Funcionários da Superintendência de Comunicação se despedem da USP

O fim de novembro marca também o encerramento da carreira de sete servidores da Rádio USP e do Jornal da USP, que aderiram ao plano de demissão voluntária

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Prédio da Administração - bloco K e L
Prédio da Administração Central da USP onde está localizada a Superintendência de Comunicação Social – Foto Cecília Bastos/USP Imagens

Nesta quarta-feira, dia 30 de novembro, 398 servidores técnico-administrativos da USP estão se desvinculando da instituição. No ano passado, foram 1.433 na primeira edição do Programa de Incentivo à Demissão Voluntária (PIDV). Para além dos números e da busca de uma solução para o desequilíbrio financeiro da Universidade, o impacto é sentido, principalmente, no dia a dia de quem permanece: na copa sem o cheiro de café e no silêncio onde costumava ecoar risada e conversa.

O público-alvo da segunda etapa PIDV foram servidores com pelo menos 20 anos de exercício na USP, com idade entre 55 e 72 anos. É de se esperar, portanto, que a saída destes profissionais representasse, também, a partida de muitas histórias e memórias de anos de convivência.

A Superintendência de Comunicação Social (SCS) da USP, à qual está ligado o Jornal da USP e a Rádio USP, perdeu, neste mês, sete de seus funcionários. Hoje é o último dia oficial de trabalho do Carlos Cruz, Tatá, Zé Carlos, José Silvestre, Dona Maria, Calil e Silas. Apresentamos aqui uma breve parte da trajetória de seis deles.

Carlos Cruz

Carlos Manoel de Souza Cruz, funcionário da Rádio USP – Foto Cecília Bastos/USP Imagens

Durante 36 anos, Carlos Manoel de Souza Cruz subiu ao ponto mais alto da cidade de São Paulo para trabalhar. Responsável pela parte técnica da manutenção do transmissor da Rádio USP, Carlos passou mais da metade de seus recém-feitos 63 anos no Pico do Jaraguá, zona oeste de São Paulo.

Da função solitária e, em alguns casos, perigosa — ele já socorreu um colega de profissão que levara um choque de alta voltagem durante o trabalho —, Carlos admite: está saturado.

Apesar do cansaço, ele só tem a agradecer pela longa trajetória na Rádio USP, que se iniciou oficialmente em 10 de setembro de 1982, quando Carlos foi registrado. “Só tenho a agradecer a Deus. Foram anos de benção. Tivemos problemas, porque a vida não é feita só de alegrias. Tivemos momentos difíceis, mas foi bom porque serviu ‘pra gente aprender e crescer”, finaliza o agora aposentado Carlos.

Dona Maria

Maria de Lourdes de Souza Tomaz – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Maria de Lourdes Souza Tomaz é uma figura conhecida e querida de todos dentro da Superintendência de Comunicação Social. Aos 67 anos, ela se despede, por meio do PIDV, do lugar onde trabalhou praticamente de forma ininterrupta desde 3 de outubro de 1983 e fez muitos amigos.

“Eu cheguei a me afastar da SCS por um tempo no [Centro Universitário] Maria Antônia, quando inauguraram um prédio. Fiquei lá oito meses e meu diretor mandou me chamarem de volta correndo”, conta dando risada.

Ao longo dos 33 anos em que esteve na USP, ela diz ter visto muitas mudanças, sobretudo no período dos últimos dois diretores. Lembra da mudança do prédio da SCS para a Av. Corifeu de Azevedo Marques (próxima à USP) e da volta para o prédio atual.

Dona Maria conta que a experiência na USP foi ótima para ela e sua família. Seu filho encontrou trabalho na própria Universidade, onde se mantém até hoje, enquanto ela fez muitos amigos em diversas unidades e tem uma excelente relação com todas as pessoas.

Ela também lembrou de sua atuação no movimento sindical, contando que até pouco tempo ainda fazia parte do Sindicato. E, principalmente, do tempo em que trabalhou com o apresentador William Bonner, na época em que ele foi estagiário da SCS. “Pra mim, foi ótimo trabalhar aqui. Nunca me arrependi, mas chegou a hora de sair. Minha idade já está avançada e tá na hora de descansar”, conclui, fazendo um balanço dos anos na USP.

Calil

Maurício Calil, funcionário da Rádio USP – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

A Rádio USP foi fundada em São Paulo, em 1977, mas, até 1986, era uma rádio FM comum, apenas com programação musical. É o que diz Maurício Calil, o Turco, como é conhecido. Com vasta experiência em diversas rádios da capital paulista, Calil foi convidado por Mário Fanucchi, que coordenou a renovação da rádio, para estruturar a nova equipe e a programação. “Em 86, quando cheguei, a rádio tinha umas 12 pessoas. Então, contratamos uns 40 profissionais, começamos a fazer jornalismo, criamos um departamento, transformamos a rádio”, lembra.

Calil conta que, embora não tenha curso superior, peregrinou pelas maiores rádios de São Paulo em sua carreira, coordenando programas matinais importantes ou estruturando a programação de emissoras como a Jovem Pan, Excelsior e, mais tarde, a Band News FM. Mas, na Rádio USP, ele se fixou e teve papel decisivo em sua consolidação. “Chegamos a alcançar o 8º lugar entre as FMs mais ouvidas”.

Nos 30 anos em que esteve na Rádio USP, trabalhou como chefe de jornalismo, coordenador de programação, diretor e editor, e diz que a rádio já foi uma grande família, coisa de que sente falta. “Antes não era tudo setorizado como está agora, não precisávamos do telefone para falar com alguém aqui, ficávamos todos juntos. E além do trabalho, sempre fazíamos churrascos, era outro clima, muito bom”, recorda.

Aos 65 anos, Calil deixa a Rádio USP depois de três décadas, no Programa de Incentivo à Demissão Voluntária. Agora, ele pretende descansar, pescar, voltar a ler, curtir a família e trabalhar como voluntário no setor de comunicação de uma ONG próxima de sua casa. Não descarta a possibilidade de voltar a trabalhar em uma grande emissora de rádio, mas garante: “Se quiserem, podem me chamar. Eu não vou procurar”.

Zé Carlos

Foto: Cecília Bastos
José Carlos de Moraes Filho, funcionário da Rádio USP – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

José Carlos de Moraes Filho tem 60 anos de idade. Destes, quase metade passou na Rádio USP. Quando entrou na FM, em 1989, a rádio ainda estava um passo atrás das concorrentes, e o equipamento utilizado ainda era a fita de rolo. Depois de algum tempo com o material ultrapassado, os então modernos cartuchos ganharam o lugar, facilitando o trabalho.

Contratado para fazer edição de reportagens, Zé Carlos — como é conhecido — passou pela redação e pela pauta da Rádio USP, com destaque para a área de biológicas. Com uma equipe mais enxuta, o profissional passou os últimos tempos se revezando entre as funções, ora editando, ora pautando, ora produzindo texto para a rádio.

Entre as muitas pautas que editou em sua trajetória de três décadas, a primeira que lhe vem à cabeça é sobre a origem do Universo. Não pelo assunto em si, mas porque ele simplesmente não teve trabalho. Graças à capacidade do professor entrevistado em tornar o assunto, tão complexo e misterioso, simples e compreensível, a matéria foi para o ar na íntegra, com 12 minutos ininterruptos, muito mais tempo que o usual.

Depois de 27 anos, o jornalista deixará de ser funcionário da USP. Apesar disso, Zé Carlos não se desligará completamente da função, continuando na TV Globo, onde trabalha desde 1981.

Entre boas histórias e momentos memoráveis, Zé Carlos leva bons ensinamento dos anos na rádio. “Eu faço um excelente balanço. Eu digo sempre que todo dia estou pronto pra aprender. Se você parar de aprender é porque você morreu. E todo dia eu tô aprendendo alguma coisa a mais, sobre pessoas, sobre trabalho, sobre jornalismo. Da necessidade da gente estar sempre aberto, para estar aprendendo e apreendendo. As coisas estão sempre mudando, na verdade. Desde técnica, tecnologia, relações humanas”, reflete.

Tatá

Cleonice de Sousa Henrique – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Cleonice de Sousa Henrique, mais conhecida como Tatá – apelido cuja origem desconhece e que carrega desde os tempos de criança em Coroatá, no Maranhão –, veio para São Paulo aos 26 anos. Hoje, perto do 70º aniversário, pode se considerar não apenas paulistana, mas uma uspiana.

Depois de trabalhar por seis meses como empregada doméstica, passou vários anos trabalhando num pronto socorro infantil, primeiro no serviço de limpeza, depois como recepcionista, até que, em maio de 1981, uma amiga lhe perguntou se teria interesse em trabalhar na USP.

Na Universidade, trabalhou na limpeza no Anfiteatro Camargo Guarnieri, onde também preparava café para os membros da Orquestra Sinfônica da USP (Osusp) e eventuais conferencistas. Após 17 anos e muitas amizades, Tatá foi transferida para a Superintendência de Comunicação Social, onde permaneceu até hoje. “Quando saí de lá, fui chorando, não queria sair de jeito nenhum. Mas logo me adaptei, conhecia o pessoal. Outro dia o pessoal da Orquestra veio me visitar aqui”, conta, alegre.

Em 35 anos (“quase 36!”, ela ressalta), Tatá construiu a vida em torno da USP. Além da estabilidade do cargo público, teve a oportunidade de dar educação, graças às creches e da Escola de Aplicação da Faculdade de Educação (FE), aos filhos e à neta na Universidade. Hoje, sua filha trabalha na Superintendência de Assistência Social (SAS), onde também trabalha seu genro, e moram todos juntos.

“Daqui eu só vou levar muita saudade. Nunca tive contratempos ou diferenças com os colegas, fiz muitos amigos”, diz. Agora, pretende passar mais tempo com a neta, a filha e o genro, além de visitar as irmãs no Maranhão. “Estou dividida entre essas duas partes da família. Minha filha fica feliz, diz que agora que vou ficar em casa vai ser bom, pois ela vai voltar do trabalho e tudo vai estar arrumadinho, jantar pronto. Eu digo ‘eu vou é sumir daqui!’”.

Silas Bueno

Silas Bueno, funcionário da Rádio USP – Foto Cecília Bastos/USP Imagens

Em setembro de 1974, Silas Bueno, com apenas 19 anos de idade, começou a trabalhar na USP na seção de protocolos, abertura e fechamento de processos. Ele lembra que eram tempos diferentes e que os prédios da antiga e nova Reitoria eram conhecidos por nomes diferentes dos de hoje.

“O que hoje é a nova Reitoria, antes era a velha Reitoria e o que hoje é a velha, naquele tempo era a nova”, conta ao lembrar de todas mudanças que viu ao longo dos últimos 42 anos.

Depois de 11 anos de trabalho dedicados à seção de protocolos, Silas passou para a então Coordenadoria de Comunicação e Atividades Culturais da Universidade (Codac), órgão responsável por cuidar dos aparelhos culturais – como o Coral USP, os grupos de teatro e outros pólos de disseminação da cultura da USP – e da comunicação.

Silas conta que naquele tempo os serviços eram muito mais “braçais”, pois naquele tempo não havia a tecnologia que há hoje. Também afirma que muitas das mudanças que aconteceram ao longo das décadas melhoraram o trabalho na universidade, mas têm sido desfeitas nos últimos anos. Porém, Silas diz ter somente a agradecer a Universidade pois foi onde trabalhou por tantos anos e conseguiu construir sua vida.

Nos últimos 20 anos, trabalhou na tesouraria da SCS, onde diz ter feito muitos amigos. “Para ficar 42 anos no mesmo lugar, você tem que gostar do pessoal. Ficar brigando com os colegas ou desrespeitando não é legal e isso não aconteceu aqui. Por isso o pessoal acaba ficando muito tempo aqui na USP”, conclui Silas.

Texto: Aline Naoe, Diego C. Smirne, José Paulo Gomes e Rafael Oliveira

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