiratan D’Ambrosio, a Etnomatemática se refere a uma forma de ver a matemática considerando as condições econômicas, sociais e culturais do contexto em que essa ciência está inserida. Nesse sentido, a matemática vivenciada pelos indígenas, pela dona de casa, pela costureira, pelo empresário é distinta em função das diferentes realidades em que essas pessoas vivem.

A Etnomatemática é motivada pela busca do entendimento do saber e fazer matemática no transcorrer da história da humanidade, que muda constantemente. Levando essas transformações em conta, é possível deixarmos a matemática mais interessante para ser ensinada e aprendida

Sob a ótica da Etnomatemática, a aprendizagem deixa de ser vista como uma simples aquisição de técnicas e habilidades ou como a memorização de determinadas explicações ou teorias. O ensino passa a ser contextualizado, significativo, e o aprendizado acontece quando os sujeitos são capazes de explicar, apreender, compreender e enfrentar criticamente situações novas, organizando os conhecimentos que vão adquirindo ao longo de suas histórias de vida.

Renata lançou o livro Educação Matemática no contexto da Economia Solidária no ano passado – Foto: Denise Casatti

“Estou há quatro anos envolvida com economia solidária e com um banco comunitário atuante em uma periferia mais carente. Aprender e aplicar a matemática é essencial para todo o processo de empréstimos disponibilizados à comunidade, pois é preciso calcular corretamente as planilhas para fornecermos a quantia certa a cada morador”, revela Rose Macedo, que faz parte do Banco Nascente, um banco comunitário que faz parte dos seis grupos que já foram impactados pelas ações realizadas pelo ICMC em parceria com a UFSCar.

Além do Banco, quatro outros empreendimentos atendidos são localizados em São Carlos: a Cooperlimp, uma cooperativa que presta serviços de limpeza; o Recriart, um grupo que faz artesanato com papel reciclado; o Sabão Recicla, que produz sabão caseiro; e o LimpSol, que fabrica produtos de limpeza. Há, ainda, a Madeirarte, uma marcenaria coletiva feminina de Itapeva, também no interior do Estado de São Paulo.

Entre os muitos aprendizados destacadas pela professora Renata ao longo dessa jornada de quase 10 anos está a certeza de que sempre existem oportunidades de descobrir novas abordagens para ensinar e aprender matemática de um jeito significativo, capaz de transformar a realidade individual e coletiva: “Os alunos que participam dessa experiência ampliam sua visão de mundo, tanto no que se refere aos conhecimentos matemáticos quanto à vivência junto à realidade da população, sobretudo as menos favorecidas”.

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Denise Casatti/Assessoria de Comunicação ICMC

Saiba mais

Cartilha Práticas Educativas de Educação Matemática no contexto da Economia Solidária:
 http://www.icmc.usp.br/~rcgm/Cartilha.pdf
Site da Appris editora:
http://www.editoraappris.com.br/produto/e-book-a-educacao-matematica-no-contexto-da-economia-solidaria

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