USP Debate incentiva argumentação e tolerância na Universidade

Projeto de extensão criado por estudantes fomenta a cultura de discussão no ambiente acadêmico, comum em países desenvolvidos

Por - Editorias: Extensão
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Atualizado em 20 de setembro, às 12h

Jornada Eleitoral, uma parceria USP Debate e Rádio USP - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Jornada Eleitoral, uma parceria USP Debate e Rádio USP – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

 

Quatro estudantes se sentam de cada lado do pequeno auditório do Faculdade de Odontologia da maior universidade da América Latina. De um lado, os alunos defendem a permissão de festas com bebida alcoólica dentro do campus da Cidade Universitária; do outro, a proibição. Está começando mais uma reunião do projeto USP Debate, que traz a discussão de problemáticas da atualidade com argumentação embasada e compreensão de diferentes posições na Universidade.

A opinião dos que elaboram argumentos para defender sua casa, nome dado a cada um dos lados do debate, porém, não importa no momento – a posição que os participantes defendem é sorteada antes do início do evento. Após as exposições e discussão, é determinado o lado vencedor. As reuniões são semanais, aos sábados de manhã, e são abertas a qualquer interessado.

A prática é tradicional em países como Inglaterra, Portugal e Estados Unidos. No Brasil, porém, a cultura de discussões organizadas na universidade é nova e vem crescendo nos últimos quatro anos. O projeto USP Debate é uma das poucas iniciativas do tipo no País engajadas com as diferentes formas de pensamento presentes no ambiente acadêmico.

Público na Jornada Eleitoral – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

O USP Debate faz uma adaptação do modelo mais utilizado mundialmente pelos grupos do meio, o British Parliamentary, que estimula os participantes a entenderem as diferentes posições presentes na discussão de um tema. Sua criação, no final de 2014, foi de encontro à polarização política da sociedade brasileira em um ano turbulento de eleições.

O projeto começou por iniciativa do então aluno de graduação da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da USP, Henrique Vitta. “Senti falta da pluralidade na forma de pensar e em discutir problemas e soluções da sociedade, de conhecer mais profundamente os principais temas e de formar minha opinião com base em boas referências e ponderando visões diferentes”.

Após participar da primeira edição do Campeonato Brasileiro de Debates, em 2014, Vitta junto a outros dois colegas, Pedro Augusto e Arthur Oliveira, também alunos da FEA que compartilhavam o incômodo em relação à polarização política e a falta de espaço para discussão, estruturou a proposta. Em 2015, o professor Cícero Araújo, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, tornou-se coordenador da iniciativa, que passou de grupo de estudos para projeto de extensão da Universidade.

O órgão que dá consultoria às sociedades de debate universitário no País e faz a comunicação entre elas é o Instituto Brasileiro de Debates (IBD). O instituto auxilia as sociedades em formação a aplicarem e adaptarem os modelos de debate existentes, além da organização do Campeonato.

A iniciativa, aberta para participação de qualquer um que tenha interesse, preza pela empatia com as diferentes posições e formas de entendimento dos assuntos da atualidade.

Trajetórias no debate

Jonatas Gonçalves, aluno da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da USP e Bruno Alves, aluno de Letras na FFLCH, ambos frequentadores do USP Debate, participaram do último Campeonato Brasileiro de Debates, que ocorreu entre os dias 7 e 10 de setembro. A dupla conseguiu a primeira colocação em dois dos oito debates classificatórios que participaram.

Alves conheceu o projeto pelo panfleto que recebeu em uma intervenção realizada por seus membros em frente ao bandejão central da USP. Para ele, a maior vantagem do ambiente de debate é a oportunidade de compartilhar ideias com pessoas de outros institutos da universidade. “É muito interessante você conhecer os departamentos e as narrativas pessoais de cada um. A USP oferece a grade de optativas que, de fato, é interligada academicamente, mas ainda é pouco. Eu prezo muito um ambiente que tem pessoas diferentes, é muito interessante para aprender”, diz.

Cartaz de divulgação da Jornada Eleitoral – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Para Gonçalves, a participação auxiliou na aceitação e respeito a ideias diferentes. “As opiniões que surgem são bem qualificadas, então você passa a baixar um pouco a orelha para ouvir. Você ouve para tentar entender e não para tentar responder”, afirma.

Bianca Checon, aluna de doutorado na FEA e uma das organizadoras da iniciativa neste ano, reconhece que a participação no projeto a estimulou a estudar assuntos fora de sua área de especialidade. “Me encantou a possibilidade de treinar o raciocínio na fala, porque ter que debater na frente de outras pessoas e exprimir uma opinião em relação a um tema a favor ou contra requer um exercício de lógica, para fazer a amarração”, afirma.

Em agosto, o USP Debate organizou em parceria com o Jornal da USP a Jornada Eleitoral, um debate entre os candidatos à prefeitura de São Paulo. O debate, que foi transmitido ao vivo pela Rádio USP, contou com a presença de seis dos 11 candidatos. A ideia de realizar o evento começou em março, quando o atual prefeito da cidade, Fernando Haddad, fez uma palestra na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP sobre o plano diretor da capital. Durante o evento, participantes do USP Debate iniciaram o contato com um de seus assessores.

Como acontecem os encontros

As reuniões do grupo começam com uma apresentação de técnicas de debate e exercícios de fala e linguagem corporal, que precedem a leitura de um texto base e roda de conversa com os presentes sobre o assunto que será debatido. É feito o sorteio do lado que cada dupla ou grupo defenderá e finalmente acontece o debate. “As reuniões não têm nada muito especializado. A gente mesmo não conhece tão bem os temas que vamos debater, a gente usa pesquisas ou o texto pra conhecer um pouco melhor, e o próprio debate serve pra isso, a gente amplia o nosso leque de conhecimento sobre o tema”, afirma Lucas Silva, graduado em música na Unicamp.

Segundo Bianca, o próximo passo para o projeto é o envolvimento maior dos professores, que podem trazer perspectivas de acordo com sua especialidade.

Modelo britânico

O British Parliamentary é o modelo utilizado nos campeonatos internacionais de debate universitário. A sua dinâmica envolve a formação de quatro duplas, duas que serão a favor da moção proposta, a defesa, e duas que serão contra, a oposição.

As duas primeiras duplas a expor, uma de defesa e outra de oposição, devem fazer uma apresentação do tema antes de expor o argumentos e as duas últimas duplas, um resumo dos pontos colocados anteriormente. Durante o debate, existem os pontos de informação, em que, durante o discurso de uma bancada, a bancada oposta pode pedir para fazer perguntas e quem está discursando pode ou não conceder o tempo.

No Campeonato Brasileiro de Debates, organizado pelo IBD, o assunto amplo é dado duas semanas antes e o tema específico, juntamente à moção, que as duplas irão defender ou se opor é revelado 15 minutos antes do início do debate.

Segundo Maria Luísa Sá, uma das diretoras do IBD, há a pretensão de levar duplas brasileiras para competir internacionalmente a médio prazo. “As competições internacionais, principalmente na Europa, já têm 400 anos de história. Estamos tentando, em seis anos, chegar perto desses 400 anos de vivência de debate cotidiano deles para ter duplas boas e competitivas”, constata um dos diretores do IBD, Matheus Miranda.

Acompanhe na página do USP Debate no Facebook a programação de eventos do projeto.

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