A difícil tarefa de avaliar a qualidade do ensino superior

Iniciativas nacionais e internacionais buscam formas de examinar a formação dos estudantes e o ensino das universidades

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A maior parte dos rankings internacionais atribui um peso considerável à reputação e à produção científica ao examinar as universidades. O ensino, que é o compromisso mais básico das instituições, acaba, assim, subavaliado, pela própria dificuldade em estabelecer indicadores em âmbito mundial. “O número de trabalhos [científicos] é possível de ser medido. Agora, a qualidade do ensino, como é que se mede?”, questiona o reitor da USP, Marco Antonio Zago.

O ensino é prioritário na definição de recursos e políticas na Universidade, segundo o pró-reitor de Graduação, Antonio Carlos Hernandes. Os números mostram a grandiosidade e relevância da graduação na USP: no primeiro semestre deste ano havia mais de 55 mil alunos matriculados, cursando 5.437 disciplinas.

O pró-reitor ressalta que as medidas não são adotadas visando à subida nos rankings, mas com o objetivo de melhorar a graduação a partir de desafios atuais – por exemplo, como tornar as aulas interessantes para uma geração de estudantes cercada de tecnologia. “Os alunos são digitais, mas os nossos professores são, em grande parte, analógicos. O que tem sido feito é estimular os professores a ter cada vez mais informação e conhecimento para poder trabalhar de maneira diferente o conteúdo das disciplinas”, conta Hernandes.

Para capacitar os professores da USP e de fora da Universidade na adoção das chamadas metodologias ativas de aprendizagem, foram criados os Centros de Aperfeiçoamento Didático, nos campi de São Paulo, Ribeirão Preto, São Carlos e Piracicaba. Além disso, foi instituído o Congresso de Graduação da USP e lançada a revista Grad+, ambos com a intenção de abrir espaço para professores compartilharem reflexões e práticas pedagógicas.

Ainda como política de valorização do ensino, a Pró-Reitoria de Graduação descentralizou as alterações curriculares dos cursos da USP: hoje, as unidades de ensino têm liberdade para realizar mudanças sem passar pelo órgão, o que dinamizou a atualização das disciplinas de acordo com as demandas identificadas pelos próprios professores e alunos.

Outra proposta é que os estudantes tenham maior autonomia para construir seu caminho na graduação, aproximando o formato de ensino da USP ao de universidades como Harvard e Stanford, em que o tempo em sala de aula é menor, mas a quantidade de trabalhos fora é maior. Segundo Hernandes, que é professor do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP, a experiência de alunos que realizaram intercâmbio no exterior, no programa Ciência sem Fronteiras do governo federal, e puderam vivenciar essa cultura, contribuiu para iniciar a mudança no processo de gestão acadêmica.

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Antonio Carlos HernandesÉ preciso capacitar os professores e mostrar para os alunos que a lógica mudou. Não é necessário estar na sala de aula o tempo todo, mas você tem que trabalhar muito para que, no processo de formação, a sua parte seja uma parte colaborativa fundamental.

A principal mudança, avalia o pró-reitor, é que o professor passa a ter um papel muito mais de orientador e deixa de ser o centro do processo de aprendizagem.

O processo de seleção para estudar na USP é um dos mais concorridos do Brasil. No vestibular passado, mais de 142 mil estudantes se inscreveram na Fuvest para disputar 9.568 vagas. A seleção de 2016 contou com uma novidade: pela primeira vez, a Universidade ofereceu 1.489 vagas via Sistema de Seleção Unificado (Sisu), que considera a nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Hoje, a Universidade possui 177 opções de cursos de entrada, considerando carreiras oferecidas em diferentes períodos.

Mas o que faz os cursos de graduação da USP serem tão procurados pelos estudantes? Para o pró-reitor de Graduação há diversos motivos, mas um deles se destaca: a boa reputação da Universidade no mercado de trabalho.

“Os cursos de graduação da USP são de qualidade. Como posso corroborar essa afirmação? Com a inserção dos nossos alunos no mercado. Nossa função como universidade pública é atender à sociedade, dentro disso está a formação de recursos humanos. E se nossos alunos são muito bem aceitos e procurados pelo mercado, significa que o que fazemos é de qualidade”, avalia o professor.

Avaliações nacionais

Nos rankings globais, medir a qualidade do ensino é um desafio, já que é preciso criar indicadores válidos – e viáveis – para uma grande diversidade de instituições e países. As avaliações nacionais, nesse sentido, têm vantagem e procuram ampliar a visão sobre a qualidade da formação dos estudantes

Fábio Volpe, do Guia do Estudante - Foto: Divulgação
Fábio Volpe, do Guia do Estudante – Foto: Divulgação

O Guia do Estudante, publicado pela Editora Abril, por exemplo, tem foco justamente nos cursos de graduação. São consultados cerca de 8 mil professores, coordenadores de cursos e diretores de departamentos. Cada curso é avaliado por, no mínimo, sete colaboradores. “Nossa proposta é ajudar os estudantes que estão no final do ensino médio no momento da escolha profissional. Por isso, o foco principal da nossa avaliação são os cursos, e não as universidades como um todo”, afirma o diretor de Redação da publicação, Fábio Volpi.

Desde 2016, os pareceristas analisam os cursos em três aspectos: projeto pedagógico, corpo docente e infraestrutura. Volpi ressalta que, por se tratar de uma pesquisa de opinião, os resultados refletem, sobretudo, a imagem que o curso tem perante a comunidade acadêmica – algo parecido com a reputação entre pares presente em rankings internacionais, mas muito mais focada.

Sabine Righetti, do RUF - Foto: Divulgação
Sabine Righetti, do RUF – Foto: Divulgação

O Ranking Universitário Folha (RUF), elaborado pelo jornal Folha de S. Paulo, por sua vez, traz um conjunto de rankings: de universidades e também os de 40 cursos com maior demanda no País, de acordo com o Censo do Ensino Superior. Em todos eles, a qualidade do ensino tem um peso considerável: 64 pontos, de um total de 100, na nota dos cursos, e 32 de 100 na nota das universidades. O quesito é preenchido, majoritariamente, a partir de entrevistas com avaliadores do Ministério da Educação (MEC). Esses docentes apontam quais as três melhores instituições do País nas áreas em que fazem avaliação.

“Os indicadores, bem como os pesos, foram definidos a partir de uma visita que fizemos a uma série de rankings internacionais consolidados e da literatura científica”, explica a organizadora do RUF, Sabine Righetti. Outros critérios considerados pelo RUF na qualidade do ensino são a proporção de mestres e doutores em relação ao total de professores e os resultados no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade).
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Na edição mais recente do Guia do Estudante Profissões, que será lançada em outubro, 102 cursos da USP são avaliados com 5 estrelas. Os outros 21 cursos da Universidade receberam quatro estrelas. Acesse aqui a lista completa de cursos avaliados e estrelas recebidas

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Enade: por que zeramos?

Em 2016, pela primeira vez desde que o RUF foi criado, a USP ficou em segundo lugar no ranking de universidades, perdendo a liderança para a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com uma diferença de 0,43 na nota final. O que os próprios organizadores da classificação apontam como motivo para a queda foi o fato de a USP ter zerado um dos indicadores de ensino: o desempenho no Enade, que vale 2 pontos. O exame é obrigatório apenas em instituições de ensino superior particulares e federais.

A Universidade adotou o exame de forma experimental em 2013. Em 2014 e 2015, a prova continuou a ser oferecida para alunos de alguns cursos, porém com participação facultativa. Para o pró-reitor de Graduação da USP, Antonio Carlos Hernandes, a avaliação e os dados que o Enade oferece à Universidade não auxiliam no direcionamento de políticas para melhorar o ensino de graduação.

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Fonte: RUF – Arte: Jornal da USP


No acordo de cooperação estabelecido em 2013 entre a USP e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), órgão que aplica o exame, a USP deveria indicar especialistas para desenvolver pesquisas sobre o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes), do qual o Enade faz parte, durante três anos. Segundo Hernandes, porém, a participação não foi satisfatória. “No acordo que foi feito, a USP participaria mais ativamente desse processo de discussão da política do exame, mas a lógica do exame ficou para nós completamente controversa. No final, nós não fomos chamados para ter uma participação mais efetiva”, afirma.

Apesar de não considerar o exame uma ferramenta útil para a Universidade no momento, o pró-reitor reconhece que, assim como aconteceu com a adoção do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) como forma de ingresso na graduação, é possível que a USP participe do Enade em algum momento. “Isso não significa que a gente não vá participar do Enade um dia, mas vamos ter que conversar bastante sobre o exame”, pondera.
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Colaboraram: Ivanir Ferreira e Hérika Dias

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Para que serve o Enade?
O objetivo do Enade é avaliar e acompanhar o processo de aprendizagem e o desempenho acadêmico dos estudantes em relação aos conteúdos programáticos previstos nas diretrizes curriculares do respectivo curso de graduação; suas habilidades para ajustamento às exigências decorrentes da evolução do conhecimento e competências para compreender temas exteriores ao âmbito específico da profissão escolhida, ligados à realidade brasileira e mundial e a outras áreas do conhecimento.

Fonte: Inep

 

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