Como um caderno ajuda a organizar a prática da pesquisa científica?

Na USP, ICB padronizou o famoso caderno de laboratório, onde cientistas registram todos os seus experimentos

Por - Editorias: Universidade
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Iniciativa do Escritório de Boas Práticas Científicas do ICB, o Caderno de Laboratório foi lançado em junho e será utilizado por todos os pesquisadores da unidade – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

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Quem acompanha o noticiário de ciência pelo jornal ou pela televisão fica sabendo apenas dos grandes feitos que acontecem nos laboratórios. O que nem todos podem adivinhar é a importância que um simples caderno pode ter no desenvolvimento desses estudos: o caderno de laboratório, como é conhecido, é onde os cientistas registram todos os detalhes e etapas dos seus experimentos.

Nesse diário, ficam guardados dados, protocolos, rótulos de reagentes, título e data de cada ensaio e ainda anotações sobre novas hipóteses de trabalho, comentários sobre os resultados obtidos e ideias que os cientistas têm para melhorar sua pesquisa – ou mesmo mudar completamente seus rumos. Dada sua relevância, o Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP decidiu que já era hora de ter um caderno padronizado para todos os seus pesquisadores e se tornou a primeira unidade da instituição a ter um Caderno de Laboratório próprio e oficial. O lançamento foi no dia 20 de junho.
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Durante apresentação aos pesquisadores do ICB, o diretor do instituto, Jackson Cioni Bittencourt, mostra um dos seus cadernos de laboratório – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

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O diretor do ICB, Jackson Cioni Bittencourt, conta que, hoje em dia, o pesquisador usa uma parte da verba que tem à disposição e compra um caderno comum, como os que se vendem em papelaria. O que muda, agora, é que o próprio instituto dará o material, adequando a prática a padrões internacionais e uniformizando seu uso. Os cadernos serão numerados e catalogados e devem, obrigatoriamente, ficar no laboratório. A unidade vai avaliar durante quantos anos, após o fim da pesquisa, ele precisa ficar lá para seguir, então, à biblioteca.

“O caderno e os resultados anotados nele são de propriedade do ICB. Não estamos inventando a roda, mas organizando essa prática aqui”, ressalta o diretor, que afirma ter usado como modelo o caderno que usou na época do pós-doutorado no Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), na França, um dos mais importantes órgãos de pesquisa no mundo.

Além da questão da propriedade intelectual, que é reforçada com essa padronização e descrita nas páginas iniciais do caderno, a grande vantagem de existir um material como esse é aumentar a segurança dos dados e do próprio autor do estudo. Isso porque pode haver, por exemplo, um questionamento sobre a data de um determinado resultado ou sobre os protocolos utilizados e divulgados em uma revista científica.

Outro ponto positivo é servir de consulta para outros pesquisadores, que podem verificar as concentrações e procedimentos utilizados em experimentos semelhantes ao que estão realizando no momento.

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Os cadernos devem, obrigatoriamente, ficar no laboratório – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

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Presidente da Comissão de Pesquisa do ICB, o professor Thiago dos Santos Moreira acredita que não haverá dificuldade na adesão ao Caderno de Laboratório. Bem recebida por coordenadores de programas de pós-graduação e chefes de departamento, a iniciativa passará a valer para todo o instituto, desde os alunos de iniciação científica até os de mestrado, doutorado e pós-doutorado.

Inicialmente, a ideia era que o caderno fosse oferecido apenas para quem ingressasse no ICB no segundo semestre deste ano; mas durante a apresentação da proposta, argumentou-se que todos se beneficiariam da nova prática, mesmo quem já estivesse nas fases finais de uma pesquisa.

A proposta de criar o Caderno de Laboratório partiu de uma iniciativa mais ampla do instituto: o Escritório de Boas Práticas Científicas, anunciado em setembro do ano passado.

O escritório é formado por algumas pessoas-chave nas atividades de pesquisa do ICB: os presidentes das Comissões de Graduação, de Pós-Graduação e de Pesquisa e os presidentes dos Comitês de Ética em Pesquisa com Seres Humanos e de Ética no Uso de Animais.

O objetivo é dar suporte à comunidade científica da unidade sobre as boas práticas em pesquisa, torná-las rotineiras nas atividades do ICB e desestimular más condutas e desvios. Com o caderno, o escritório avança no sentido de fortalecer o rigor e honestidade na coleta, registro e armazenamento de dados que circulam pelos laboratórios da unidade.

 

Como usar o caderno de laboratório?

Conheça algumas das principais orientações que os pesquisadores devem seguir

Indique, coloque a data e assine qualquer alteração ou adição realizada Não retire nenhuma folha do caderno nem pule páginas
Use tinta permanente nas anotações e evite utilizar lápis, borrachas e corretivos Faça um traço sobre o texto incorreto, de forma que ele continue sendo legível
Date e cole resultados na forma de fotos, dados impressos, gráficos, cartões de identificação em caixas de animais etc. Anote referências de procedimentos e protocolos usados nos experimentos; qualquer variação deve ser descrita
Nunca retire o caderno do laboratório Defina claramente os acrônimos, abreviações, iniciais ou códigos

 

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