Avanço de cães e gatos em área de conservação preocupa cientistas

Programa Cãoservação estuda problemas de saúde e preservação ambiental da convivência entre humanos, animais domésticos e silvestres e busca soluções

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Cão no entorno da reserva florestal - Foto: Divulgação
Cão no entorno da reserva florestal – Foto: Divulgação

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A entrada de animais domésticos em unidades de conservação ambiental é um problema enfrentado em todo o País. As consequências desse avanço afetam tanto os animais domésticos quanto a fauna nativa e até mesmo seres humanos. Para melhor compreender a situação e chegar a possíveis soluções, pesquisadores da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) trabalham juntos há um ano no programa Cãoservação.

Os estudos se concentram na região do Parque Estadual Carlos Botelho (PECB), área remanescente da Mata Atlântica com cerca de 2 mil quilômetros quadrados de floresta contínua, localizada no sudoeste do Estado de São Paulo. Próximo ao parque há o município de cerca de 33 mil habitantes São Miguel Arcanjo, na região metropolitana de Sorocaba, o que permite aos pesquisadores estudar a relação dos moradores da cidade e seus animais de estimação com a fauna silvestre do local.

Dentre os problemas causados por essa proximidade estão a predação de animais silvestres pelos cães e gatos, a competição territorial (o território dos animais nativos diminui com o avanço dos domésticos) e a transmissão mútua de zoonoses, que pode afetar os donos dos animais que entram na floresta.

Foi isso que motivou, segundo o professor Fernando Ferreira, da FMVZ, a parceria com ICMBio. “Já tínhamos experiência em nosso laboratório com esse tipo de pesquisa sobre zoonoses em áreas urbanas ao redor de São Paulo, e o ICMBio propôs que trabalhássemos no Parque Carlos Botelho”, diz.

O grupo coordenado por Ferreira é composto de professores da FMVZ, pesquisadores do ICMBio e estudantes de doutorado e pós-doutorado. Estes se dividem nas diferentes dimensões do problema, a humana, a dos cães e gatos domésticos e a dos animais silvestres, restringindo-se aos carnívoros, dentre os quais estão onças (pintadas e pardas), jaguatiricas, cachorros do mato, quatis, gatos maracajá, furões e uma variedade de outras espécies.

Trabalho de campo

Foto: Divulgação
Trabalho de campo da equipe do Cãoservação – Foto: Divulgação

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Ana Pérola Drulla Brandão, doutoranda da FMVZ, é responsável pela pesquisa humana do projeto. A pesquisadora, cujo trabalho ainda está em fase inicial, está desenvolvendo um questionário para parte da população dos bairros Abaitinga e Gaviões, localizados próximo ao Parque Estadual Carlos Botelho. “Quero deixar que as pessoas falem suas impressões sobre o problema, assim teremos uma noção melhor da realidade na qual estamos trabalhando e dos problemas que temos que solucionar”, explica.

As encarregadas das demais vertentes da pesquisa são Silvia Neri Godoy, pós-doutoranda da FMVZ e analista ambiental do ICMBio, responsável pelos animais silvestres; Anaiá da Paixão Sevá, pós-doutoranda da FMVZ, responsável pelos cães; e Tatiana Jimenez Villegas, doutoranda da FMVZ, responsável pelos gatos. Segundo Ana Pérola, embora todas tenham suas atribuições específicas, o trabalho é realizado em conjunto.

Para obter informações sobre o território dos animais silvestres, foram espalhadas diversas armadilhas fotográficas (câmeras que disparam quando o animal passa por elas) pela floresta, além de armadilhas físicas. O objetivo é capturar alguns animais para coleta de sangue e verificar se eles estão infectados com doenças ou parasitas. As armadilhas também permitem  aos pesquisadores saber até onde os cães e gatos domésticos avançam dentro do parque.

A equipe foi a campo para capturar animais silvestres em outubro, mas não obteve bons resultados devido às chuvas e outras complicações. Os pesquisadores planejam retornar no primeiro e segundo semestres do ano que vem  De acordo com Ana Pérola, serão implantados microchips nos animais capturados, de forma que, caso peguem o mesmo animal mais de uma vez, possam identificá-lo e fazer uma comparação com informações anteriores.

Foto: Divulgação
Coleta de material de cão doméstico – Foto: Divulgação

No caso dos animais domésticos, o grupo de pesquisadores passa de casa em casa, falando com os moradores sobre o programa e coletando sangue e pelos dos animais, além de vaciná-los e vermifugá-los, implantar microchip e colocar rádiocolares que permitem monitorar seu avanço na floresta. Já foram registrados 496 cães, enquanto a coleta dos gatos ainda está em fase inicial.

“O que observamos, por enquanto, é que os cães das casas que visitamos não entram tanto no parque. Os que mais avançam são os dos sítios em volta do parque, que ficam soltos e vão bem longe”, conta a pesquisadora.

Por meio desse cadastramento e monitoramento dos animais domésticos, os cientistas podem obter detalhes sobre as doenças, como sua distribuição no espaço. As doenças analisadas pelos pesquisadores em cães são a toxoplasmose, leishmaniose, leptospirose, febre maculosa, brucelose e parvovirose (todas zoonoses), além das não zoonoses neosporose e cinomose, que, segundo Ana Pérola, é especialmente preocupante.

“Os animais silvestres não têm imunidade para a cinomose, e ela se espalha com muita facilidade, é difícil controlar”, diz. Trata-se de uma doença viral transmitida pelo ar ou por contato direto como a animal infectado, e cujos sintomas incluem problemas respiratórios, intestinais e nervosos, podendo levar à morte. 

Nos gatos, as doenças analisadas são a toxoplasmose e as hemoparasitoses (zoonoses) e as não zoonoses FeLV (vírus da leucemia felina) e FIV (vírus da imunodeficiência felina).

Saúde única e educação ambiental

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Equipe do projeto Cãoservação – Foto: Divulgação

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“A transmissão de doenças é uma via de mão dupla: tanto os animais domésticos podem infectar os silvestres, quanto os silvestres podem contaminar os domésticos. Nesse caso, trazendo a doença da floresta para casa, o animal pode infectar pessoas”, afirma Ana Pérola, que diz que todas as doenças pesquisadas pelo programa Cãoservação podem afetar seres humanos.

Essa consciência é a base de um conceito que orienta o projeto, e que os pesquisadores esperam difundir no Brasil a partir de seus resultados: a saúde única. A ideia trabalha com a indissociabilidade entre a saúde dos seres humanos e o ambiente no qual estão inseridos, que inclui também os animais domésticos e silvestres, o que, segundo a equipe do projeto, é uma abordagem mais completa e atualizada da saúde.

“A ideia da saúde pública tem uma abordagem direcionada só para o humano, e o contexto das populações animais, do ecossistema, acaba sendo perdido. Nessa percepção da saúde única, tentamos contextualizar o problema de maneira mais completa para entender as interações que acontecem entre humanos, animais e vetores e que permitem a permanência das doenças nessas populações”, explica o professor Ferreira.

A ideia de pensar a saúde humana, animal e ambiental como uma só é parte dos objetivos do projeto que vão além dos resultados científicos e acadêmicos. Segundo Ana Pérola, a equipe espera ter até o final de 2017 resultados suficientes para levar a unidades de conservação que sofrem dos mesmos problemas do Parque Estadual Carlos Botelho alternativas para solucioná-los, além de elaborar junto às prefeituras e à população das cidades próximas a áreas de preservação programas de educação ambiental e políticas públicas para minimizar o problema, como o controle populacional dos cães e gatos através de castração.

“Paralelamente ao trabalho no Parque Carlos Botelho, o grupo do ICMBio enviou um questionário para todas as unidades de conservação do País para tentar dimensionar o problema. Estamos tentando chegar a uma solução que minimize o impacto, pois sempre haverá a população de animais domésticos enquanto houver humanos próximos aos parques”, afirma o professor. “É uma solução estabelecida aqui, mas que queremos que tenha aplicabilidade no Brasil”.

Ferreira afirma que diversos parques e unidades de conservação pelo País têm situações semelhantes aos do Parque Carlos Botelho, e que vários deles já demonstraram interesse no programa Cãoservação e nos resultados que podem ser obtidos. “Um dos parques que entrou em contato conosco fica dentro de Brasília, e lá eles têm um grande problema. Já submetemos um projeto ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e estamos aguardando financiamento para desenvolver um trabalho lá, com a mesma equipe que temos aqui”.

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