Fim da ditadura impulsionou criação de instituto da USP

A abertura democrática possibilitou que professores aposentados compulsoriamente pelo AI-5 fossem reintegrados à Universidade; nesse contexto, surgiu o Instituto de Estudos Avançados

Por - Editorias: Universidade
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IEA 30 anos
Carlos Guilherme Mota, fundador e então diretor do IEA, recebe os escritores José Saramago e Luandino Vieira, em 1998 – Foto: Arquivo IEA

No último dia 29 de outubro, o Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP celebrou o 30º aniversário de sua criação, ocorrida no primeiro ano da volta do País à democracia, em 1986.

A abertura democrática, fase final da ditadura militar no Brasil, possibilitara várias mudanças na USP. Professores que haviam sido aposentados compulsoriamente pelo Ato Institucional nº 5, em 1969, foram anistiados e podiam se reintegrar à Universidade. Em 1976, foi criada a Associação dos Docentes da USP e reativado o Diretório Central de Estudantes. Em 1979, a Associação dos Funcionários da USP (atual Sintusp) passava a atuar como sindicato. Essas três entidades organizaram, em 1980 e 1984, congressos para discutir a estrutura e a governança da Universidade.

Foi nesse contexto de gradativa transformação das instituições, ampliação das liberdades democráticas e de reconstrução da sociedade brasileira pós-ditadura que surgiu o IEA, por meio de portaria do então reitor José Goldemberg. A ideia já tinha sido debatida em vários fóruns e por um grupo de estudo especialmente criado para esse fim.

noanchonsky
Noam Chomsky foi um dos conferencistas no 10º aniversário do IEA, em novembro de 1996 – Foto: Arquivo/IEA

A criação do IEA insere-se num amplo movimento de revitalização cultural e social, como exemplificam outras iniciativas surgidas 1986, caso da Editora Companhia das Letras, do “Caderno 2” do jornal O Estado de S. Paulo, da revista Nova Escola da Editora Abril e da Fundação SOS Mata Atlântica.

Nesses 30 anos, foram inúmeras as atividades desenvolvidas pelos programas, áreas, projetos, grupos de pesquisa, grupos de estudo, cátedras e pesquisadores (integrantes de agrupamentos de pesquisa e professores visitantes, honorários e em período sabático).

Assuntos internacionais, meio ambiente, educação, direitos humanos, ciências moleculares, Mercosul, livre-comércio, saúde pública, Amazônia, segurança alimentar, revisão constitucional, mudanças climáticas, sistema de governo, biodiversidade, democracia e relações capital-trabalho passaram a ter no instituto um espaço propício ao debate interdisciplinar.

É preciso destacar também a importância do papel desempenhado pela revista Estudos Avançados ao longo da história do instituto. Lançada no final de 1987, a publicação chega neste quadrimestre à sua 88ª edição e desde o ano passado é o periódico mais consultado na SciELO (Scientific Electronic Library Online).

Momento atual

Ser avançado é prospectar o futuro. Por isso é da natureza do instituto estar sempre em busca de novas oportunidades e formatos para o incentivo à pesquisa e ao debate de ideias.

Nos últimos anos, uma das diretrizes foi atingir maior grau de internacionalização. Isso foi possível com o ingresso na rede Ubias (University-Based Institutes for Advanced Study), da qual o IEA participou da criação, em 2010. Atualmente, o instituto é um dos vice-coordenadores da rede, que reúne 37 IEAs vinculados a universidades de todos os continentes.

Alfredo Bosi (à esq.), Gerhard Malnic (entrevistado pela Rádio USP) e José Goldemberg no lançamento da revista "Estudos Avançados" em dez/1987 - Foto: Divulgação
Alfredo Bosi (à esq.), Gerhard Malnic (entrevistado pela Rádio USP) e José Goldemberg no lançamento da revista Estudos Avançados em 1987 – Foto: Divulgação

Em abril de 2015 e março de 2016 o IEA e o Instituto de Pesquisas Avançadas da Universidade de Nagoia, Japão, realizaram  a Intercontinental Academia, primeira atividade conjunta de integrantes da Ubias. Nela, 13 pesquisadores, com menos de 40 anos, de vários países e várias áreas das ciências naturais e sociais, tiveram como tema de trabalho as várias concepções do tempo na ciência e na cultura.

Outra iniciativa recente foi a implantação, em 2016, do Programa Ano Sabático, pelo qual pesquisadores da USP podem se afastar das atividades normais em suas unidades para se dedicar a um projeto específico no instituto pelo prazo de seis meses a um ano.

Também este ano, foi inaugurado um novo posto de pesquisa, a Cátedra Olavo Setubal de Arte, Cultura e Ciência, patrocinada pelo Itaú Cultural. Seu primeiro ocupante é o sociólogo e filósofo Sérgio Paulo Rouanet.

Todavia, como bem lembra o diretor do instituto, Paulo Saldiva, “ao se falar dos desafios do IEA, o que está em pauta são os desafios da própria Universidade”. Para ele, além do diálogo com a sociedade, há o desafio natural de “produzir conhecimento de melhor qualidade, combater os fundamentalismos de qualquer natureza e procurar dissecar os problemas complexos por meio do questionamento em todas as áreas do saber”.

Com esses objetivos em mente, o IEA adicionou à sua agenda, no ano de seu 30º aniversário, quatro novos programas temáticos.

O primeiro é o projeto USP Cidades Globais, já em andamento, que pretende aglutinar pesquisas da Universidade que possam contribuir para a melhoria da qualidade de vida nas metrópoles, tendo como foco inicial, evidentemente, a região metropolitana de São Paulo.

No início de 2017, terá início outro projeto: o Seminário Avançado de Formação de Lideranças Políticas, com a intenção de colaborar com a preparação de atores políticos com mais credibilidade e conhecimento suficientes para o enfrentamento das questões críticas da sociedade brasileira.

Foto: Leonor Calasans/IEA
A partir da esquerda, Fábio Feldmann, Wilson Jacob Filho (FMUSP), Vahan Agopyan (vice-reitor), Fernando Haddad (prefeito de São Paulo), Paulo Saldiva (diretor do IEA) e Marcos Buckeridge (IEA) no lançamento do projeto USP Cidades Globais, em 13 de julho – Foto: Leonor Calasans/IEA

A terceira iniciativa prioritária para o período 2016-2020 é induzir discussões que façam a USP passar de objeto a ser transformado a agente transformador. Prevê-se para o IEA um papel de centro de referência sobre processos e perspectivas de mudança da Universidade e, ao mesmo tempo, incubadora de iniciativas inovadoras no que se refere à participação da Universidade na transformação da sociedade.

A criação de um núcleo de estudo sobre novas metodologias de aprendizado voltadas ao ensino fundamental e médio é a quarta diretriz. O objetivo é integrar educadores, professores, cientistas, alunos, game designers e outros profissionais na criação de recursos digitais mais eficazes para o processo de aprendizado dos jovens.

Como se vê, o IEA está sempre em transformação, e nem poderia ser diferente para uma instituição que trabalha com a ciência, a cultura e as prioridades para o desenvolvimento do País.

As realizações em 30 anos são muitas e extremamente diversificadas. Constituem um passado de contribuições à USP e à sociedade. O IEA se orgulha do que já fez, pois em tudo perseguiu objetivos vinculados aos compromissos perenes que assumiu desde a sua fundação, em 1986.

Essa coerência é a plataforma que permite ao instituto projetar-se em direção ao futuro, uma tarefa que exige criatividade, ousadia e determinação, além de extrema sintonia com as prioridades de cada momento, pois, como disse um recente laureado com o Prêmio Nobel, “os tempos estão mudando”.

Mauro Bellesa / Instituto de Estudos Avançados da USP

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