O caminho trilhado por quem escolheu a Engenharia de Computação

Conheça as histórias de três ex-alunos da USP em São Carlos que seguiram carreira na área médica, robótica e telecomunicações

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Prédio da Escola de Engenharia de São Carlos da USP – Foto: Marcos Santos / USP Imagens

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Era só mais um dia comum no Ambulatório Médico de Especialidades (AME) de Barretos até uma senhora cadeirante entrar em um dos consultórios para realizar uma bateria de exames nos olhos. A dificuldade em se manter estática na alta cadeira do retinógrafo – aparelho utilizado para tirar fotos da retina – e posicionar seu queixo da maneira correta no equipamento fez com que ela desistisse de ser examinada. No mesmo instante, diante da cena constrangedora, um gesto do engenheiro de computação José Augusto Stuchi, ex-aluno da USP em São Carlos, possibilitou uma rápida solução ao problema. Ele propôs ao médico responsável utilizar o retinógrafo portátil criado por ele e outros dois amigos para realizar o exame na paciente.

“O médico conseguiu dar o diagnóstico na hora. Quando a senhora foi embora com o laudo, choramos muito de emoção e tivemos a certeza de que conseguimos ajudar”, relata Stuchi, que realizava testes finais em seu aparelho que deve ser lançado nos próximos meses. O equipamento idealizado pelo engenheiro leva o nome de Smart Retinal Camera – SRC e realiza exames oculares de maneira prática, barata e com o uso de smartphones, facilitando o uso em pacientes que não conseguem se deslocar às clínicas ou em mutirões realizados em lugares distantes e que não possuem especialistas.

José Augusto Stuchi em demonstração do uso do aparelho que captura imagens da retina com o uso de smartphones – Foto: Phelcom

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O projeto foi desenvolvido por três ex-alunos da USP em São Carlos: o engenheiro eletricista Flavio Vieira, o físico Diego Lencione e Stuchi, que se graduou em Engenharia de Computação, curso oferecido em conjunto pela Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) e pelo Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC), ambos da USP. “O curso é focado em duas áreas muito dinâmicas e inovadoras, a engenharia elétrica e a computação. Hardware e software têm o mesmo peso e o fato de o curso ser oferecido em parceria por duas unidades da USP é um grande diferencial”, explica Maximiliam Luppe, coordenador do curso e professor do Departamento de Engenharia Elétrica e de Computação (SEL) da EESC.

Nascido em Ibitinga, interior de São Paulo, Stuchi viu sua paixão pela área surgir cedo. Aos 12 anos, entrou em um curso de programação e começou a desenvolver pequenos sistemas para vender, como o programa para controle de vendas de botijão de gás, no qual o software calcula a periodicidade média em que o cliente precisa de um novo produto, determinando a entrega imediata na casa da pessoa. De perfil empreendedor, o ex-aluno conciliava as aulas na Universidade com seus trabalhos particulares. “Sempre que entrava em férias, arrumava um projetinho para fazer”, conta.

Graduado em 2009, o egresso conta como a experiência na USP fortaleceu sua formação: “É um curso que proporciona uma versatilidade muito grande no mercado e faz abrir a cabeça para a computação. Nós saímos prontos para resolver problemas e olhando o mundo de uma forma diferente”, afirma. “O mercado para o engenheiro de computação é muito promissor e a tendência é que surjam muitas oportunidades. No curso, nós focamos bastante em empreendedorismo, tanto que criamos o Espaço EngComp, local compartilhado entre os alunos para o desenvolvimento de projetos de inovação, e oferecemos laboratórios para instalação de empresas juniores e startups”, completa Maximillian.

A escolha pela área médica também já estava nos planos de Stuchi há muito tempo. Ainda na terceira série do ensino médio, o engenheiro escreveu uma carta, junto com os amigos, que dizia o que cada um gostaria de fazer no futuro. No desejo do então adolescente, a mensagem foi direta: desenvolver componentes médicos. “Produzir um equipamento para gerar novas soluções é algo muito gratificante, eu pretendo deixar um legado e ajudar as pessoas. O desejo de transformar o País me motiva muito”, conta o empreendedor.

O envolvimento no projeto do SRC levou os três idealizadores a fundar, em março de 2016, a startup Phelcom, empresa focada em criar produtos combinando soluções na área de óptica, eletrônica e computação. “Empreender é algo muito complexo, precisamos entender como o mercado funciona, existem as burocracias e acabamos renunciando a algumas coisas, mas, ao mesmo tempo, tem bastante gente querendo ajudar.”

Atualmente, a Smart Retinal Camera – SRC passa pelos testes clínicos finais e aguarda algumas liberações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Segundo os especialistas, o lançamento oficial do equipamento deve ocorrer em agosto.

Multitarefas

Ele é professor, palestrante, blogueiro, tem um canal no Youtube e trabalha em uma empresa de telecomunicações. Todas essas funções voltadas exclusivamente à engenharia de computação. “Minha paixão por computadores começou aos cinco anos. Antes de aprender a escrever, eu já digitava”, revela André Curvello, que se formou na EESC em 2012. Natural de Goiânia, sempre se encantou pelas máquinas e aprecia tudo o que envolve sua elaboração e funcionamento, desde a estrutura física até o programa que elas executam.

Internet das coisas, arduino e robótica são alguns dos temas abordados por André Curvello em suas apresentações – Foto: Arquivo pessoal

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“Eu também gosto muito de eletrônica e vi que no curso ela seria bastante abordada. Não queria focar apenas na computação, mas em descobrir o que acontece entre esses dois mundos”, conta o ex-aluno.  Aprovado na Unicamp e na USP em São Carlos, depois de prestar o vestibular, Curvello não estava disposto a ir para uma cidade grande, por isso a escolha pela capital da tecnologia. “É uma das melhores universidades da América Latina localizada em uma cidade tranquila, excelente para o estudante”, afirma.

O período em que esteve na graduação foi marcante para o jovem que ainda se ambientava a uma nova rotina. “A formação que eu tive foi diferenciada, digo pelo ambiente, pelos professores e pela estrutura. Algo que me impressionou bastante foi o contato com as tecnologias nos laboratórios, as quais eu nem imaginava que existiam”, relata o engenheiro.

Assim que se formou, teve início sua aventura pelas multitarefas que realiza hoje e a primeira delas foi dar aula. Elogiado pelos colegas de turma por conta do jeito fácil de explicar os conteúdos, resolveu agarrar a oportunidade oferecida pela Universidade de Franca (Unifran), onde lecionou disciplinas da área de microcontroladores, robótica, programação orientada a objetos, programação orientada a dispositivos móveis e sistemas distribuídos.

“Como eu comecei a dar aula assim que me graduei, foi fácil me colocar no lugar dos alunos. Eu sabia que em escola particular, às vezes, o estudante não tem tanto tempo para estudar, trabalha durante o dia e por isso eu preparava minhas aulas de forma bem didática, para que eles pudessem entender o conteúdo da maneira mais fácil possível”, conta Curvello, que conciliou o trabalho com seu mestrado em Sistemas Embarcados na USP e com um MBA em gestão estratégica de Tecnologia da Informação na Unifran.

Sua maneira de ensinar fez com que não demorasse a cair nas graças dos jovens, tanto que nos três anos e meio que passou pela universidade, sempre esteve entre os homenageados ao final do curso, seja como paraninfo, patrono ou nome de turma. Durante a experiência na Unifran, novas portas se abriram, dessa vez, para as palestras.

Por atuar no setor de ensino, o contato com a Secretaria Municipal de Educação de Franca era bem próximo e quando surgiu a oportunidade de falar sobre o que mais ama para outros públicos, não titubeou em aceitar. “Minha primeira palestra foi sobre robótica em uma escola pública para crianças da quinta e sexta série.” Hoje, o repertório do egresso aumentou e temas como arduino e internet das coisas já são abordados pelo jovem nos diversos locais onde se apresenta.

André Curvello começou a estabelecer contato com profissionais da área até que outra frente para disseminar conteúdo surgiu em sua vida: a internet. Além de ter o próprio site, o engenheiro grava vídeos em seu canal no Youtube e escreve sobre engenharia de computação para outras duas páginas na internet, o blog Embarcados.com e o portal Filipe Flop. “Aprender e ensinar computação é o que eu mais gosto de fazer. Acho fantástico descobrir algo novo e poder contribuir de alguma forma”, conta o ex-aluno que fica ansioso em divulgar as novidades ao público.

A vontade pelo novo não parou por aí. André resolveu se arriscar em mais um caminho na carreira e foi para o mercado empresarial, aceitando o convite da PadTec, empresa de telecomunicações sediada em Campinas, onde ele atua no desenvolvimento de equipamentos que melhoram, amplificam e distribuem o sinal da rede de comunicação óptica. Um fator que facilitou a adaptação de Curvello no novo emprego foi que na graduação ele teve disciplinas da área de telecomunicações: “Boa parte dos termos técnicos que utilizo no trabalho já havia visto na USP e meus companheiros de trabalho ficaram impressionados”, conta o engenheiro.

Mas a paixão adquirida pelo ensino parece ter continuado ecoando na cabeça de Curvello, pois, mesmo trabalhando em período integral, decidiu continuar ministrando aulas e foi contratado pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo (Unisal), em Campinas, para lecionar disciplinas na pós-graduação aos sábados. “Agora, não quero mais deixar de ser professor”, relata. Ele, inclusive, está preparando materiais para oferecer conteúdo on-line e já investiu até mesmo em microfone, câmera e iluminação. “Eu vejo a engenharia de computação como a profissão do futuro”, finaliza o jovem, que diz não conhecer ninguém mais apaixonado pela área do que ele.

Uma vida dedicada à robótica

“É muito legal quando juntamos engenharia mecânica, eletrônica, computação e damos vida a alguma coisa.” As palavras que ilustram a formação básica de um robô são de Rafael Lang, graduado em 2012 na USP em São Carlos. O engenheiro de computação atua há oito anos como diretor do Warthog Robotics, um dos principais grupos extracurriculares da EESC e do ICMC, que tem como objetivo desenvolver pesquisas no campo da robótica, focando em combate e futebol de robôs.

Em 2007, ainda no primeiro ano de graduação, Lang procurou uma forma de utilizar, na prática, o conhecimento que estava adquirindo no curso.  Foi então que ingressou no Warthog que, na época, levava o nome de Gear. Em 2010, o grupo fundiu-se com o USP Droids do ICMC e desde então carrega a atual nomenclatura. “Ao participar de um grupo extracurricular, é possível aplicar o que se aprende em sala de aula. No caso do Warthog, nós fazemos robôs, os levamos para feiras e participamos de competições. Isso me ajudou bastante no curso”, conta Lang. “O aluno aprende a se organizar, trabalhar em equipe, gerenciar um time e com isso ele desenvolve seu perfil profissional ainda na academia”, complementa MaximillianConfira aqui todos os grupos extracurriculares da EESC.

Rafael Lang é diretor do Warthog Robotics há oito anos – Foto: Arquivo pessoal

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Ao longo dos anos, o então graduando foi construindo sua história no grupo. Além de evoluir como profissional de engenharia, cresceu dentro do Warthog e depois de passar por todos seus setores, cheg​​​​​​​​​​​​​​​​​​ou à diretoria geral em 2010. “Quando eu entrei, havia cerca de dez pessoas e, hoje, contamos com 115 integrantes; é a oitava turma que eu gerencio. Acabo sendo uma referência para eles e enquanto eu tiver algo a contribuir pretendo continuar”, diz o engenheiro que já geriu cerca de 300 alunos. Hoje, além de diretor, ele desenvolve no Warthog seu doutorado com foco em sistemas inteligentes aplicados ao futebol de robôs.

O pesquisador conta que todo mês é realizado internamente no grupo um workshop para que os integrantes contem o que desenvolveram nos últimos 30 dias. A ideia é treinar apresentação em público, perder a timidez e ganhar maturidade, qualidades que o mercado valoriza muito, segundo o doutorando. Quando ingressam no Warthog, os alunos dão início a uma espécie de plano de carreira. Eles começam no setor de manufatura e operações, depois passam pela área de desenvolvimento e, por fim, chegam ao setor de pesquisa. “Para trocar de área, os estudantes devem realizar os minicursos internos de capacitação que oferecemos. São cerca de 200 por ano”, conta Lang.

Tecnicamente preparados, os jovens participam de diversas competições e já colecionam inúmeros títulos. “Os campeonatos renovam o ânimo do pessoal e os desafios que essas atividades proporcionam aumentam muito a qualidade do profissional formado. A evolução dos alunos é o que mais gosto de ver”, completa o diretor, que deixa um recado aos futuros integrantes do Warthog: “Aqui você pode se preparar tanto para o mercado quanto investir numa pós-graduação. É uma fonte infinita de conhecimento e desenvolvimento”, finaliza.

Henrique Fontes/Assessoria de Comunicação do SEL

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