Situação financeira da USP predomina no 1º debate de candidatos a reitor

As quatro chapas apresentaram suas propostas e responderam a questionamentos do público em São Carlos

Por - Editorias: Comunidade USP
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Cerca de 200 pessoas acompanharam presencialmente o debate com candidatos a reitor e vice-reitor realizado em São Carlos – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

No primeiro debate entre as quatro chapas de candidatos a reitor e vice-reitor da USP, o assunto mais falado não poderia ser diferente: a situação econômica da Universidade. Cerca de 200 pessoas acompanharam presencialmente o encontro nesta quinta-feira, 5 de outubro, na USP em São Carlos, que também foi transmitido ao vivo pelo IPTV USP e pelo canal no YouTube da Superintendência de Tecnologia da Informação (STI).

Na apresentação dos candidatos, duas das quatro chapas criticaram medidas adotadas pela atual gestão para combater o desequilíbrio financeiro. As outras duas destacaram que as ações tomadas nos últimos quatro anos foram necessárias e que a Universidade está se recompondo.

Os candidatos ainda responderam a quatro questionamentos do público compilados pelo mediador do debate, o jornalista de Ciência do jornal Folha de S. Paulo, Reinaldo José Lopes. Reposição das perdas salariais, progressão na carreira, inclusão social dos estudantes, pesquisas voltadas à sociedade, influência da USP no sistema universitário e a democratização na Universidade foram temas presentes nas perguntas.

Apresentação

Na primeira parte do debate, cada chapa teve 10 minutos de apresentação. Os primeiros foram da chapa 3, que tem como candidato a reitor Ildo Luís Sauer, do Instituto de Energia e Ambiente, e a vice-reitor,  Tércio Ambrizzi, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas.

Ildo Sauer – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Para Sauer, medidas da atual gestão da Universidade para enfrentar a crise não foram adequadas, como sinalizar que a culpa pela situação econômica era dos funcionários técnico-administrativos e realizar um Plano de Incentivo à Demissão Voluntária (PIDV) sem um diagnóstico prévio ou ajuste dos processos administrativos. Ele mencionou a falta de capacidade de articulação da USP para conduzir a transferência do Hospital Universitário (HU) para o governo estadual e a necessidade de retirar as grades em volta do prédio da Reitoria para o restabelecimento do diálogo e convivência na Universidade.

Sobre seu programa de gestão, destacou a ampliação de espaço para áreas interdisciplinares, como novos materiais, biotecnologia, a questão energética e ambiental; e o uso do aprendizado ativo. Outros pontos mencionados foram a maior participação da USP na formação de políticas públicas de educação e saúde em cidades paulistas.

“Precisamos de recursos para manter o custeio adequado e investimentos, portanto, ainda que os processos de racionalização da gestão poderão aportar recursos, o caminho é a liderança para dentro, para reestruturar a USP, e a liderança para fora, para estabelecer um novo pacto com as autoridades do governo do Estado de São Paulo, o Executivo, o Legislativo, o setor produtivo, áreas de comunicação e os movimentos sociais para restaurar a grande reputação que a Universidade sempre teve, que vem do esforço feito ao longo das décadas por todos os servidores e docentes”, declarou o candidato.

A segunda chapa a se apresentar foi a 2, composta pela candidata a reitora Maria Arminda do Nascimento Arruda, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, e a vice-reitor, Paulo Borba Casella, da Faculdade de Direito.

Maria Arminda – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Casella falou que a chapa pretende restaurar o prestígio da USP e enfatizar que o seu maior capital é humano, formado por docentes, alunos e funcionários, e que esse capital não pode ser negligenciado. Maria Arminda destacou três itens do programa de gestão, que são: diagnóstico sobre a Universidade, a relação entre esse diagnóstico e o sentimento no âmbito da USP, e pensar alternativas.

De acordo com a candidata, a comunidade USP, hoje, vive um sentimento de mal-estar e uma sensação de que o futuro da Universidade está comprometido. E que isso seria resultado de uma confusão entre equilíbrio financeiro e financeirização. Ela explicou que a financeirização não é sinônimo de saúde financeira e sim um subproduto da ideia de custos excessivos que, em uma instituição superior, provoca corte de funcionários.

“Só que uma universidade não existe sem um corpo docente e um grupo administrativo qualificado e, ao mesmo tempo, sem formar estudantes voltados para esse novo mundo. Tudo isso parece distante da Universidade com as medidas que foram tomadas. Temos muitos professores temporários, laboratórios sem técnicos, isso não é possível acontecer em uma universidade do porte da USP”, declarou Maria Arminda, que completou: “Por isso, a proposta desse programa é de manter equilíbrio financeiro, mas negociar com soberania e altivez. Não detratar esse patrimônio da sociedade paulista. A USP tem que se preparar para esse novo mundo e a sua autonomia emancipatória é soberana, não pode estar submetida a mecanismos financeirizados, que são frutos e oriundos das corporações e do mundo global”.

A terceira chapa a falar foi a 4, que tem como candidatos a reitor Ricardo Ribeiro Terra, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, e a vice-reitor, Albérico Borges Ferreira da Silva, do Instituto de Química de São Carlos. Terra elogiou as medidas tomadas pela atual gestão da USP para combater o desequilíbrio financeiro e falou da necessidade de mantê-las e ampliá-las.

Ricardo Terra – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

“O núcleo da nossa proposta pode ser sintetizado em duas questões: como transformar uma federação frouxa de unidades em uma universidade? Quais as missões da Universidade hoje em relação à sociedade, ao Estado e à economia?”, disse o candidato.

Sobre o programa de gestão, ele falou da importância da avaliação docente e institucional baseada em projetos acadêmicos; a necessidade de consolidar as políticas de permanência estudantil; a criação de um código disciplinar e a reforma do Código de Ética para incluir conflitos sobre diversidade; e a ampliação de projetos como o InovaUSP, que reúne grandes laboratórios vinculados à Reitoria, e não a unidades específicas.

Segundo Silva, a chapa pretende ampliar o protagonismo do vice-reitor, que seria um interlocutor entre a Reitoria e as unidades e também no relacionamento com instituições como a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo e a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia. O professor falou também sobre a criação de um programa de busca de talentos entre estudantes do ensino médio.

A última chapa a se apresentar foi a 1, formada pelos candidatos a reitor Vahan Agopyan, da Escola Politécnica, e a vice-reitor, Antonio Carlos Hernandes, do Instituto de Física de São Carlos. Agopyan disse que a USP passou por uma etapa importante da sua consolidação como uma instituição que consegue superar crises financeiras. Lembrou que a Unesp e a Unicamp também estão adotando medidas para o equilíbrio financeiro, e que o momento é de propor novos desafios, como manter e melhorar a excelência da Universidade e inseri-la, cada vez mais, na sociedade.

Vahan Agopyan – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

“Excelência não é um modismo ou arrogância da nossa Universidade. É obrigação de retornar aos contribuintes do Estado de São Paulo uma universidade de excelência, essa é a nossa obrigação. Obviamente, as nossas ferramentas para isso incluem internacionalização, interdisciplinaridade, inovação, inclusive a avaliação, lembrando que a avaliação é uma ferramenta de gestão e não de punição”, disse o candidato.

Para Hernandes, o trabalho de recuperação econômica feito nos últimos anos permitiu que a USP mantivesse a liderança com seus cursos de graduação. Afirmou que o momento é de esperança, com superação de uma etapa, com uma universidade mais inclusiva e diversa e trazendo para a sala de aula diferentes condições para entendimento do que é a real sociedade.

Questionamento

A situação econômica da USP voltou a aparecer na rodada de perguntas aos candidatos. As chapas foram questionadas sobre propostas para repor perdas salariais e lidar com a progressão de carreira sem afetar o planejamento financeiro da Universidade, formas de negociação menos assimétricas e mais democráticas, e como melhorar e recuperar estruturas para a comunidade USP, como as creches e o Hospital Universitário.  

Candidatos no debate em São Carlos – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Na ordem do debate, Agopyan disse que a valorização dos recursos humanos envolve a progressão horizontal dos docentes e da carreira dos funcionários. Ressaltou que deve-se manter um controle rígido das finanças para ter folga orçamentária e possibilitar melhorias nas carreiras e novas contratações. “A questão salarial, é importante lembrar, não é somente a Universidade de São Paulo que tem essa autonomia. Trabalhamos com nossas coirmãs e isso exige um acordo entre as três universidades paulistas e os seis sindicatos dos nossos docentes e funcionários técnico-administrativos. Se continuarmos tendo controle financeiro, nossa proposta é tentar dar outros tipos de benefícios dentro do nosso orçamento.”

Maria Arminda disse que a sustentabilidade financeira é fundamental e reforçou a diferença entre financeirização e saúde orçamentária. “Financeirização é reduzir, ou pelo menos privilegiar, medidas que atentam contra o sentido da universidade. Isso não significa que não seja necessário cortar custos, mas pensar diferenciadamente realidades diversas e em quais campos é possível cortar sem comprometer o ensino, a pesquisa, o corpo docente, o corpo funcional, que é fundamental para que os laboratórios funcionem e para as unidades de ensino.”

Para Ildo Sauer, a questão da reposição das perdas salariais e da retomada da progressão na carreira é importante para funcionários e docentes. No entanto, lembrou que o comprometimento da receita vinda do ICMS com o pagamento de salários demandará um esforço de gestão. “É possível diminuir muito dos custeios, racionalizar os processos de gestão, buscar, no médio prazo, a legislação que racionalize mais ainda o processo reduzindo a burocracia. Além do diálogo com o governo do Estado, a Assembleia Legislativa, junto com as universidades coirmãs.”

Ricardo Terra falou da necessidade de manter a sustentabilidade financeira e a reposição salarial de funcionários e de professores, mas afirmou que essa recuperação dependerá do andamento da economia. “Temos que melhorar a utilização dos recursos e, secundariamente, buscar outras fontes de recursos, mas isso demora. [Uma medida] de curto prazo seria a progressão horizontal e teríamos que vinculá-la ao estabelecimento rápido, eficaz, do novo processo de avaliação da nova CPA. Teríamos que pensar em algo similar para os funcionários”, afirmou.

No final do debate, estudantes do curso de Medicina de São Paulo entregaram e leram uma carta cobrando compromisso aos candidatos em relação ao Hospital Universitário.

O debate completo pode ser acessado neste link. O próximo debate ocorrerá em Ribeirão Preto, no dia 11 de outubro.

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