Aos 96 anos, Walter Bloise concilia atuação de médico e docente na USP

Endocrinologista contribuiu para desenvolvimento da especialidade no Brasil com trabalho no Hospital das Clínicas e na USP

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Com 75 anos de carreira, o professor Walter Bloise é um dos responsáveis pelo desenvolvimento da endocrinologia na USP e no Brasil – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

A história da carreira de Walter Bloise está entrelaçada ao desenvolvimento da área de Endocrinologia do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). Aos 96 anos de idade, ele continua exercendo as profissões de médico e professor.

Uma olhada rápida em seu currículo impressiona, tamanha a quantidade de cursos, simpósios, congressos, bancas e orientações acadêmicas dos quais participou, assim como os números de sua produção bibliográfica.

Para se ter uma ideia dessa grandeza, foram mais de 70 participações como membro de bancas examinadoras, congressos, simpósios e jornadas; publicação de mais de 100 trabalhos científicos no Brasil e exterior, o que inclui a produção e coprodução de livros e artigos acadêmicos; além de incontáveis prêmios que revelam sua importância para o ensino e a pesquisa em endocrinologia, como a medalha de comemoração dos 50 anos da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), um reconhecimento pela sua contribuição à instituição.

“Sou modesto, não gosto de aparecer e muito menos me vangloriar do que fiz. Embora, reconheço que fiz muita coisa”, diz Bloise com razão, já que os 75 anos dedicados à medicina — e à cadeira de membro honorário que possui desde 1983, na Academia de Medicina de São Paulo — falam por si.

Formação

Nascido em 25 de julho de 1921, Walter Bloise é paulistano e formou-se médico na FMUSP em 1948, posteriormente se especializando em endocrinologia, em 1951. O início de sua formação “como aluno e médico, fora as disciplinas da faculdade, foi feita com o professor José Ramos Jr.”, clínico, livre-docente e professor associado da FMUSP e do HC. Bloise conta que começou a trabalhar na clínica de Ramos na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, ao mesmo tempo em que fazia a residência em Clínica Médica no HC. “Eu atendia e acompanhava os doentes [na Santa Casa], depois ia para a aula [no HC]. E o professor José Ramos era um excelente professor. Chato, no sentido de exigente, mas fantástico.”

Walter Bloise na época em que participou da fundação do Núcleo de Intersexo e Moléstias Gonadais do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP – Foto: Arquivo pessoal

Quem o incentivou para a endocrinologia foi o professor Franklin Augusto de Moura Campos, que chefiou a disciplina de Fisiologia da FMUSP por 33 anos. “Me lembro que no quarto ano de faculdade, junto com o professor Franklin e mais alguns colegas, fundamos a primeira Sociedade de Endocrinologia do Brasil, em 1946, que deu origem à Sociedade Brasileira de Endocrinologia, em 1951”, diz Bloise, sobre os primórdios da atual Sbem.

A sociedade, que possui 3.415 filiados em todo o País, foi fundada a partir da associação de endocrinologistas renomados de São Paulo e Rio de Janeiro, com a participação de professores da FMUSP, como Antonio Barros de Ulhôa Cintra, ex-reitor da USP (1960-1963) e ex-presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – Fapesp (1961-1973).

Endocrinologia na FMUSP e no HC

Assim como Bloise, a carreira do professor Cintra também se confunde com a história da disciplina de Endocrinologia da USP, afinal, foi um dos principais responsáveis pela criação da cadeira, tanto na Faculdade de Medicina quanto no Hospital das Clínicas.

Após um período de estágio nos Estados Unidos, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), Cintra foi indicado para chefiar o Serviço de Moléstias da Nutrição e Dietética do HC, semente da atual disciplina de Endocrinologia do hospital. Em 1950, Cintra ganhou a disputa com José Ramos Jr. e assumiu a cadeira da Primeira Clínica Médica no HC — que aglutinava inúmeras disciplinas da área clínica, entre as quais a Endocrinologia. É neste momento que a carreira de Cintra e Bloise se encontram. “Continuei minha residência em Clínica Médica com o Cintra e fui contratado para ficar no HC, como seu assistente. Minha carreira deslanchou: fiz doutorado, livre-docência e comecei a dar aula”, conta.

Depois do doutorado, Bloise, que já trabalhava no pronto-socorro do HC, foi contratado para trabalhar no Hospital do Servidor Público Municipal (HSPM). Ali, se tornou chefe da Clínica Endocrinológica, onde trabalhou por quase três décadas, sendo homenageado em 2003 pelos serviços prestados ao HSPM.

Walter Bloise no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

Dividindo seu tempo entre as aulas na Universidade Santo Amaro — onde lecionou por 19 anos — e a chefia do Grupo de Tireoide da FMUSP, Bloise iniciou, junto com outros colegas, o Núcleo de Intersexo e Moléstias Gonadais do HC. Criado em 1988, o núcleo era “o primeiro grupo do Brasil a lidar com os problemas ligados a distúrbios na diferenciação gonadal e ao intersexo”.

Ele lembra que o núcleo possuía um caráter interdisciplinar, já que os casos estudados envolviam a participação de pesquisadores e médicos de outras áreas da medicina. “A gente discutia os casos com outras especialidades, inclusive com a cirurgia plástica, que era quem fazia as correções necessárias. A endocrinologia é uma área muito interdisciplinar”, conta o professor, que junto a outros especialistas desenvolveu o núcleo de tal forma, que ajudou a tornar o Hospital das Clínicas uma referência nacional no diagnóstico, tratamento, cirurgia e acompanhamento psicológico de pacientes que sofrem de distúrbios de desenvolvimento sexual.  

Trabalho contínuo

Atualmente, ele acredita que tanto a FMUSP quanto o HC, em termos de ensino e pesquisa na área de endocrinologia, “sem dúvida nenhuma são pioneiros e estão à frente de outros hospitais e faculdades do Brasil”, comentando também que, apesar da queda da USP nos rankings internacionais, a Universidade “é uma das que mais publicam anualmente em revistas de alto impacto”, e aponta que os Estados Unidos ainda são o grande centro do estudo da endocrinologia no mundo.

Hoje, enxerga que a forma como os profissionais examinam, diagnosticam e tratam os pacientes atualmente “piorou”, apontando como um dos fatores a má formação de profissionais e os interesses econômicos aos quais a medicina se submeteu. “Os médicos, mal-formados, apelam para os exames para ver se descobrem o que o paciente tem. Quando, pela anamnese — as conversas que o médico tem com o paciente —, já é possível fazer um diagnóstico na metade dos casos.”  

Aposentado, Walter Bloise não trabalha da mesma forma que antes, mas continua ativo: faz parte do corpo clínico da disciplina de Endocrinologia do HC, dá aulas para a pós-graduação da Faculdade de Medicina da USP e planeja escrever um livro sobre dieta e obesidade. “O dia em que eu não faço nada, que não estou escrevendo um trabalho, indo para o consultório ou para o hospital, fico deprimido. Falo para o meu filho, que é psiquiatra: ‘Eu preciso de um psiquiatra que ponha na minha cabeça que eu posso parar de fazer alguma coisa, de passar um dia sem fazer nada’”, diz, sorrindo e incansável, Walter Bloise.

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