Física em tupi-guarani: educador da USP leva experimentos para aldeia

Escola da comunidade de Tenondé Porã recebe projeto do Instituto de Física de São Carlos

Por - Editorias: Universidade
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Aldeia indígena Tenondé Porã, localizada no distrito paulista de Parelheiros, a 48 km da sede uspiana – Foto: Divulgação / IFSC

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Por volta das 9 horas da manhã de 26 de abril, o educador do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP, Herbert Alexandre João, entrou na caminhonete 4×4 que o transportaria do campus Cidade Universitária, em São Paulo, à aldeia indígena Tenondé Porã, localizada no distrito paulista de Parelheiros, a 48 km da sede uspiana.

Faltavam poucos minutos para que o educador chegasse ao destino final quando o tempo nublado fez cair uma forte chuva, indicando que a recepção na aldeia se daria sobre muita lama.

A aldeia Tenondé Porã está localizada em um território indígena de quase 16 mil hectares – antes de maio de 2016, a demarcação desse território era de aproximadamente 25 hectares -, abrangendo os municípios paulistas de Mongaguá, São Bernardo do Campo, São Paulo e São Vicente.

A Escola Gwyrá Pepó atende em torno de 250 alunos e assemelha-se a qualquer outra unidade de ensino básico do Estado – Foto: Divulgação / IFSC

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Embora mantenham vivos o idioma e a cultura de seus ancestrais, os cerca de 800 índios Guarani que vivem na aldeia se adaptaram à expansão das áreas urbanas, próximo ao território indígena, e aderiram a alguns costumes dos “homens brancos”: eles têm aparelhos de TV e acesso à internet, e trajam roupas semelhantes às de quem visita a comunidade.

Os moradores da aldeia, que vivem em pequenas casas de sapé e de tijolos, alimentam-se do que plantam (itens como mandioca, milho, batata doce e abóbora) e obtêm recursos financeiros através do governo e de vagas de empregos que eventualmente são oferecidas pelo Centro de Educação e Cultura Indígena – CECI (educação infantil), pela Escola Estadual Indígena Guarani Gwyra Pepó, pelo posto de saúde local, e da venda de artesanatos (como arcos e flechas, colares, apitos, flautas, chocalho e cestos), que geralmente são comercializados dentro da aldeia quando há visitas – que, aliás, são poucas.

Karai Tataendy é professor da Escola Estadual Indígena Guarani Gwyra Pepó – Foto: Divulgação / IFSC

Anualmente, a comunidade recebe cerca de dez grupos de visitantes. Tiago Honório dos Santos, ou Karai Tataendy (seu nome em guarani), é professor do ensino fundamental da escola. Nasceu em uma aldeia próximo ao litoral paulista, mas mudou-se com seus pais para Tenondé Porã antes de completar dois anos de idade. Assim como parte de seu povo, ele é cético em relação às visitas que se realizam na aldeia. “Não queremos ser vistos como um zoológico, né? Então, a gente prefere receber poucas visitas, porque recebemos vários tipos de pessoas… Uns querem pesquisar, outros só querem tirar a curiosidade. Então, a gente tem um certo cuidado com esse tipo de visita”, disse o guarani, de 24 anos.

A apresentação

“Dê uma pitada aí!”, disse Herbert a um dos cerca de 20 indígenas que estavam acomodados em um auditório, construído em formato de oca, na aldeia. Gentilmente, o índio levou o cachimbo aos lábios e o fumou, liberando a fumaça que subiu pelo ar.

O professor Herbert Alexandre João fala sobre física com os moradores da aldeia Tenondé Porã – Foto: Divulgação / IFSC

Então, o educador explicou que o ar quente sempre sobe, enquanto o frio desce. A regra vale para qualquer fluido líquido ou gasoso, sendo conhecida como “convecção térmica”. Usando outros exemplos do cotidiano e alguns experimentos didáticos, Herbert abordou outros conceitos estudados pela física, como o eletromagnetismo.

Há anos essas apresentações são feitas por Herbert e seus bolsistas, no IFSC, compondo o Show da Física, que faz parte do Programa Universitário Por Um Dia. O projeto atrai alunos do ensino médio à USP, onde assistem a experimentos de física e conhecem a infraestrutura da unidade, vivenciando o ambiente acadêmico.

As crianças se impressionaram com a execução dos experimentos – Foto: Divulgação / IFSC

Os indígenas que assistiram aos experimentos de Herbert são professores das Escolas Estaduais Indígenas Gwyra Pepó e Krukutu – esta última próximo a Tenondé Porã. Parte desses professores já havia conferido esses e outros experimentos de física quando participaram do programa no instituto, em outubro de 2016, através de uma parceria estabelecida entre o IFSC e a Diretoria de Ensino da Região Sul 3 de São Paulo.

Quando a apresentação de Herbert terminou, era hora do almoço e o prato principal consistia em arroz, feijão preto e quirera. A Escola Gwyrá Pepó atende em torno de 250 alunos (o CECI abrange cerca de 150 crianças) e assemelha-se a qualquer outra unidade de ensino básico do Estado, exceto pelas paredes enfeitadas com desenhos e fotos relacionados à cultura indígena, e pelas aves e cães que vivem na aldeia.

 O desafio

Após o almoço, os professores, acompanhados por alguns de seus alunos, regressaram ao auditório, até porque Herbert havia proposto um desafio a esses docentes: com base na apresentação feita pelo educador, os índios poderiam apresentar os mesmos experimentos aos seus estudantes, no idioma tupi-guarani.

 Educadores indígenas apresentam experimentos em tupi-guarani – Foto: Divulgação / IFSC

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Dos cerca de vinte professores, apenas dois aceitaram o desafio, com o público seguindo a dupla como se fossem mágicos: diminuíram o raio de um simples objeto quando o submeteram à temperatura fria do nitrogênio líquido, e fizeram uma bexiga e um canudo grudarem na parede, após esfregá-los nos cabelos, que também são condutores de eletricidade.

A experiência foi um grande sucesso, particularmente entre os índios mais jovens. As crianças gracejavam quando a tentativa de fazer um experimento falhava, e ficavam boquiabertas quando os experimentos eram executados com perfeição.

Liedson Tibes é um dos jovens que acompanharam as apresentações – Foto: Divulgação / IFSC

“Foi bem legal”, disse Liedson Tibes, animado, ao se referir à apresentação. Filho de indígenas que chegaram à aldeia há 16 anos, o jovem de 14 anos disse ter gostado da apresentação, principalmente quando um dos indígenas que assistiam aos experimentos foi convidado para se sentar em um banco giratório, segurando dois halteres pequenos no nível do peito – quando o índio girava segurando os halteres com os braços abertos, a velocidade do giro diminuía e, conforme fechava os braços diante do peito, a velocidade aumentava, em razão de uma maior concentração de massa corporal.

Claudio Vera foi um dos professores que aceitaram o desafio de apresentar experimentos de física – Foto: Divulgação  / IFSC

Claudio Vera, de 35 anos, dá aulas de artes e educação física para jovens do ensino fundamental da Escola Estadual Krukutu, que envolve aproximadamente 70 alunos. Ele participou do programa que ocorreu no IFSC em outubro de 2016, tendo sido um dos dois professores que aceitaram o desafio de Herbert. O professor indígena destacou a importância de se explicar os conceitos da física de modo didático e lúdico a seu povo, que geralmente aprende sobre a natureza a partir das histórias que ouve dos guaranis mais antigos.

Professora Teresa Regina Azevedo: educação escolar indígena tem se consolidado cada vez mais – Foto: Divulgação  / IFSC

De acordo com a professora Teresa Regina Azevedo, da Diretoria de Ensino – Região Sul 3 (São Paulo), a educação escolar indígena, assim como a colaboração estabelecida entre a Diretoria e o IFSC, tem se consolidado cada vez mais. “A nossa expectativa é que essa iniciativa [a oportunidade que os professores tiveram de apresentar os experimentos] possa trazer aos nossos alunos uma visão diferente da vivência que eles têm, sendo também uma experiência diferente e importante para a formação dos professores indígenas que não têm formação superior”, disse ela, minutos antes da apresentação de Herbert.

Professor Tito José Bonagamba, diretor do IFSC: unidade quer levar apresentações a outras aldeias – Foto: Divulgação /  IFSC

Para o professor Tito José Bonagamba, diretor do IFSC, o principal objetivo de integrar as comunidades indígenas no Programa Universitário por Um Dia é estabelecer um “canal de contato” com as escolas de aldeias, da mesma forma como já há com outras instituições de ensino municipais e estaduais. “Afinal, as escolas indígenas também são públicas”, enfatizou ele, quando o instituto recebeu alguns docentes indígenas em 2016.

Agora, mesmo não tendo os equipamentos e a infraestrutura que existem no instituto, os professores indígenas podem se basear nas apresentações do Show da Física, para ensinarem os mesmos conceitos físicos destacados pelo educador do IFSC, que tem a perspectiva de levar suas apresentações a outras aldeias, que posteriormente poderiam visitar o instituto para vivenciarem todas as atividades propostas pelo Programa Universitário por Um Dia, que inclui as visitas pelo Campus USP São Carlos.

Herbert usa elementos do cotidiano para abordar conceitos científicos – Foto: Divulgação / IFSC

Ao sair de Tenondé Porã, Herbert recordou algumas palavras que ouviu de Karai Tataendy, o professor Tiago Santos. “Lembro-me de que Tiago falou que os indígenas têm suas lutas, mas que, mesmo assim, pararam para ter esse dia de atividades de divulgação científica, o que valeu a pena, porque ele pôde ver o brilho nos olhos dos professores e dos alunos indígenas.”

“Xondaro”

Parte dos guaranis que vivem nesse território indígena foi retratada na história em quadrinhos Xondaro (em português, o termo significa “guerreiro”), do artista Vitor Flynn Paciornik. O livro resgata alguns episódios da luta desses índios pela valorização de sua cultura, relatando, por exemplo, o dia em que Werá Jeguaká Mirim, um jovem guarani, foi convidado para participar da abertura da Copa do Mundo de 2014, no Itaquerão (SP), onde ergueu uma faixa vermelha, em que se podia ler “demarcação”.

A HQ, publicada em 2016 pela Fundação Rosa Luxemburgo e Editora Elefante, está disponível para empréstimo na Biblioteca Professor Bernhard Gross do IFSC.

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Thierry Santos e Rui Sintra / Assessoria de Comunicação do IFSC

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