Iniciativa da USP quer integrar pesquisadores da área de computação

Encontro Paulista dos Pós-Graduandos em Computação reuniu pós-graduandos de 11 programas

Por - Editorias: Universidade
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
Mestrando em computação no Canadá, Jalasaya Bhattarai está fazendo intercâmbio no Brasil – Foto: Denise Casatti/ICMC

São Carlos, cidade do interior de São Paulo conhecida como a capital da tecnologia, tornou-se também a capital dos pós-graduandos paulistas em computação no dia 4 de dezembro. Nesse dia, o campus da USP abrigou o primeiro Encontro Paulista dos Pós-Graduandos em Computação, que reuniu 206 mestrandos e doutorandos dos 11 programas do Estado de São Paulo.

“O evento faz parte de uma iniciativa inovadora no Brasil, que busca fomentar a integração dos programas de pós-graduação do Estado na área de computação”, explica o coordenador do encontro, Adenilso Simão, professor do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP em São Carlos.

Um dos participantes do evento é Jalasaya Bhattarai, que está visivelmente entusiasmado com a iniciativa. Do primeiro andar do Salão de Eventos da USP, que está tomado pelos 177 pôsteres dos mestrandos e doutorandos, ele registra o momento em uma selfie e diz que nunca viu algo similar acontecer no programa em que está matriculado, o mestrado em Tecnologia da Informação e Segurança do Instituto de Tecnologia da Universidade de Ontário, no Canadá. “Quando esses estudantes apresentam o que estão pesquisando para outros pesquisadores, eles têm uma grande oportunidade de aprendizado”, diz Bhattarai.

 

No Salão de Eventos da USP, em São Carlos, foram expostos 177 pôsteres – Foto: Denise Casatti/ICMC

 

A experiência não poderia ser mais rica para ele, que está apenas há duas semanas no Brasil, participando de um intercâmbio na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, em São Paulo. Natural do Nepal, emigrou para o Canadá em novembro de 2013 e sabe o quanto ter contato com outras culturas e tecnologias favorece o espírito científico. Ele até usa uma imagem para ilustrar a relevância das possíveis colaborações que encontros como esse propiciam:

“É como fazer chá ou café. Para termos um bom resultado, precisamos misturar as substâncias com a água. Em pesquisa também é assim, precisamos integrar os conhecimentos e produzir uma mistura de inteligências para construir ciência”.

Mas será que os ingredientes que os pós-graduandos utilizam para fazer ciência na academia são idênticos aos que precisarão empregar caso optem por atuar no mercado? Ao relatar sua trajetória profissional durante o evento, o cientista de dados Eduardo Hruschka explicou que há muitas diferenças entre esses dois universos, mas enfatizou o quanto a aproximação entre academia e mercado pode gerar bons frutos para ambos.

Ninguém melhor do que ele para falar sobre esse assunto, já que tem extensa experiência tanto na academia quanto no mercado. Começou ministrando aulas em universidades particulares e, em 2007, tornou-se professor no ICMC. Sete anos depois, afastou-se do instituto para atuar no mercado. Este ano, assumiu a superintendência do Centro de Excelência em Big Data Analytics do Itaú-Unibanco.

Estímulo à colaboração

Iniciativa estimulou colaborações científicas – Foto: Denise Casatti

Como coordenador do Programa de Pós-Graduação em Computação do ICMC, Adenilso Simão conhece bem quais são as oportunidades que podem surgir a partir do fomento às parcerias científicas. Há muitas pontes que podem ser construídas entre os cerca de 800 mestrandos e 600 doutorandos matriculados atualmente nos 11 programas de pós-graduação em computação do Estado de São Paulo.

Na tentativa de estimular essas colaborações, o professor construiu uma metodologia especialmente para o evento: um simples código capaz de identificar similaridades entre as palavras-chave contidas nos resumos dos 177 trabalhos que foram expostos na mostra de pôsteres. Assim, os projetos que tinham algum tipo de relação foram apresentados em uma mesma área do salão, propiciando mais oportunidades para que os autores daqueles estudos interagissem entre si.

Além disso, durante a mostra, metade dos alunos ficava diante dos pôsteres para a apresentação enquanto a outra metade circulava pelo local. Uma hora depois, a dinâmica se invertia: a metade que tinha apresentado passava a circular e quem estava circulando tornava-se expositor.

“Até onde tenho conhecimento, nenhum Estado brasileiro tentou fazer algo assim antes: integrar os programas de pós-graduação”, explica Osvaldo de Oliveira, coordenador do Programa de Mestrado em Ciência da Computação da Faculdade Campo Limpo Paulista (Faccamp). Para ele, os programas têm muito a ganhar não só com as colaborações científicas que podem surgir a partir desse primeiro encontro, mas também a partir da realização de ações conjuntas futuras como a oferta integrada de disciplinas. “Estamos discutindo várias possibilidades, são iniciativas que trarão benefícios para os programas, para os alunos e também para a sociedade”, acrescenta Oliveira.

Desafios comuns

De 2013 a 2016, 316 doutores e 891 mestres em computação foram formados em São Paulo. “O Estado é responsável por cerca de 15% de todos os programas de pós-graduação em computação existentes no Brasil, que formam aproximadamente 15% dos mestres e 30% dos doutores do País nessa área”, ressalta Adenilso Simão.

De fato, há diversos resultados positivos no Estado que merecem ser comemorados, mas Roberto Cesar Junior, professor do Instituto de Matemática e Estatística (IME) da USP, também chama a atenção para o fato dos brasileiros estarem muito aquém do restante do mundo quando o assunto é excelência em pesquisa: “Temos muitos problemas quando analisamos os dados referentes aos impactos científicos e às colaborações internacionais”.

Conselheiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) desde 2006, Roberto Junior foi um dos palestrantes do evento e mostrou uma série de dados para fundamentar a afirmação. Por exemplo, o Brasil aparece muito abaixo da média mundial quando se leva em conta o impacto dos artigos científicos publicados.

Para aumentar o impacto intelectual da ciência feita no País, ele diz é preciso seguir um princípio básico desde a fase de concepção dos projetos: os pesquisadores devem avaliar o conhecimento de ponta que está sendo produzido no mundo em seu campo de estudo, identificar lacunas e gerar ideias que possam resolver os problemas ainda não solucionados no mundo. Segundo ele, é necessário, ainda, estabelecer mais cooperações internacionais, criar mecanismos eficientes para atrair, selecionar e manter talentos, além de desenvolver ferramentas para avaliar a excelência da pesquisa e da formação.

Para enfrentar desafios como esses, nada melhor do que unir forças. “Quando colaboramos com quem está ao nosso redor, todos crescem. Nesse caso, um mais um é mais do que dois”, finaliza Osvaldo de Oliveira.

Denise Casatti / Assessoria de Comunicação do ICMC

  •  
  •  
  •  
  •  
  •  

Textos relacionados