Setor de serviços tem trabalhador invisível

Docente de universidade canadense fala à Rádio USP sobre a saúde mental dos profissionais e também da reforma trabalhista em curso no país.

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Angelo Soares – Foto: Gabriel Soares

O trabalho no setor de serviços envolve dimensões relacionadas ao corpo, às emoções e à própria cognição do profissional que muitas vezes não são levadas em consideração pelos empregadores. Isso provoca uma “série de invisibilidades” que atingem a saúde mental do trabalhador. P31ara abordar o tema, o USP Analisa, programa da Rádio USP Ribeirão que vai ar nesta sexta, 26 de maio, recebe o professor da Universidade de Quebec em Montreal (UQAM) Angelo Soares.

Segundo Soares, essas invisibilidades acontecem porque o modelo utilizado para analisar o trabalho baseia-se na indústria e gera distorções quando aplicado ao setor de serviços. “Hoje, por volta de 70% da população ocupada no Brasil está no setor de serviços. No Canadá, esse número chega a 79%. Essas invisibilidades estão presentes muito mais do que imaginamos em nosso dia a dia. Temos invisibilidades ao nível das competências necessárias para fazer o trabalho, por exemplo, emocionais, relacionadas à utilização do corpo, relacionais. E essas competências geralmente são invisíveis”, diz ele.

Soares analisou alguns tipos de profissões do setor de serviços em suas pesquisas e identificou algumas dessas invisibilidades. “Teve uma enfermeira que me disse: ‘quando o paciente morre, todo mundo se envolve. Ele estava aqui há muito tempo, eu conheço a família, conheço os filhos, os netos. Quando ele morre, eu choro com a família. Mas quando eu saio desse quarto e entro no quarto ao lado, eu abro meu sorriso, porque esse paciente que morreu não precisa mais do meu sorriso, mas esse que está vivo precisa’. Então é uma ginástica emocional muito grande. Esse é um exemplo da competência emocional, da gestão das emoções necessária para fazer o trabalho”.

O docente também criticou as reformas propostas pelo governo brasileiro na área trabalhista, destacando que pode haver precarização e sérias consequências à própria saúde mental do trabalhador. “O governo afirma que essas mudanças vão gerar mais empregos, mas é preciso especificar o tipo de emprego. Podemos criar muitos postos de trabalho sem exigência de qualificação e que causem problemas de saúde. A qualidade é muito importante. Para a sociedade brasileira, será uma catástrofe que, em vez de mil empregos com autonomia e boa saúde mental para os trabalhadores, sejam criados dez mil onde, ao final de um ou dois anos, eles estejam completamente doentes”.

O USP Analisa é uma produção conjunta da Rádio USP Ribeirão (107,9 MHz) e do Instituto de Estudos Avançados Polo Ribeirão Preto (IEA-RP) da USP.

Mais informações: thcardoso@usp.br

Por: Thaís Cardoso

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