Física da USP quer criar laboratório móvel para analisar obras de arte

Estrutura evitaria necessidade de deslocar obras para os laboratórios e contribuiria com sua preservação

Por - Editorias: Universidade
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Tela "A adivinha", de Achille Funi: radiografia digitalizada feita pelo Instituto de Física revelou um balcão que não aparece na arte final
Detalhe da tela A adivinha, de Achille Funi: radiografia digitalizada feita pelo Instituto de Física revelou um balcão que não aparece na arte final

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Quando física e arte dão as mãos, abre-se um amplo – e colorido – leque de conhecimentos. Na USP, um grupo de pesquisadores já ajudou a desvendar como Portinari combinava os pigmentos para criar as cores de suas telas e encontrou traçados em uma tela do italiano Achille Funi que não aparecem na pintura final.

Radiografia digitalizada, fluorescência de raios X e reflectografia de infravermelho são exemplos de técnicas utilizadas para analisar obras de arte. Mas os pesquisadores do Núcleo de Apoio à Pesquisa (NAP) de Física Aplicada ao Patrimônio Histórico e Artístico (FAEPAH) da Universidade querem fazer muito mais.

Hoje, quando algum museu ou instituição solicita aos cientistas que façam uma determinada análise, dependendo do tipo de demanda, é preciso transportar a obra para os laboratórios do Instituto de Física, onde ficam alguns equipamentos fixos necessários, por exemplo o sistema de radiografia. Alguns outros, no entanto, são portáteis e permitem que parte dos estudos sejam feitos no próprio local – uma vantagem em termos de segurança, conservação e possibilidades de pesquisa.
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Capela da Nona
Detalhe da Capela da Nonna no museu Casa de Portinari em Brodowski – Foto: Divulgação/Museu Casa de Portinari

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A coordenadora do núcleo e professora do Instituto de Física (IF) da USP, Márcia de Almeida Rizzutto, explica que o intuito dos pesquisadores é criar um laboratório móvel, como já existe em outros países, para aperfeiçoar as análises. “Queremos uma infraestrutura de pesquisa completa que possa ser montada dentro dos museus”, afirma. Alguns desses equipamentos são mais caros e já foram solicitados em órgãos de fomento, mas os recursos ainda não foram disponibilizados e ainda faltam vários itens para completar o laboratório móvel.

Utilizando um sistema de radiografia portátil, a leitura das obras seria toda digitalizada, exemplifica a professora. Por meio de um sistema sem fio, as informações da imagem da radiografia seguiriam direto para o computador dos pesquisadores. “Assim, faríamos facilmente as análises técnicas e o processamento de informações, para então discutir com os especialistas”, conta Márcia.

A portabilidade de alguns equipamentos foi o que permitiu à pesquisadora estudar a Capela do Museu Casa de Portinari, localizada na cidade de Brodowski, no interior de São Paulo. Lá, o artista pintou murais que seriam impossíveis de transportar até a USP. A pedido do museu, Márcia utilizou técnicas de fluorescência de raios X, Raman e técnicas de imagens multiespectrais como ultravioleta e infravermelho para estudar as obras e seu estado de conservação.

Leia mais na reportagem Capela do Museu Casa de Portinari é avaliada por pesquisadores da USP

Tarsila na USP

Márcia de Almeida Rizzutto analisa a obra "A Negra" de Tarsila do Amaral - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Márcia de Almeida Rizzutto analisa a obra A Negra, de Tarsila do Amaral – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

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A tela A negra, da pintora Tarsila do Amaral, é uma das obras do acervo do Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP que passaram por análises no Instituto de Física. No próximo ano, a obra será emprestada para uma mostra itinerante nos Estados Unidos, então as imagens de radiografia ajudam a identificar o estado de conservação da obra – um exame muito mais detalhado do que o laudo técnico feito a olho nu – além de revelar parte do processo criativo da artista. Análises em andamento podem identificar a paleta de pigmentos usada pela artista bem como tentar descobrir se há desenhos subjacentes na obra e possíveis correções feitas pela artista.

A Negra, obra de Tarcila do Amaral - Reprodução
A Negra, obra de Tarsila do Amaral, integra o acervo do Museu de Arte Contemporânea da USP – Reprodução

O pedido foi feito pela presidente da Comissão de Pesquisa do MAC, Ana Gonçalves Magalhães. “As análises e estudos nos auxiliam em muitos aspectos e dão um apoio imenso à conservação das obras”, afirma. Para a professora, a principal vantagem de um laboratório móvel é evitar o deslocamento das telas e peças, contribuindo para sua preservação.

Além disso, não seria viável para um museu adquirir uma infraestrutura como a proposta pelo Instituto de Física. “É um conjunto de equipamentos caros e, no caso de um único museu, poderia ficar muito tempo ocioso”, observa Ana. Para o Instituto de Física, no entanto, seria uma forma de atender várias instituições e estudar e aperfeiçoar continuamente as tecnologias. Segundo Márcia Rizzutto, mesmo sem todos os equipamentos de um laboratório móvel, os trabalhos estão sendo realizados com uma infraestrutura montada pelos diferentes financiamentos obtidos, mas um laboratório móvel mais bem equipado poderia ajudar muitas instituições com diferentes acervos museológicos.

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